Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

28 de jan de 2014

Fúria - Capítulo 8

Eu estou a um quilômetro do Wall Street.
Estou a pé, sozinha e armada, atravessando uma rua de pouco movimento.
Essa esquina é repleta de bares e boates, o que significa que a noite isso aqui pega fogo. Essa rua é conhecida pra mim. Entro em um velho pub e o ambiente me coloca em nostalgia. Já frequentei esse lugar inúmeras vezes quando era mais jovem. Fiz alguns bons amigos por aqui. E é um deles em especial, que me levou até o local. Debruçada no balcão está Jena, uma garçonete que trabalha há muito tempo aqui. Jena é uns três anos mais nova do que eu e trabalha nesse pub desde adolescente. Pelos sorrisos e olhares que ela está trocando com um rapaz ali, percebo que estão flertando. Dou uma olhada rápida no rapaz. Bonito, mas isso não importa agora.
Quando chego perto do balcão, digo, sem nenhuma cerimônia:

"Jena, será que você poderia me dar uma ajudinha?"
   - Ela me olha com descrença no primeiro momento, mas então analisa meu rosto e percebe que não vim à toa. Jena sussurra alguma coisa pro moço bonito e ele vai embora. Ela então olha pra mim e pergunta com tom de voz baixo:

"O assunto é muito grave?"

"Sim."
  - digo, sem rodeios. Ela franze a testa. Então diz:

"Vem comigo."



   Eu a acompanho até o fundo do pub. É meio escuro, velho e empoeirado, mas tem uma enorme escada em espiral que leva pra um dos andares. O prédio onde o pub fica é bem alto, então tem andar para todos os funcionários morarem. Me pergunto se foi por isso que ela veio trabalhar tão cedo aqui. No ultimo andar, do lado da cobertura aberta há uma cúpula. Nós entramos nessa cúpula e ela diz:

"Okay. O que você quer?"

"Fazer uma ligação. É urgente. Preciso acertar umas coisas com um cara aí."
   - Eu digo. Jena me olha com uma cara de quem diz "olha lá o que você vai aprontar" e me arranja um celular. Eu saio e ela me diz:

"Juízo, Liza, apenas."

  Concordo com a cabeça e saio para a cobertura. O papel com o bilhete tinha um telefone escrito. Pego um binóculo que está no bolso da minha jaqueta e disco o número. Não demora muito para que um homem atenda. Ele ouve minha voz e diz que fui esperta por não ter simplesmente descartado sua oferta. A cobertura onde estou, é alta o suficiente para observar o Wall Street. Eu demoro um pouco, mas consigo detectar um homem de terno com uma mala na mão e o celular no ouvido. Conforme sua boca mexe, um som chega aos meus ouvidos. É ele.

"Sim, o que você quer comigo?"
   - Pergunto.

"Bem, eu tenho um chefe e ele ficou sabendo de algumas coisas sobre você..."

"Direto ao ponto."
  - Eu o corto. Eu já sei que o seu chefe me conhece. Sei tanto que desconfiei que ele estivesse rastreando meu carro e o deixei a dois quilômetros de onde estou.

"Enfim, meu chefe a achou muito útil. Eu tenho uma mala com 200 mil doláres dentro, pronta pra lhe entregar se você aceitar prestar alguns serviços a ele. Como, eliminar uma certa pessoa que dá um certo trabalho a ele. Pode me entender, não é?"

"Desculpe, mas não faço esses tipos de serviço."
   - Digo, pronta pra desligar o celular quando ele diz entediado:

"Por favor, eu sei que foi você que matou Jack Stevens."
    - Eu me calo. Ele sabe que eu ainda continuo na linha e conclui:
"Pense bem antes de recusar minha proposta. E sobre o meu chefe... bem, é melhor você tê-lo como aliado do que como inimigo."

  Eu dou uma risadinha debochada e solto:
"Não tenho medo de você e nem de seu chefe. Passar bem."

   Então desligo o telefone.
   O caminho de volta a meu carro não foi muito surpreendente. O homem, aparentemente, se conformou e me deixou em paz. Mas ainda é muito cedo para se tirar conclusões. O fato é que quando volto para meu carro, vejo um homem abrindo – ou tentando abrir – a porta do meu veículo. Meu instinto me faz sacar a arma e disparar contra ele. O rapaz desaba no chão e então paro pra pensar que ele não é o cara que falava comigo há minutos antes e sim um pequeno-ladrão-morador-de-rua. Verifico seu pulso. Tarde demais. Está morto. Minha bala pegou suas costas e atravessou seu tórax. 2 assassinatos em menos de uma semana. No que eu estou me tornando?
   Não tenho tempo pra me lamentar e muito menos me amaldiçoar internamente, por que o meu celular toca dentro do carro. Eu só usei o celular de Jena para despistar o meu paradeiro. E olhando para o visor, descubro que é exatamente ela quem está me ligando. Me assusto com seu tom de voz:

"Liza, socorro, me ajuda!"
  - Ela diz apavorada.
"Invadiram isso aqui e há tiros e vão me matar Liza, eles vão me matar!"

"Calma"
  - Digo. Minha mente tenta formular uma boa solução rapidamente.
"Me diz, quem são eles?"

"Três homens. Altos e fortes, de preto e..."

   Então há um grito, um barulho e o telefone fica mudo.
   Eu solto o celular e começo a correr freneticamente, sem me importar com o corpo do garoto ali.
   "Não seja estúpida" - minha consciência me repreende, mas eu a ignoro. Eu estou costumando ignorar o bom senso agora. Eu corro o mais rápido que consigo e minhas pernas começam a queimar. Eu me sinto viva, ligada na tomada. Eu sinto cada pulsação do meu corpo, gritando, saltando com a forte adrenalina em minha corrente sanguínea. Eu sei que é estupido correr para lá desse jeito, mas eu simplesmente não consigo parar. O vento chicoteia meu rosto, e depois de uma boa corrida, suada e ofegante, eu me lanço para dentro do pub com a mão no gatilho do revólver.
     A visão chocante me para.
     Fizeram uma carnificina por aqui.
     Corpos, sangue e mais corpos.
     Eles fizeram o trabalho rápido, por que está tudo vazio e quieto.
     Debruçada no balcão, a cabeça de Jena está mergulhada numa poça de sangue.
     Em seus dedos, entre suas belas unhas, um bilhete descansa.
     Pego o bilhete e a culpa pelo que aconteceu me toma.
     Eu olho um corpo e outro e sussurro: "Eu matei você. E você."
     Isso foi uma mensagem para mim.
     E como se não bastasse a cena, eles decidiram deixar um bilhete escrito:

Não estamos de brincadeira, Vaccari.
É.
Ainda é muito cedo para se tirar conclusões.