Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

28 de jan de 2014

Fúria - Prólogo


Nota: Eu já tinha postado esse conto no RLAfins, porém, estou respostando tudo de novo para deixar tudo arrumadinho, não só para quem já leu, mas principalmente para quem ainda não leu, okay? 

Era exatamente meia noite.
   Eu deveria estar dormindo. Pelo menos é isso que os meus pais acham que estou fazendo.
   Há alguns anos eu até conseguia cumprir a risca a orientação deles, porém eu não consigo mais dormir cedo, sejam lá quais forem os meus esforços.
   Mas é claro que eles não me entenderiam, portanto eu estou deitada na minha cama, encarando o escuro e fingindo que adormeci.
   A minha irmã nasceu a poucos meses, e eu fiz treze anos essa semana.
   Meu pai me disse para evitar aborrecer a mamãe, então tudo o que ela me pede eu faço sem objetar. Só para poupá-la.
   A verdade é que eu não durmo por que mesmo tendo pouca idade, eu sou cheia de preocupações. Especialmente hoje, um dia em que as coisas estiveram tão estranhas.
    Por que estou me sentindo assim?
Eu acordei com uma péssima sensação que me acompanhou o dia inteiro e parece se intensificar agora. Não houve nada especial, então não há lógica para eu ficar desse jeito.
      É, isso não tem lógica.
      Isso é apenas um sentimento bobo.
      Tento me convencer disso e me viro de lado, encarando a parede. Fecho os olhos. O medo repentino me toma. Eu começo a soar frio e parece que há uma bola presa na minha garganta.
       Não consigo mantê-los fechados por muito tempo. É aquela sensação que não me deixa. Aquela péssima sensação de perigo. Há algo muito ruim se arrastando para perto de nós.
        Me remexo na cama tentando encontrar uma posição confortável e a cama dá aquele ruído irritante com o meu movimento. Até que um som muito maior do que um arranhar de molas me faz gelar.
        Um grito agudo preenche toda a casa.
        Agora o ar cheira a morte.
        Pense, Liza, pense. Repito isso para mim várias vezes. Agora minha preocupação é fazer o mínimo de barulho possível enquanto me sento e encosto os meus pés no chão frio. Fui bem sucedida, afinal minha cama fez pouquíssimo ruído. Ando devagar, descalça, pés cautelosos em meio ao escuro. Minha mão está girando a maçaneta da porta. Eu poderia me esconder aqui dentro do quarto, mas eu tenho que salvá-los.
           O corredor não está tão escuro assim. Ele reflete a luz da sala. Está tudo estranhamente quieto. Eu dou alguns passos em direção a escada em espiral que vai para a sala, até que uma visão me para.
             Meu pai.
             Minha mãe.
             Amordaçados e amarrados a uma cadeira.
             Três homens altos.
             Eles tinham jaquetas de couro pretas.
             Eles também tinham armas.
             Me agacho, tentando me esconder. Eles não me notam. Até por que, eles estão muito ocupados atirando na cabeça dos meus pais.
             Ponho a mão na boca, abafando o grito. Lágrimas escorrem do meu rosto. Não chore, Liza, não chore. Murmuro para mim mesma enquanto as enxugo freneticamente. Não posso quebrar agora. Tenho que me manter firme. Não há tempo, eles vão subir e acabar com o resto de nós. Eu tenho alguém para salvar. Minha pequena irmã ainda está aqui em cima.
             Saio da escada e corro para o quarto. Tomara que ela não acorde. Tomo o máximo de cuidado possível para tirá-la de lá mas, que droga, eu não consigo parar de chorar! Corro com Rachael no meu colo e sumo as escadas da cobertura.
              O que eu vou fazer?
              Eles já devem estar checando os quartos, não vão demorar para subir a cobertura.
Olho para baixo e tenho uma ideia. É perigoso, eu sei. Eu não tenho outra alternativa. Não posso ficar aqui esperando a morte. A unica forma de escapar daqui é pular até o gramado.
             Ouço som de passos perto da escada. O tempo está se esgotando. Eu posso cair e morrer mas, se eu continuar aqui eu vou morrer do mesmo jeito.
              Não há outra saída.
              Com uma mão, seguro fortemente Rachael.
              Com a outra, me mantenho pendurada a uma altura de 6 metros.
              Queria ter mais força nos braços. Agora tenho poucos segundos até me encaixar e me lançar para o gramado. Respiro fundo e me preparo pra pular, sentindo a minha mão escorregar da base de concreto.
               Um.
               Rachael não pode se machucar.
               Dois.
               Um mínimo erro e nós duas estamos mortas.
               Três.
               Solto minha mão e o vento chicoteia meu rosto.
               A dor surge no meu calcanhar e se espalha pelo meu corpo como uma corrente elétrica. Ouço o choro de Rachael. Com certeza eu torci o pé. Estamos vivas afinal. A sala está vazia. Eles estão lá em cima, penso. Minha chance de escapar daqui. Ignoro a dor no meu pé e corro em direção ao portão de ferro.
                 Tiros.
                 Eles estão atrás de mim.
                 Eles me viram e estão atirando na minha direção, eu sei.
                 Eu vou ser atingida, vou ser atingida.
                 A dor no meu pé não é nada em comparação ao que sinto agora.
                 A luta selvagem pela vida.
                 Rachael chora no meu colo e eu me lanço para fora do portão baixo.
                 Meus braços envolvem o corpo pequeno do bebê enquanto o meu corpo bate com força e rola no chão. Arranhando, sangrando, tirando pedaços de pele.
                Eu estou sangrando, suja e dolorida. Porém, viva.
                A adrenalina corre pelas minhas veias, me aquecendo por inteira.
                É horrível mas, é triunfante.
                Olho para trás, vendo apenas os vultos pretos andando pela varanda.
                Vocês falharam, meus queridos.
                Eu sobrevivi.
                A caçada acaba de começar.
                Eu volto.