Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

31 de mar de 2014

Calibre 11 - Capítulo 2

Clínica Psiquiátrica Bay Helvet, centro de New Roman, três e meia da tarde

– Sentiu minha falta?
Uma voz feminina e familiar soa perto de mim. Levanto a cabeça da pilha de papéis na minha mesa e Tiffany McGrey está lá, sorrindo levemente, com seus cachos loiros tão revoltos como sempre foram.

– Tiffany!
Solto, me levantando. Seu sorriso se abre mais, e posso sentir o cheiro de perfume masculino na sua roupa quando vou abraçá-la. Um perfume masculino muito familiar, aliás. Me afasto um pouco e arqueio uma sobrancelha.
– Richard?
Ela ri, e confirma com a cabeça.
– Ele foi me buscar no aeroporto.

Tiffany está namorando meu irmão mais velho faz um pouco mais que dois anos. Os dois negaram o relacionamento no início, mas chega uma hora que as coisas ficam evidentes.
     Tiffany estava de viagem faz um mês, numa cidade litorânea chamada Andalus. Somos amigas desde a faculdade e enquanto eu me aventurei nos caminhos espinhosos da psiquiatria, ela foi para a Cirurgia Pediátrica.
– Então, pelo visto a sua volta à New Roman tem sido muito boa.
Digo, voltando a me sentar em minha mesa. Ela se joga num dos sofás do escritório e solta um suspiro cansado.
– Nem tanto.
Ela diz.
– Meus pais não me deixavam em paz.
– O que eles fizeram dessa vez?
– Só ficaram me enchendo o saco o tempo inteiro por ter ido pra Andalus sem ter levado o Josh comigo.
Ela solta, a irritação nítida em sua voz.

– Eu não estava lá a passeio, eles já devem entender que eu tenho um trabalho que me exige esforço e dedicação, não posso ficar de babá do meu irmão adolescente irresponsável enquanto eles estão na África.
– Custava levar o pobre garoto pelo menos?
Digo. Tiffany me encara com os olhos semicerrados.
– Você sabe que ele iria me atrapalhar.
– Bom, mais alguma novidade?
   Pergunto, desviando o assunto antes que ela comece um discurso sobre o quanto os pais dela foram irresponsável por deixá-la quase sozinha logo quando foram para a África. Tiffany nunca teve uma relação muito boa com sua família, especialmente pelo fato de que seus pais sempre lhe foram ausentes. Ela sempre teve uma vida confortável, e eles sempre trataram de garantir que ela estivesse sempre bem alimentada, bem vestida e nos melhores colégios do país, mas nunca estiveram com ela realmente.
Ela olha para mim e sua expressão facial está diferente, uma testa franzida em preocupação. Eu a encaro sem entender e ela arrasta uma cadeira para perto de mim.
– Na verdade, tem uma coisa que preciso te contar.
Tiffany sussurra.

– Eu tentei adiar esse momento, mas não posso. É muito importante.
Eu a encaro, analisando-a cuidadosamente.
Ela não desvia o olhar e gradativamente, a preocupação em seu olhar vai sendo substituída pelo medo.
O assunto é realmente importante.
– Por aqui.
Digo e ela me segue, sem objeções. Nós saímos no meu escritório e pegamos o elevador. Nono andar. Permanecemos em silêncio.
As portas do elevador se abrem depois de segundos intermináveis, nos revelando o corredor claro e deserto.
Porta cinco.
Nossos saltos fazem barulho, quebrando o silêncio do andar. Tiffany para alguns metros da porta metálica enquanto me posiciono em frente a ela. A luz azul passa pela minha cabeça e vai até meus pés, indicando que estou sendo escaneada. Com certeza isso vai para os registros, registros esses que podem ser apagados depois. Ouço um clic e a porta se abre em seguida.

Estamos na sala de vidro, com suas paredes que escondem o verdadeiro segredo desse lugar. Há medicamentos fortes, restritos, que ficam armazenados e escondidos em cada tijolo de vidro. Não há câmeras, nem sensores, nem nenhum outro tipo de dispositivo de imagem, vídeo ou áudio e pouquíssimas pessoas tem acesso a essa sala.
– Pode falar, aqui é completamente seguro.
– Lembra quando eu disse que o Richard foi me buscar no aeroporto?
Ela diz. Eu concordo com a cabeça.

– Então, ele não estava sozinho.

Ela me entrega um pedaço de papel amarelado e eu percebo que suas mãos estão tremendo. Eu tomo o papel de sua mão, desconfiada e leio seus dizeres...

“A GOSC está convocando você! 
Richard Helvet estará te esperando no aeroporto central de New Roman.”

– Eles me disseram que você entenderia.
Tiffany diz, suas pupilas dilatadas, visivelmente assustada.
– Você entende, não entende?!
– Sim.
Digo e é a verdade.
Então eu me aproximo de Tiffany, aperto suas mãos geladas.

– Escute.
Sussurro.
– Ninguém pode saber da existência desse bilhete, entendeu?
Ela balança a cabeça freneticamente.
– Quando sairmos dessa sala, você vai agir como se isso nunca tivesse acontecido.
Digo. Ela ainda olha para mim assustada, mas vai fazer o que eu digo. Eu a encaro e vejo que a curiosidade ainda está lá, apesar do medo.

– Pela sua própria segurança, é melhor que você nunca saiba o que estava escrito nesse bilhete.