Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

12 de abr de 2014

Calibre 11 - Capítulo 3


Aeroporto Central de New Roman, 4 da tarde
Não demora para que eu veja meu irmão Richard no meio do turbilhão de pessoas que vão e vem. Richard é muito alto, uma das características que fazem com que ele pareça intimidador e autoritário quando está sério.
Esse é um daqueles momentos.
Ele está sisudo, observando atentamente o local com os braços cruzados sobre o peito, me procurando. Eu estou séria também, com aquela mistura de apreensão e raiva por Richard não ter me contado que trabalhava para a GOSC.
Eu sei que é injusta essa minha exigência, mas não deixo de ficar aborrecida com ele.
Eu já sabia de tantas coisas que um cidadão normal não deveria saber, uma coisa a mais não faria diferença.

– Richard.
Digo assim que me aproximo dele. Minha voz está perfeitamente controlada, escondendo o nervosismo, a raiva e o mais importante: meus pensamentos rebeldes.
  Richard olha para mim e abre um sorriso amigável, como se fosse um simples encontro entre irmãos. É claro, todo mundo já percebeu que isso é muito mais que um encontro, com todos os soldados nos cercando, mas ninguém se atreve a nos encarar, muito menos dizer alguma coisa.

– Não me faça perguntas, ok?
Ele sussurra no meu ouvido, disfarçadamente, enquanto sua mão enorme aperta meu braço direito. Eu o encaro e me surpreendo com a sua semelhança com o papai. Assim como meu irmão do meio, Jason, ele tem os olhos azuis claros dele. Mas, não é apenas isso; ambos carregam a expressão de papai e aquele ar de liderança.
Eu gostaria de ter esses olhos. Tão bonitos e tão ameaçadores, ao mesmo tempo.
Richard me lança um sorriso e diz, mais alto:

– Vamos.

Então ele se afasta completamente, dando espaço para que eu passe.
Eu começo a andar e ele fica do meu lado, enquanto os soldados ficam atrás de nós.



   Calanma¹ passou por um rápido processo de crescimento, mais rápido do que se esperava de um país destroçado pelas catástrofes e guerras. Nosso mundo entrou em colapso 15 anos atrás, depois da enorme tragédia de razão ainda desconhecida que assolou o mundo. Um hiper tsunami que atingiu os dois extremos da terra, engolindo boa parte da América e Ásia foi o suficiente para mergulhar todos nós na mais completa loucura. As antigas principais potências foram completamente destruídas, seus estilhaços atingindo uma parte da Europa e África.  Os não-atingidos tiveram a chance de se tornar os novos donos do mundo, enquanto os sobreviventes das áreas mais devastadas tiveram que se reinventar e reformar sua sociedade. Foi aí que começou a outra parte do horror de 2025: as guerras. Com a fome e a miséria tomando conta do mundo, o ser humano passou a ser mais selvagem do que jamais foi desde os tempos medievais, matando e estuprando uns aos outros sem nenhum tipo de pudor ou remorso.
    Calanma começou a surgir de um grupo de pessoas que perceberam que a única forma de sobreviver seria unindo-se e ajudando uns aos outros. Recebendo o nome de “A águia”, o grupo passou de dez a vinte, de vinte a quarenta, e assim foram se expandindo, conquistando territórios, até se transformar numa verdadeira nação. A GOSC foi uma das primeiras instituições a serem criadas, sendo um dos chamados “alicerces” do país. Sua importância e poder de ação é muito grande, muito maior do que se possa imaginar.
E aqui estou eu, cercada de oficiais, caminhando para a GOSC.

  Eu tento não pensar tanto em Calanma, na GOSC ou o que me levou a ser chamada e presto atenção nas escadas. Meu salto faz barulho, um toc toc irritante e fora de lugar no meio do som das botas pesadas contra o piso gelado.
Então, depois de descer vários e intermináveis degraus, paramos.
Há portas enormes, de aço, que tomam toda a parede, como se estivesse escondendo uma parte da cidade.
Richard digita uma série de números no painel que fica no centro.
As portas se dobram, num efeito sanfona, revelando um corredor parecido com o nono andar da clínica.
Mais uma porta.
Nós paramos em frente a ela porque há um scanner.
Depois de alguns segundos, esta também se abre, porém, ninguém se move.

– Vá.
Richard diz, dando a entender que a partir daqui, devo seguir sozinha.
Olho para ele, que faz um movimento com a cabeça que significa “vai ficar tudo bem”, mas eu não tento certeza se posso confiar.
Mesmo assim, não tenho muitas opções.
Eu solto o ar e caminho para frente.
As portas se fecham atrás de mim.

Examino o local; limpo, arrumado, silencioso.
À minha frente, uma comprida mesa de mogno com vários papéis virados, canetas, um celular, a bandeira de Calanma e um porta retrato com a foto da minha bisavó, Clementine Helvet. Ela ainda está viva, apesar de muito velha, e a grande expectativa é sobre quem vai ficar no lugar dela quando estiver morta, coisa que não vai demorar a acontecer.
Os Helvet sempre estiveram ligados à liderança desse país, portanto, a maior aposta é a de que um Helvet fique no lugar. Talvez, quem sabe, Richard. Ou Jason. Ou eu.

– Prudence.

Uma voz feminina, apesar de grave, soa atrás de mim. Eu não me assusto. A mulher magra de pele negra e cabelos presos num coque é familiar para mim. Evan Black. Eu tinha a visto faz muito tempo, mas me lembro perfeitamente da expressão séria e da voz autoritária que soava no microfone numa palestra. Eu disse a mim mesma que ela tinha ares de uma líder, e ainda não sabia quase nada sobre a GOSC.
Ela também me reconhece, mas eu acho que ela me conhecia muito antes daquela palestra.
Fico pensando se os meus pais também não trabalhavam para a GOSC.

– Senhora Black.
Ela esboça um sorriso.

– Eu sabia que viria. Uma moça como você não deixaria escapar essa oportunidade.

Claro que não, até porque, quando a GOSC te chama, você não pode recusar. 
Ela com certeza deve saber disso, mas há coisas que não devem ser ditas, então fico quieta.
Meu silêncio também lhe passa uma mensagem.
Direto ao ponto.

– Acompanhe-me.
Ela ordena, captando minha mensagem subliminar, e eu a sigo.
Evan abre uma porta e nós entramos numa sala com duas cadeiras, uma mesa, uma maleta prateada e um painel cheio de comandos. Eu já o tinha visto antes: é um polígrafo de última geração.
Detector de mentiras.
Eu já deveria ter imaginado que passaria por isso.

¹Calanma é uma variação da palavra turca "canlanma" que significa ressurgimento.