Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de abr de 2014

Calibre 11 - Capítulo 5


– Eu presumo que essa não seja a melhor ocasião para um reencontro romântico.
Ben diz, esboçando seu típico sorriso enviesado, provavelmente contente consigo mesmo por ter me deixado sem reação. Eu quero soltar uma réplica ácida, mas quando abro a minha boca, nada sai.
– Apesar de tudo, estou feliz em revê-la, Prudence.

– Você já sabia que era eu, não é?
Digo, aliviada por encontrar minha voz firme e neutra.

– Esse foi um dos motivos pelo qual eu fui embora.
Ele diz isso encolhendo os ombros, como se estivesse falando de algo frívolo, sem importância.
– Não pensa que eu poderia ter te contado sobre a GOSC, pensa?

– Não.
Respondo e é verdade. Eu sinto que devo sinalizar para mim mesma quando digo uma verdade, tamanha a quantidade de mentiras que tive que soltar nos últimos tempos. Mas o fato de eu estar completamente ciente de que ele tinha motivos para esconder a GOSC de mim, isso não me faz ficar menos chateada. Então eu solto a minha réplica ácida:
– Mas pelo menos você poderia ter terminado de uma forma descente, me enviando uma carta ao invés daquele bilhete.

– Eu não gosto de escrever.
 Ele diz, encolhendo os ombros, novamente.
– Além do mais, em uma carta eu teria que explicar os motivos do término, o que me levariam, de uma forma ou de outra, à GOSC.

– Você poderia inventar uma história.

– Não sou tão bom mentiroso quanto você.
Ele me alfineta. Eu me calo e desabo num pequeno sofá branco.


– Então quer dizer que você é o meu instrutor?
Digo, mudando de assunto. Ben levanta seu sincronizador em resposta. Eu pego o meu e coloco em cima da mesa, ao lado do seu. Ele aperta os botões dos dois e aguarda por alguns segundos. Depois, ouço a voz dele soar em meus ouvidos.

– Pode me ouvir pelo fone?
Ele pergunta.

– Posso.
Respondo e ele sorri, mostrando que minha voz também soou em seu fone. Ben entrega meu sincronizador e eu o guardo de volta.
 
  Eu observo enquanto ele arruma suas coisas numa mala de tamanho médio. Está em cima de um balcão e eu o vejo carregando a arma tranquilamente. Há também o interessante movimento dos seus músculos enquanto ele se move com agilidade, mas eu tento não prestar muita atenção nisso.
   No final das contas, ele termina o seu pequeno trabalho, puxa uma cadeira a minha frente e se senta, me encarando com sua expressão descaradamente divertida. Eu não faço esforço para puxar conversa e permanecemos ali, olhando um ao outro, mergulhados no silêncio, até que ele abre a boca para perguntar, depois de um alto e preguiçoso suspiro:

– Então, como andam as coisas?

Eu arqueio uma sobrancelha. Ele sorri abertamente ao meu gesto e solta:

– Alguém tinha que quebrar o silêncio.

– Eu deveria estar muito brava com você, brava ao ponto de não lhe dirigir a palavra.

– Eu sei disso, mas também sei que você é uma mulher prática, que vai abrir mão dessas coisinhas pelo bem de todos nós.

Arqueio uma sobrancelha novamente. Ele encolhe os ombros.

– Bom, vamos ficar presos aqui dentro durante uma hora e seria arriscado te contar a missão aqui. Portanto, a menos que você queira uma viagem tediosa, vai ter que falar comigo.

– Sabe que é insuportável, não sabe?

Ele ri. Não uma risadinha básica, mas aquela velha gargalhada da qual eu gosto mais do que deveria gostar. Eu observo como seus olhos brilham em diversão e faço uma pergunta séria, apenas para que ele pare de sorrir porque o seu sorriso me traz lembranças dolorosas…

 – Para onde estamos indo?

– Andalus.
Ben diz, voltando a ficar sério, e eu solto o ar, aliviada por perceber que minha pergunta teve o efeito desejado. Eu não faço nenhum gesto que indique interrogação, mas ele se sente no dever de adicionar:
– Isso mesmo, o lugar onde Tiffany estava antes de voltar a New Roman.

– Você que falou com ela?
 Pergunto, lembrando de seus olhos verdes arregalados com o medo.

– Não, eu só a conduzi até a base.
A GOSC possui uma ou mais bases em cada cidade do país, tendo sua sede localizada em New Roman. Ben continua:
– Eu entendo que ela esteja assustada com tudo isso e você também…

– Não estou assustada.

– Está.
 Ele rebate.
– A única diferença é que sabe canalizar isso melhor que o resto das pessoas.

Eu fico quieta.

– A GOSC gosta de pessoas como você, que possuem perfeito autocontrole e mentem com facilidade.

– A GOSC gosta de mentirosos, exceto quando esses mentirosos mentem para a agência.
Ele sorri com a minha resposta, se inclina para mim e solta finalmente:

– Coisa que você, prudente como o seu próprio nome indica, não irá fazer.