Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

30 de abr de 2014

Calibre 11 - Capítulo 7

                                                                                 Rua Dashe, Primeiro setor de Andalus, 7 da manhã
Eu acordo com a luz do sol no meu rosto, o que no primeiro momento é estranho, porque no meu apartamento, em New Roman, meu quarto sempre ficou ao sul da casa, onde quase nunca bate o sol.
Mas então eu lembro que não estou mais em New Roman.
Levanto a cabeça do travesseiro e dou uma olhada no quarto; ele é preto e branco, como suponho que todos os quartos aqui sejam, e é aconchegante, arrumado e simples. As cortinas são finas, de um cinza bem claro, o que significa que ela não foi posta aí com a intenção de bloquear os raios solares.
Mas o que me chama a atenção no meio disso tudo é o cheiro de comida que vem de lá de baixo.
     Antes de seguir os meus impulsos de levantar e ir até a cozinha, desafasto as cortinas e tenho um vislumbre da cidade. O apartamento de Ben fica no primeiro setor de Andalus; as cidades de Calanma, em sua maioria, são divididas de 3 à 5 setores. Todas essas cidades foram construidas em cima de um rígido e minucioso planejamento, ou seja, o que vai decidir o número de setores de uma cidade envolve uma série de critérios, como extensão do território, população entre outros. O controle de natalidade existe, apesar de sutil, inserindo - ao invés das punições jurídicas - o pensamento de censura em relação à uma prole muito grande, o que gera cobrança social para que se tenha pouquíssimos filhos, e as vezes, em casos extremos, havia intervenção cirúrgica.
   Minha família não passou por esse tipo de transtorno, apesar dos três filhos, porque somos Helvet. Ninguém bate de frente com um Helvet por aqui. Mas a grande preocupação é não deixar que a população ultrapasse o número estimado; superpopulação gera pobreza, pobreza gera periferias e periferias são o câncer de um país. Eu não sei muito bem como as coisas funcionam em Andalus, mas em New Roman, havia três setores: o 1º setor, onde ficam os fóruns e as principais organizações políticas do país, além da mansão presidencial. Minha mãe morava lá antes de casar, e quando se casou, preferiu mudar de setor, mesmo sendo seu direito permanecer morando ali. Mesmo se mantendo afastada dos assuntos políticos que envolviam os Helvet, ela decidiu manter o nome, depois de casada; em Calanma, quando as pessoas se casam, elas devem usar apenas um sobrenome, que pode ser da mulher, ou do homem.  É uma ótima área, tranquila e segura, porém tudo lá é muito caro. O 2º setor é o centro, a maioria das pessoas moram ali; é muito maior e mais movimentado que os outros setores, e possui o maior número de arranha-céus. Todo tipo de transações econômicas e comércio se concentram lá; era no 2º setor onde morei durante praticamente toda minha vida. O 3º setor se dá aos centros acadêmicos, grandes laboratórios, faculdades, republicas, colégios internos e qualquer coisa que envolva a palavra “estudos”.
 
  Quando eu desço para a cozinha, alguns minutos depois, Ben está lá, no fogão, usando apenas uma calça de pijama e com um pano qualquer jogado no ombro direito. Eu desço as escadas silenciosamente, mas ele me nota num segundo.

 – Você é silenciosa, mas seu perfume te denuncia.
Ele diz de costas para mim enquanto vira os ovos para lá e para cá na frigideira. Eu observo em silencio, enquanto ele tira os ovos da frigideira e põe num prato. Eu me sento na mesa, e ele pousa o prato na minha frente, me dirigindo um amplo e belo sorriso:
– Que bom que acordou.


Eu fico em silêncio e não retribuo o sorriso. Não é por birra, mas porque eu ainda me sinto tão cansada que não vejo forças para sorrir.

– Café?
Ele pergunta, sério, com seu tom de voz casual, tranquilo e sereno. Eu faço que sim com a cabeça e ele não demora em me trazer uma caneca cheia até a metade; eu tomo um gole e percebo que está exatamente do jeito que eu gosto: sem leite, forte e com pouco açúcar.

– Eu acho que essa é uma boa hora para falar sobre a missão.
Ben diz finalmente, se sentando em frente a mim, e eu sinto a descarga de adrenalina no meu corpo. Ele estava certo quando disse que eu estava assustada, mas alguma parte de mim está histérica, animada. Contenho o impulso de me inclinar para ele e deixo que continue:
– Deve imaginar que a sua chamada tem algo a ver com Daphne Redfort, não é?

Prendo a respiração ao ouvir esse nome.
Eu já lidei com vários psicopatas de níveis diversos, mas Daphne é diferente.
E eu não sei o que pensar dela.

– Não.
Eu respondo e é a verdade. Por mais óbvio que seja, eu não tinha me dado conta de que Daphne tinha sido a causa da minha convocação.

– Bom, um Helvet é naturalmente útil aos olhos da GOSC, mas você se tornou ainda mais interessante depois que Redfort exigiu que você a visitasse.

– Ela exigiu isso?!
Pergunto, incapaz de esconder o tom de surpresa.

– Sim. Ela tinha um psiquiatra que a visitava todas as vezes, mas um belo dia, por razões desconhecidas, ela pediu você… Daphne é uma rebelde, de Illies, portanto, é a nossa porta de entrada para os planos de nosso inimigo.

– E o que eu tenho que fazer?
– Você fará parte do júri do julgamento dela hoje. O que nós sabemos é que vai acontecer um ataque dentro do fórum e ela vai fugir. O que você tem que fazer é agir como se não soubesse de nada e permitir ser capturada.

– Capturada?

– Ela vai raptar você, Prudence.
Um silêncio incomodo se passa depois dessa última frase. Ele sabe que eu estou preocupada, apesar de não demonstrar isso.
– Nós não sabemos porque, ou quais são os seus planos, mas você está aqui para descobrir.

– Quais são os riscos?
Pergunto. Percebo que minha boca está muito seca, então eu agarro a caneca de café e bebo um bom gole.

– Bom, nós não sabemos de que forma será o ataque.