Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

4 de mai de 2014

Calibre 11 - Capítulo 8


Edifício Sans Adale, 4º setor de Andalus, 8 da manhã
 O principal fórum de Andalus é um prédio imponente, repleto de vidros escuros e soldados bem armados ao redor. Há vários na entrada do local, e quando eu olho para cima, apertando os olhos por causa da luz do sol, vejo alguns lá também, na cobertura.
   Eu encosto meu pulso esquerdo no sensor que fica na entrada do edifício. O sensor lê o número tatuado e as seguintes palavras aparecem na tela:

PRUDENCE MARIE HELVET
CIDADÃ DE NEW ROMAN
SIMC: 5SO4T
ENTRADA AUTORIZADA

Todos os cidadãos de Calanma possuem um SIMC¹, que é uma série de números tatuados no pulso esquerdo. A tinta usada nesse tipo de tatuagem não é a convencional, mas sim uma tinta específica que não pode ser alterada ou removida, nem por produtos químicos e nem por laser. É a nossa identificação, é o que nós somos perante o governo. Alguém sem um SIMC é alguém sem rosto, sem identidade.
  Eu caminho pelos enormes e imponentes salões e corredores do fórum.  O movimento é grande aqui, as pessoas são todas elegantes, discretas e parecem executar com facilidade suas tarefas. Eu me sinto um peixe fora d’água aqui, não apenas porque esse não é o meu local de trabalho, mas também porque não estou aqui por acaso. É uma sensação incomoda estar consciente o tempo inteiro do fone escondido em meu ouvido que me conecta à Ben e à GOSC. Eles estão olhando para mim agora.
Então eu lembro de Richard.
Ele também faz parte da GOSC.
E é estranho, porque ele é meu irmão.
Meus pais sempre evitaram ao máximo que nos envolvêssemos nos assuntos políticos que cercam nossa família. Minha mãe odiava o fato de que um de nós, um dia, poderia ser o novo presidente, e fazia de tudo para que isso não acontecesse. Eu nunca me dei conta do quão perigoso era tudo isso, mas então eles morreram, e de repente eu me senti completamente indefesa.
Ben disse que eu deveria me dirigir à sala 5 e esperar. Eu não sei se ele estará aqui ou me vigiará de longe, mas eu sei que esse lugar está cheio de agentes da GOSC. Em todo lugar há agentes da GOSC, principalmente num fórum, minutos antes do julgamento de Daphne Redfort. Quando entro na sala supracitada, observo os soldados com armas de grande porte e cara fechada, imaginando de que forma poderia acontecer esse ataque. Eu não tenho certeza de nada, apenas de que, independente da forma de ataque, vai ser sangrento e vai matar muitas pessoas.
Talvez um número enorme de rebeldes invadiriam o fórum e lutaria com os soldados.
Seria o mais sangrento. Todos os tiros e corpos jazidos no chão.
Podia ser uma bomba.
Seria rápido, mas não deixaria chances de sobrevivência para nenhum de nós, nem para Daphne. Sem contar no fato de que o fórum estaria completamente destruído.
Eles não querem destruir Calanma, eles só querem tomá-la.


– Atenção.
O som duro e firme do juiz enche o salão, me tirando do transe. As pessoas começam a se sentar nos seus devidos lugares e as vozes vão sessando, gradativamente.
Olho para o juiz. Ele tem os cabelos grisalhos e algumas rugas, mas é bastante bonito.
Ele lembra o meu pai, e eu me forço a desviar o olhar.
Então eu olho para a platéia, e Ben está lá, olhando fixamente para mim, sentado no fundo, quieto, comum, indigno de atenção.

As portas da sala se abrem em seguida, e Daphne está lá, com algemas grossas de ferro nas mãos e nos pés, acompanhada de dois soldados, com a mesma expressão indiferente da última vez que a vi.
As pessoas se viram para olhá-la, mas ela não olha para ninguém, somente para frente, para o juiz, com a cabeça erguida de forma desafiadora. Então, seus olhos voam para mim.
Um brilho de reconhecimento passa por aquelas fossas negras, e ela quase sorri.
Quase.

– Então, que comece o julgamento da senhorita Daphne Redfort.

Eu percebo, enquanto as testemunhas de acusação - incluindo o laudo clínico do psiquiatra responsável por Daphne - são ouvidas, que em julgamentos como esse nunca há testemunhas de defesa ou advogados de defesa, e a única oportunidade que o réu tem de se defender é quando ele é questionado pelo promotor, no final da audiência.
    Soa injusto, mas, quem vai defender um psicopata? Um rebelde? Um traidor ou um terrorista?
Eu paro de divagar quando Ben sai da sala por uma porta lateral. Ele troca alguns olhares de reconhecimento com os soldados antes de ir e eu me pergunto o que o fez sair no meio da audiência; mas então, o juiz anuncia que é hora do testemunho da réu, e eu foco minha atenção no julgamento novamente.
    O juiz chama o promotor, que parece ter criado um argumento impecável - como se isso fosse necessário - para mandar Daphne de vez para a morte, porque ele apresenta uma expressão bem satisfeita consigo mesmo. Daphne continua indiferente, como sempre esteve desde o início, e eu penso que talvez eu agiria da mesma forma que ela numa situação como essa, porque todo mundo sabe que não há chances de se livrar da sentença.
Daphne Redfort já foi condenada muito antes de entrar nesse fórum.

– Senhorita Redfort...
Ele começa, caminhando para ela, cercando-a como um caçador cerca sua presa.
– A senhorita assume todos os crimes de que foi acusada?

– Sim.
Ela diz sem pestanejar, e a indiferença dela deixa o promotor desapontado. Ele bem que podia estar pensando que ela negaria, então ele usaria o seu argumento infalível, mas eu sempre soube que ela não iria negar. Daphne pode ser a pior pessoa do mundo, mas eu sei que ela assume o que ela faz.

– E não se sente arrependida?

– Não.

Eu reprimo um sorriso à expressão cada vez mais decepcionada do promotor.

– E qual a razão de todos esses assassinatos?

Um sorriso enviesado se forma gradativamente no rosto de Daphne e ela solta:

– Quer mesmo que eu responda?

Silêncio.
Não é como se as pessoas estivessem fazendo barulho antes, mas agora é como se elas estivessem prendendo a respiração.
As faces do promotor ficam de um vermelho intenso e eu começo a me perguntar o que poderia ter causado essa reação. Ele aperta os dentes e eu observo a protuberância que se forma no seu rosto pelo seu maxilar travado.
Eu espero que alguém diga alguma coisa, mas o que vem em seguida não são palavras e sim, por mais estranho que isso possa soar, uma tosse incontrolável que vem de uma mulher da plateia.
Seu rosto está vermelho e contraído, e ela põe a mão na garganta como se estivesse sufocada.
E no instante seguinte, essa mesma mulher cai no chão, desacordada.
   As pessoas começam a se aglomerar em volta da mulher morta e o caos começa quando outras pessoas apresentam os mesmos sintomas que ela. Em menos de 1 minuto, outras três pessoas caem desacordadas na mesma sala, sem nenhuma razão aparente.

– Prudence, saia daí, agora.
A voz de Ben soa forte e dura no meu ouvido. Eu quero perguntar porque, mas ainda estou em público e não posso me arriscar falando com ele na frente de todo mundo. As pessoas falam de uma vez só e eu mesma começo a sentir minha garganta fechar.
Então, eu me dou conta de que esse é o ataque.
Veneno.

Dois soldados caem mortos e alguém grita que há gás tóxico aqui; As pessoas começam a correr para a saída com a mão do nariz e boca, e quando olho para frente, Daphne não está mais lá.
As pessoas estão completamente agitadas, mas eu continuo imóvel.
Eu sinto meus olhos lacrimejarem.
Respirar está ficando cada vez mais difícil.

– Prudence, sai daí! Sai daí agora!
Ben grita no meu fone e eu saio do transe, me levantando da cadeira. Eu tropeço e tusso, me movendo em direção à saída lateral.
Eu abro a porta com um empurrão e começo a correr pelo corredor escuro. Meu salto atrapalha e eu quase torço o pé umas duas vezes, mas consigo descer, às cegas, as várias escadas que encontro.
Então, no final do último corredor, eu empurro uma porta pesada e minhas pernas dobram.
Fico caída na grama alta, respirando com dificuldade, tentando sugar o máximo de ar puro que consigo. O veneno penetrou na minha pele, e eu sinto como se meus ossos estivessem virando água.
Depois de um bom tempo recuperando ar, consigo me sentar e ver o lugar onde estou.
Provavelmente nos fundos do fórum, há vegetação e uma cerca baixa alguns metros de mim.
Minha visão também foi afetada, porque enxergo tudo embalsado.
Então um vulto – não, vários vultos – se aproximam da cerca. Eu aperto os olhos e me arrasto, tentando ver seus rostos.
Me ajudem, sussurro.
A voz de Daphne preenche o silêncio e eu lembro do porquê estou aqui.
Eles pulam a cerca e ela me oferece um de seus sorrisos enviesados.
Essa é a parte em que eu sou raptada.

– Olá, Prudence.

E de repente, tudo ao meu redor fica escuro.

¹SIMC: Sistema de Identificação por Micro-chip. Chips implantados no cérebro dos cidadãos de Calanma, associados à um código tatuado no pulso esquerdo que contém informações como nome, data de nascimento, nome dos pais, profissão, tipo sanguíneo e histórico de saúde e escolar.