Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de jul de 2014

Tormenta - Capítulo 2


Quando paro o carro alguns metros de Alanka, é tarde demais para impedir alguma coisa.
Alanka é um distrito de Dustfire, uma cidade que fica na fronteira entre Illies e Calanma. Dustfire tinha se tornado uma zona de risco desde o ínicio da guerra, assim como Pumi - o local onde eu estava uma hora atrás -. O lado norte da cidade já tinha sido completamente tomado pelas tropas inimigas e Alanka tinha sido o único distrito que tinha resistido, até hoje.
   Não há muitas vítimas, até porque o distrito tinha sido evacuado semanas atrás com a ameaça cada vez mais eminente de um bombardeio. O problema é que Alanka é uma área rural, repleta de fazendas e plantações, plantações essas que agora só fazem alimentar o incéndio causado pelas bombas.

"Daphne!"
   - A voz de Jason se sobressai em meio ao zumbido dos hélicopteros, carros e vozes de outras pessoas. A grande quantidade de soldados aqui estão não apenas para conter o fogo, mas também para procurar soterrados, homens que foram deixados para trás mesmo depois da evacuação. Eu pego a câmera e corro para perto de Jason.

"Me dê detalhes sobre a situação."

"Não há muitos, na verdade" - diz Jason. - "Alguns donos das fazendas praticamente obrigaram seus criados a voltarem a Alanka para buscarem pertences deixados para trás, infelizmente eles vieram num mal dia."

"Algum pronunciamento do governo?"

"Nenhum, ainda. Parece que a Central está ocupada demais para punir quem obriga seus criados a voltarem à áreas de conflito."
    - Jason acrescenta, com acidez. Eu o encaro por um breve instante antes de ligar a câmera e correr para mais perto do caos.

  Eu me pego inúmeras vezes me perguntando para que exatamente eu faço isso. Em nome de qual causa eu vou a lugares hostís, filmo cenas horrendas de pessoas mortas e locais destruídos; eu me recuso a trabalhar para a Central porque tenho medo do que ela possa fazer com as minhas imagens. Ao mesmo tempo, eu penso que entregar meus arquivos a Central possa ajudar a pôr um fim nisso tudo.

    Circulo entre carros e soldados, captando o máximo de detalhes que consigo. Minha equipe é encarregada de filmar a guerra, para quem sabe depois mostrar ao mundo o que a tão utópica e adorada Calanma foi capaz de fazer. É como um documentário, horas e mais horas de puro horror que poderá um dia servir para uma causa nobre.
    Ben diz que esses são arquivos extremamente valiosos para Illies e extremamente perigosos para Calanma, o que é uma verdade. Joanna, mãe legítima do Benedict e minha mãe adotiva, vive preocupada com nossas profissões e tentou várias vezes nos convencer de que se envolver com a guerra não era uma boa ideia.
     Eu me aproximo o máximo que posso do incêndio e filmo as enormes casas sendo engolidas pelas chamas. Há uma mulher grávida do que parece ser 5 meses que é tirada do local nos braços de um soldado. Ela tem os braços queimados, rosto e corpo sujo com a fumaça escura que agora se eleva aos montes pelo ar. Eu foco a câmera nela que está desacordada e num vestido floral velho e igualmente sujo. O soldado a coloca numa maca e um batalhão de médicos de branco a rodeiam, bloqueando minha visão. O corpo de um homem é tirado dos escombros de uma fazenda que foi diretamente atingida pelas bombas. Ouço a voz de Benedict do outro lado da rua, gritando comandos para outros soldados.
     A história da minha própria mãe já é familiar aos meus ouvidos. Ela era de Calanma e foi uma das tantas mulheres deixadas para morrer em cabanas no sul gelado do país. Ela morreu, mas eu sobrevivi. É uma história dolorosa e repleta de lacunas que eu quero preencher, mas que internamente, tenho medo do que posso descobrir. Talvez esse medo também me impessa de aceitar a proposta da Central.

"Desligue a câmera."
    - Uma voz feminina e autoritária dita para mim. Eu olho para o local da voz e Evan Muller está lá, em seu impécavel conjunto blazer e saia social cinza, calçando scarpin, mesmo em meio ao terreno irregular e arenoso. Evan parece tão fora de lugar aqui, tão formal e elegante entre as ruínas. Eu desligo a câmera e ela fala:

"Senhorita Redfort, se importa de nos acompanhar?"