Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

24 de nov de 2014

Tormenta - Capítulo 23

A moto de Eric se desloca, rápida como o vento.
Minhas mãos estão firmementes envoltas em sua cintura, e eu não posso deixar de perceber o quanto ele é muito mais forte do que parece ser, com o abdômen duro e definido, como uma muralha de carne.
Melanie protestou quando Eric afirmou categoricamente que ela não estaria com a gente, que ela ficaria em Pumi e só agiria no caso de uma emergência, mas bastou um simples olhar, gelado como um iceberg, para que ela percebesse que seria inútil reclamar.
Eu o invejo por isso.
Gostaria de ter esse efeito nas pessoas; um simples olhar fazer com que suas ordens sejam acatadas.
O cano da pistola que ele carrega é outra coisa que não pude deixar de perceber; o aço frio roçando no meu braço me faz lembrar do quanto ele mudou desde que voltou para cá. Eric abriu mão de suas brincadeiras e provocações e nos últimos dias, tem estado sempre sério, focado demais para perder tempo com futilidades.
Algo me diz que não é a Central, ou o sumiço de Tiffany que está deixando ele assim.
Descobrir a razão de sua mudança, essa é mais uma coisa que gostaria de fazer.
     O fato de estarmos sem nenhum aparelho eletrônico, praticamente incomunicáveis, é uma influência de Eric e seu receio na existência de sensores no lugar onde nós estamos indo agora. Nossa única garantia são nossas armas, que vão nos defender de um possível ataque.
Talvez eu veja Tiffany ainda hoje.
O pensamento fica latejando na minha mente, enviando pequenas doses de adrenalina toda vez que tento imaginar as condições em que ela pode estar. Tiffany pode estar nas piores condições, faminta, machucada ou até morta. Afasto essa última palavra. Eles não matariam Tiffany. Ela é importante, por ser uma Anshelf... ou não?
Talvez eu esteja enganada.
Descobri que estive enganada em tantas coisas relacionadas a Central que não tenho certeza de mais nada agora.



   Eric toma um novo rumo quando chegamos a determinada parte da rodovia. Ao invés de seguir a estrada, ele conduz a moto para o lado direito, nos emprenhando pela mata adjacente à pista. Tudo fica muito escuro de repente e a única fonte de iluminação são os faróis; a mata é silenciosa, o que faz com que o ronco do motor fique ainda mais alto do que normalmente é. Eric continua calado, sério, inacessível.
    Nós passamos por finos arbustos; a vegetação aqui cresce livremente, e as folhas são secas e mal cuidadas. Troncos de árvores são vistos de longe e Eric faz manobras com a moto, virando-a para lá e para cá, acelerando em determinados trajetos. Eu tento enxergar o máximo que consigo e quanto mais avançamos, mais o caminho fica de difícil acesso.
Eu não sei o que exatamente Eric quer nos enfiando numa floresta; ele deveria seguir a estrada, não nos trazer para dentro do mato.
Ele diminui a velocidade gradativamente e para, desligando os faróis.

"Ligue a lanterna." - Ele ordena.

"Eric..."
   - Começo.
"Tem certeza que esse é o lugar certo?"

Eric solta uma risada áspera.

"Fiquei esperando você dizer isso."
    - Ele afirma.
"Eu sei o que estou fazendo, Daphne."

Nós então seguimos, silenciosamente, o resto do caminho a pé.
Não demora muito para que a sombra de algo grande e sólido surja em nossa frente. Quando me aproximo, descubro que é uma casa velha e deteriorada, de modelo antigo, que parece ter sido construída antes do cataclisma. A tinta branca, que no final das contas acabou amarelada, descasca e cria pequenas crateras nas paredes. A escada que leva até a entrada está suja de terra e folhas e a porta é convencional, feita de madeira pesada e com uma fechadura antiquada, de ferro.

"Sem sensores."
    - Eric sussurra.

A guerra de satélites é velha e conhecida entre nós. O risco eminente de um dos satélites ser invadido e controlado pelo inimigo faz com que o governo poupe certas coisas de equipamentos tecnológicos, só por precaução.
A lembrança do compartimento subterrâneo em Helvet House provoca um calafrio que percorre meu corpo.
Seja lá o que houver nessa casa, não é algo que deveríamos saber.

   Eric saca a pistola e caminha em direção a entrada. Eu faço o mesmo. O silêncio da mata de repente se torna assustador, como se um monstro pudesse emergir, a qualquer momento, da escuridão. Meus olhos finalmente se adaptaram ao local e eu fico mais alerta, observando a floresta, movendo a pistola de um lado para o outro, em busca de alguma luz, algum som, algo que denuncie que não somos os únicos aqui.
Olho para Eric de soslaio e o vejo apanhando uma lasca de madeira do chão. Ele mexe para lá e para cá na fechadura e então, com um rangido, a porta se abre.

O interior da casa é ainda mais escuro que o exterior.
Um odor de mofo e poeira irrita minhas narinas e eu coloco a mão no nariz, instintivamente, tentando parar um possível espirro. O fedor não parece incomodar Eric, que permanece como sempre esteve, alerta, com arma em punho. Ele dá um passo para frente e espera, em um silêncio tão profundo que prendo a respiração para que o som dela não atrapalhe.
Então, quando ele se certifica de que não há nenhum barulho estranho, sua mão esquerda voa para o interruptor na parede, ligando a luz.
Mais silêncio e espera.
O que eu vejo é uma sala comum, com poucos móveis. Tudo está muito arrumado e limpo, para minha surpresa, mas as almofadas estão empoeiradas, como se não tivessem sido tocadas há semanas. O piso é de madeira, e há várias delas relativamente soltas, o que me faz praguejar internamente com o barulho dos meus passos. Dou uma última checada no lado de fora antes de seguir Eric.
    Eric se move pelos corredores da casa, apontando a pistola para lá e para cá, e eu vasculho toda a extensão da sala de estar. Há três portas na parede esquerda do corredor e mais uma na parede direita; a cozinha fica no final do corredor, e não tem portas. Eric encosta na parede, ao lado da entrada e me chama com um movimento na cabeça.

"Há um corredor à esquerda, na cozinha."
    - Ele sussurra para mim.
"Você entra lá e eu te dou cobertura."

Faço um movimento afirmativo com a cabeça, me movendo em direção a entrada.
Espero. Tudo está tão silencioso quanto antes.
Então, com um movimento rápido, eu pulo para a entrada do corredor, minha arma apontada para frente.
O corredor está tão vazio como o resto da casa; há uma única porta na parede direita e ela está entreaberta. Posso sentir Eric atrás de mim, observando os pontos que não posso observar, não agora.
Me movo em direção a porta, e com o pé, eu a empurro, até que fique escancarada.
Quem se move dessa vez é Eric, ágil como um gato, entrando no lugar que acabo de descobrir ser um quarto. Há apenas um guarda roupa enorme e cinza, uma cama de casal forrada com uma colcha da mesma cor e as cortinas. Eric confere as paredes, os cantos do quarto e o guarda roupa, completamente vazio. Caminho por toda a extensão do quarto, até que um barulho vindo do piso, a dois passos da cama, me faz parar.
Bom, é comum que pisos velhos de madeira se soltem com o passar do tempo, mas eles não afundam da forma que os vejo afundar.
Me afasto e pressiono o pé em determinado local, só para ter certeza.
Eu e Eric nos entreolhamos.
Essa parte do chão é oca.

No instante seguinte eu estou agachada, forçando as tábuas de madeira para cima, com minha arma pousada em algum outro lugar. Dou murros aqui e ali e o piso afrouxa, facilitando meu trabalho. Não me importo mais com o barulho que estou fazendo, porque algo importante pode estar debaixo desse piso falso. Então, com um ruído surdo e uma nuvem de poeira, a madeira solta, revelando uma entrada subterrânea.
Minha respiração fica entrecortada enquanto observo o compartimento.
O começo de uma escada é a única coisa que consigo ver ainda. Eric se oferece para descer, mas eu recuso, porque eu quero ver o que está lá embaixo, preciso ver.
Uma ruga de preocupação se forma em sua testa enquanto ele me ajuda a descer os degraus.
Eu sei que ele não queria que eu estivesse fazendo isso, entrando num lugar desconhecido, mas ao mesmo tempo, ele entende e respeita minha vontade. Talvez ele esteja, inclusive, pensando o mesmo que eu agora.
Começo a tatear o local a minha volta.
Pelo tamanho, percebo que se trata de um sotão ou algo parecido com isso.
Então meu ombro roça numa parede e eu começo a tocá-la, às cegas, até encontrar um interruptor.
Eu sei que revelar a minha presença pode ser perigoso, mas é o melhor que posso fazer.
Ligo a luz, e o subsolo se estende em minha frente.

A escada que eu estava há instantes atrás é de uma madeira clara e pesada. O piso é de cimento e há algumas cadeiras velhas, fios mal ajustados encostados às paredes, toalhas sujas, espelhos e uma cama de solteiro onde o colchão na verdade é apenas uma espuma forrada com um lençol rasgado.
Na cama, uma mulher está deitada, com os cabelos loiros espalhados como um leque, inconsciente.
Me aproximo e vejo que ela também está suja, vestida apenas com uma camisa masculina e um short jeans bem surrado. Sua pele branca ressalta as picadas de agulha em seu braço. Hematomas estão espalhados pelas suas coxas e pescoço. Olheiras roxas e profundas circundam seus olhos. Seu rosto é familiar para mim, apesar de ela estar bem diferente da última vez que a vi.
Respiro fundo e lentamente quando minha mente formula uma frase que confirma o que acabo de ver...
Essa moça é Tiffany Anshelf.