Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

7 de dez de 2014

Tormenta - Capítulo 28

Vejo Eric bater a porta do carro com alguma espécie de força involuntária.
A moto de Melanie está estacionada a poucos metros de nós, e ela arranca o capuz de seu resto como se não pudesse mais suportá-lo, a cabeleira negra caindo como uma cascata em seus ombros.
O cano da minha pistola ainda se mantém pressionado contra a têmpora de Vikram Anshelf.
Ele permaneceu quieto durante toda a viagem, como se tivesse admitido que não há mais nada a fazer. Ele não tenta reagir agora que o carro parou, entretanto.

"Daphne."
   - Eric chama, abrindo a porta de trás.
"Pode sair, eu cuido dele."

Afasto a pistola. Assim que abro a porta oposta, Eric agarra Vikram pelos braços, puxando-o bruscamente para fora. Vikram não solta um som, apesar de caminhar de forma hesitante e desajeitada. Eric o faz sentar numa cadeira e Melanie acorrenta suas mãos e pés aos braços e pernas do ascento com pesadas algemas de ferro. Só depois de tudo isso, lhe é concedido o direito de estar sem o saco preto cobrindo a cabeça.

Vikram olha tudo ao seu redor e aperta os olhos, adaptando-se a luz.
Então seu olhar se lança sobre nós e ele abre a boca num gesto de reconhecimento e surpresa, que pouco a pouco se transforma num sorriso de escárnio.


"Ora, ora..."
   - Ele murmura.
"Os três terroristas mais procurandos de Calanma... bem na minha frente."

"Terroristas?" - Melanie solta uma risada áspera. - "É assim que nos chamam agora?"

"Mataram nosso presidente." - Vikram acusa. - "O que você queria?"

"Mas quanto a você, Vikram..."
    - Melanie murmura com falsa doçura; ela se inclina para frente enquanto completa:
"Tem sido muito ingrato comigo, depois de tudo o que eu fiz por você..."

  Eu não sei o que, exatamente, Melanie fez enquanto era agente, apesar de conseguir imaginar muitas coisas, mas isso não importa. Há assuntos mais importantes para lidar agora.

"Você costuma se chamar Helena Jumper, porém, acredito que esse não seja o seu verdadeiro nome."
   - Vikram diz.

"Melanie."
   - Ela revela, com uma voz igualmente cínica.
"Gostou?"

Vikram rola os olhos.
Eu me sinto tentada a fazer a mesma coisa, visto os joguinhos que eles fazem.

"Enfim, eu estou aqui pela minha filha, na verdade, é mais por Clarice mesmo e então..."
      - Vikram comenta com displicência. Eu o corto.

"Quanto amor paternal."
     - Comento, com ironia. As palavras são amargas na minha boca.

"Eu sei que nunca fui um pai exemplar para minhas filhas."
     - Vikram comenta com um sorriso condescendente.

É a primeira vez que eu realmente presto atenção em algo que ele diz.
A confusão se reflete nos três rostos.

"Filhas?"
    - Melanie solta a pergunta que está martelando na minha mente.
 O sorriso de Vikram se amplia mais.

"Isso mesmo."
    - Vikram responde.
"Há algumas coisas que vocês não sabem sobre mim. Uma delas é que Tiffany não é a única filha que eu tenho."

Um silêncio sepulcral se estende sobre o campo aberto.
Minha respiração se torna irregular e forçada. Não sei porque isso me afeta mais do que devia.
Melanie solta um risinho nervoso e diz, hesitante...

"Eu não entendi."

"Pois bem, Melanie..."
    - Ele fala, calmamente, frizando seu nome. A forma como ele se delicia com a situação me deixa ainda mais irritada.
"Daphne Redfort é, na verdade, minha filha mais velha."