Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de dez de 2014

Tormenta - Capítulo 31

"Isso é ridículo."
   - Benedict repete pela milésima vez no telefone. O barulho das sirenes e o falatório dificulta a ligação, mas ainda consigo entender o que o meu irmão fala.
"Não podem te jogar para o meio da guerra, você nem tem treinamento pra isso!"

Começo a me lembrar de todas as lições, táticas de guerra, aulas práticas que aprendi com Ben quando respondo...

"Tecnicamente, eu tenho."

"Não interessa." - Ele alega. - "Não estamos tão necessitados de soldados assim, estamos avançando, acabamos de tomar Ohtagua!"

A notícia do cerco e tomada de Ohtagua soou em todos os telões na manhã de hoje.
As pessoas foram invadidas pela mesma alegria histérica com que comemoraram a morte de Richard Helvet. Eu continuo tão carrancuda e tensa como sempre.
Eu agradeço internamente pela preocupação e o apoio que Benedict está me dando, indo contra a decisão da Central, apesar de não fazer ideia dos verdadeiros motivos que me levaram a isso. Eu penso em contar tudo, mas desisto assim que lembro que seu patriotismo é grande demais para que ele acredite em mim. Então, eu fico calada, fingindo estar tão surpresa quanto ele.

"Acha que eu devo contar isso a mãe?" - Pergunto, hesitante, ignorando o desconforto que a palavra 'mãe' me causa. Eu nunca tive muitos problemas em chamar Joanna de mãe, mas depois do que ouvi de Vikram, a ferida voltou a se abrir dentro de mim.

"Ela vai ficar péssima, você sabe."
    - Ele responde.
"Mesmo assim, seria ainda pior se você não contasse."

Suspiro cansada.
Olho para a carta da Central, pousada na cômoda ao meu lado. Daqui a uma hora, vou ter que estar lá, preenchendo formulários para estar de fato, no exército. Fico pensando no que Evan vai fazer quando se der conta de até onde nós fomos.

"Eu tenho que desligar." - Ben diz. - "Mas qualquer coisa, me avisa, ok?"

Eu sussurro um "ok" de volta antes de pousar o celular na cama.
Evan com certeza deve ter contado o número de frascos de soníferos e neurotransmissores, só assim poderia ter notado que alguém esteve lá. Então, de alguma forma, ela associou o nosso sumiço a Tiffany Anshelf, porém, como ela não tem provas para nos prender, se encarregou de enviar a sentença de outra forma.
Diferente do que Benedict pensa, não foi as nossas habilidades em combate que nos mandou para o fogo cruzado.



     Não vejo Eric quando chego na Central, exatamente no horário indicado pela carta. Há uma mulher de cabelo preso atrás do balcão, bem na entrada do prédio, conferindo telas e papéis, digitando códigos com rapidez. Ela parece surpresa quando eu me aproximo.

"Bom dia." - Digo. Tento escolher as palavras certas, desconcertada. - "Então, eu recebi essa carta e..."

"Recrutada?"
    - A moça pergunta, olhando o envelope na minha mão esquerda. Eu faço um gesto afirmativo com a cabeça.
"Me dê a carta."

Eu lhe estendo o pedaço de papel.
Ela abre, lê rapidamente os dizeres e digita algo na tela.

"Daphne Redfort, não é?"
    - Ela pergunta.
"Vá até o PAV4, subsolo. Apresente essa carta no balcão e eles vão te dizer o que fazer."

   Caminho até o elevador e digito o número quatro no painel referente aos andares subterrâneos. Me surpreendo com a quantidade deles e o quão além o prédio da Central vai, debaixo da terra.

Quando as portas da cabine se abrem, me deparo com um extenso corredor, com luzes imbutidas nas paredes e no teto. São cerca de seis aberturas quadradas em cada parede, onde uma lâmpada flourescente fica acoplada, e outras quatro no teto. O ar cheira a produtos químicos fortes, próprios para limpeza. O piso é de mármore cinza polido e vejo quatro portas, duas em cada parede. Homens altos circulam pelo andar com uniforme militar, e as únicas armas vistas aqui são pistolas sendo carregadas ou dentro do coldre e facas de diferentes formatos. A luz é fraca e translúcida. Uma barreira de vidro blindado separa os balconistas do resto de nós.

"Srtª Redfort, assine no local indicado, por favor."
   - A balconista me diz, me estendendo dois documentos de duas ou três páginas. Folheio os papéis, lendo rapidamente algumas coisas antes de assinar. Ela recolhe os documentos, carimba e se levanta. Eu observo ela sumir atrás das portas do balcão e voltar, instantes depois, com uma pilha de roupa azul escuro, uma pistola, duas facas, botas, uma braçadeira preta com uma série de números impressos e a cinta onde fica o coldre. A moça então aponta para uma das quatro portas e informa:
"O banheiro é bem ali. Se apresse, o carro forte vai chegar daqui a pouco."

Há apenas uma mulher no banheiro feminino.
Ela é um pouco menor do que eu, porém, é mais forte do que eu, e está ajeitando as facas na cinta. Seu cabelo está preso num coque e ela tem a fisionomia cansada, mas desafiadora, imponente. Olho novamente para minhas novas roupas; uma camisa azul escuro com o emblema de Illies estampado no peito direito. Calça de um tecido grosso e liso, da mesma cor. Botas pretas. Minha braçadeira. A pistola carregada, descansando no coldre, e as facas.
Meu cabelo está preso num rabo de cavalo, acentuando meu longo pescoço. Tento parecer um soldado de verdade, entusiasmado e orgulhoso de seu país, mas isso tudo me parece tão fora de lugar.

"Estamos na mesma tropa."
    - A mulher comenta, seus olhos fixos em minha braçadeira. A mesma sequência de números está impresso na sua.
"Parece que somos as únicas mulheres por aqui. Você é Daphne Redfort, não é?"

Sua voz é grave, mas não perde a feminilidade.
Na verdade, ela inteira exala um jeito durão, entretanto, isso não a masculiniza.

"Sou." - Respondo. Não é uma surpresa ser reconhecida. Meu rosto já apareceu mais vezes na TV do que eu gostaria.

"Por que está aqui?"
   - Ela pergunta.

"Porque a Central mandou." - Respondo, tentando pôr humor na minha voz.

Ela não esboça nenhum sorriso.
Seu rosto continua neutro enquanto ela me analisa, e de repente, eu tenho a certeza de que ela sabe porque estou aqui. De alguma forma, a mulher que está a minha frente sabe que fui mandada para cá porque fiz algo que a Central não gostou.
Ela não comenta sobre isso, afinal.
Apenas se aproxima de mim e me estende a mão, dizendo...

"Prazer, eu sou Adeline Furnan."

Sinto os calos de seus dedos quando eu a cumprimento.