Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de dez de 2014

Tormenta - Capítulo 33

O rosto de Vikram Anshelf está estampado no telão da cafeteria.
Nós chegamos na base militar durante a noite, fomos recebidos e enviados para nossos quartos rapidamente. Na verdade é um único e grande cômodo com beliches enfileirados e roupas de cama simples. Estão nos mantendo isolados e somos proibidos de sair, exceto para as corridas matinais e outras atividades no campo aberto da base. Eu estava tão cansada que mal conheci o lugar e capotei, assim que fui para a cama.
A cafeteria está um pouco movimentada e há poucas conversas, porque a maioria das pessoas está focada no que acontece na TV. Eu me sento numa mesa comprida, com meu café da manhã numa bandeija metálica e sem graça, enquanto meus olhos se fixam no telão.
Vikram está no centro de um palco, na praça principal de Pumi. A multidão se espreme e se amontoa em volta, gritando, histérica e enfurecida. Suas mãos e pés estão algemados com grossas correntes de ferro e suas roupas estão imundas e rasgadas; uma mecha de cabelo gruda em sua testa suada e há uma mistura sangue seco e fresco nas várias feridas expostas em seu corpo.
Abafo uma exclamação, numa tentativa de parecer indiferente.
Eu não sinto pena de Vikram Anshelf, mas é tão estranho ver um homem tão poderoso dessa forma.

   Alguns rostos conhecidos surgem de relance, como o de Veronica Greenaway, a chefe de uma das salas de controle da Central. Ela está de pé, na lateral do palco, ao lado de outras pessoas que não conheço, com o rosto impassível. Procuro por Evan, mas não a encontro, o que é uma espécie de alívio para mim. Estou tão disposta a encarar Evan Muller novamente quanto ao próprio Vikram.
    Apesar da humilhação, Vikram consegue manter uma expressão orgulhosa que só alguém tão poderoso e arrogante como ele pode manter. Eu observo seu rosto com mais atenção do que jamais observei, e mesmo com o inchaço causado pelo corte em seu supercílio e o filete de sangue que escorre dele, o líder Anshelf é de fato, muito bonito. Seu cabelo tem mais fios brancos do que escuros e seus olhos são verdes como os de Tiffany, mas completamente diferente dos dela. Em Tiffany, havia um brilho, algo que dizia que se tratava de alguém confiável, e mesmo nos seus piores momentos, jamais seus olhos foram tão frios e astutos como os de seu pai. Nosso pai. Afasto os olhos da tela com repulsa.



"Tenho informações sobre Melanie e o mundo lá fora."
    - Eric sussurra para mim, se sentando ao meu lado. Eu mal senti ele se aproximando, mas quando o encaro, há um brilho de entusiasmo em seus olhos. Ele olha para a tela por alguns segundos e olha para mim novamente quando pergunto:

"Como conseguiu?"

"Eu tenho os meus contatos." - Ele diz, encolhendo os ombros. - "Melanie acompanhou a fuga de Tiffany até um certo ponto. Parece que a moça foi para os lados da península, mas ninguém sabe se ela conseguiu achar alguma coisa lá. Por incrível que pareça, a Central não fez absolutamente nada com Melanie e ela está agindo como se nada tivesse acontecido."

"Por que Vikram Anshelf está ali?"
   - Pergunto subitamente. As palavras saem antes que eu me contenha, uma reação ao incômodo que Melanie Jaswant causa. Eu sei que deveria estar feliz pela missão ter sido um sucesso, mas não quero pensar nisso agora.

"Também achei estranho a Central descartar um homem tão poderoso como ele."
     - Eric afirma.
"Mesmo que a Central tenha tirado todas as informações que ele podia oferecer, só a presença dele, vivo, sob o controle de Illies já é muito valioso. Acho que estão tentando fazer isso para aumentar a confiança do povo e provocar Calanma. Estão esperando um ataque inclusive, alguém que venha salvá-lo, mas as autoridades de lá estão tão divididas quanto a isso que não acho muito provável."

"Como assim?" - Sussurro. - "Calanma vai descartá-lo também?"

"Prudence Helvet está fazendo pressão para isso. Ela nunca aceitou uma pessoa como Vikram na presidência da indústria bélica, mas não tinha poder suficiente para enfrentá-lo. Essa é a oportunidade que ela jamais terá novamente para colocar um lacaio dela na liderança dos Anshelf."

"E o que Jaime acha disso?"

"Jaime está do outro lado do cabo de guerra. Só não enviou ainda tropas de resgate porque a irmãzinha fez a cabeça de uma boa parte do conselho. Sempre achei que aquilo tudo entre os dois não passava de uma birra de irmãos, mas agora está ficando realmente sério."
   - Eric murmura. Eu lhe lanço um olhar interrogativo e ele respira fundo antes de explicar...
"Estamos numa situação delicada, Daphne. Essa divisão toda no governo está enfraquecendo o poder de Calanma. Isso é péssimo porque ao passo que eles se tornam vulneráveis, a pressão para liberar as armas biológicas em Illies fica ainda maior. Essa praga é a única forma de Calanma vencer a guerra e eles vão usá-la o mais rápido possível."

Me arrepio ao ouvir a menção das armas biológicas.
Vikram deu um prazo de duas semanas. Muito pouco tempo.
Na situação em que estamos, só a Central pode conter uma coisa como essa.
Repito para mim mesma que a Central vai acabar com tudo isso, me tranquilizando aos poucos.