Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 42

Krigger.
É o primeiro nome que me vem a mente enquanto corremos pelo lado oposto ao abrigo. Eric insistiu que levar mais alguém conosco era algo perigosíssimo e portanto, fora de cogitação. A imagem que o meu cérebro cria do acampamento explodindo em chamas é algo que tento afastar, mas as perguntas que Eric se negou a responder, por enquanto, é um pensamento tão incômodo quanto.
Eric me guia por ruas e direções nas quais ele parece tão seguro que é obvio que ele tem um plano muito bem planejado. Só não sei desde quando ele sabe sobre a suposta explosão e de quem ele recebeu a informação.
Melanie Jaswant então volta para minha mente e o peso da culpa me invade de novo.
 Nós viramos numa rua relativamente estreita, onde o único barulho é o baque de nossos pés no chão. O final da avenida não é um cruzamento ou uma outra estrada, mas um imenso e pesado portão de ferro e algum outro material. A sombra esguia de um corpo em movimento é a última coisa que eu vejo antes de ser puxada bruscamente por Eric.
     Minhas costas batem com força na parede, provocando uma onda de dor que vai embora tão rápido quanto veio. Eric percebe minha careta e sussurra um pedido de desculpas; sua mão pressiona meu ombro esquerdo gentilmente para baixo, e eu me agacho junto com ele, prendendo a respiração enquanto aguardamos, calados e imóveis, por algum som que denunciasse a presença de mais alguém. Só quando Eric se certifica de que estamos sozinhos é que retomamos o trajeto.
O lugar onde ficamos escondidos é na verdade uma rampa de entrada; Eric me entrega uma pistola e uma lanterna, antes de puxar a sua própria, caminhando lenta e silenciosamente para dentro da escura garagem. Eu o acompanho, virando a lanterna para os lados, com os olhos arregalados devido a escuridão e o receio de ser descoberta. Sinto a poeira fina entrar nos meus dedos e percebo, finalmente, que não tive tempo de calçar os pés antes de sair.
Eric se aproxima de uma grande e larga sombra, que, aos poucos, ganha uma forma mais nítida; o emblema de Illies está estampado por toda a extensão do capô azul escuro, em relevo, gravado no ferro maciço, e eu observo os pneus, maiores e mais resistentes do que os usados em um carro comum.

"Como conseguiu um carro-forte?!"
    - Disparo. Ele abre um sorriso enviesado à minha pergunta e simplesmente murmura...

"Eu não consegui. Só estou pegando emprestado."

     Os soldados que monitoram os portões de Painton não se surpreendem quando um carro-forte de Illies para bem ali; pelo contrário, as pesadas portas metálicas se abrem com rapidez, nos fornecendo uma larga visão da fronteira, um vasto campo onde não há nada além de poeira. Meu corpo se choca contra o banco acochoado várias vezes devido aos solavancos do carro, enquanto ele se move com certa velocidade, serpenteando pelo terreno arenoso. Apesar do corpo de Eric recostar relaxadamente no banco, seu maxilar está travado, e eu observo com atenção o osso de seu queixo pulsar, me perguntando se ele está cogitando a possibilidade de uma fuga, caso seu plano dê errado. Então meus olhos se fixam em sua mochila e penso que examiná-la pode ser uma boa forma de me distrair.
    Há uma muda de roupas no fundo, e a única coisa que consigo distinguir no emaranhado de tecido é uma blusa de malha branca, de alças. Um jeans um pouco mais conservado do que o que Eric usa está dobrado - mais embolado do que dobrado, na verdade - logo abaixo. Latas de comida industrializada, escovas de dente, óculos escuros, gorros e garrafas d'água é tudo o que resta.

"Você teve a ajuda de alguém, não foi?"
    - Pergunto finalmente. Ele não responde.
"Não pode ter feito tudo isso sozinho. Quem te ajudou?"

"Se você acha que foi Melanie, não."
   - Ele diz secamente. Uma pontada de remorso me faz calar a boca. Fico olhando para ele por um bom tempo, tentando captar qualquer sinal de que ele saiba o que aconteceu com ela. Talvez ele saiba que eu estou escondendo isso, e esteja só me testando. De qualquer forma, nós passamos o resto da viagem sem dizer mais nada.
      O campo quase desértico vai mudando aos poucos, dando lugar às árvores. Os pequenos e frágeis arbustos é a primeira coisa que eu vejo, até que o terreno se torna mais duro e os grandes troncos tomam tudo a nossa volta. Eric vira o carro algumas vezes, e liga os fárois para só depois desligar o motor. Eu olho para ele com expectativa e contenho uma exclamação de alívio ao ver que seu rosto não está mais tão duro e severo como sua voz. Na verdade, ele apenas parece cansado. Ele abre a porta do meu banco e me tira do carro-forte com as mãos firmemente seguras na minha cintura.

"Eu não escolhi esse carro a toa."
    - Eric murmura, movendo os dedos pela carroceria, fazendo um sinal que não sei distinguir. Quando ele termina, um painel se abre no meio da lataria, exibindo pistolas, facas, uma metralhadora e munições; Ele me entrega mais uma pistola e duas facas. A última faca, de ponta curva, ele guarda na cintura, e com a mão livre, pega a metralhadora. Assim que a última arma é retirada, o painel se fecha, como se nunca tivesse existido.
Observo enquanto ele tira uma caixa preta de um compartimento secreto no interior do teto do carro-forte. Ele exibe a caixa para mim, seus olhos cheios de expectativa; quando ela é aberta, o que está ali dentro, devidamente acochoadas, são duas esferas negras muito semelhantes a pedras de ônix.

"Escute."
   - Ele diz, fechando a caixa novamente.
"Foi muito difícil conseguir isso aqui, então você precisa saber como usar e onde usar. O mais importante de tudo é: nunca deixe essa caixa cair. Jamais. Em hipótese alguma. Essas pedrinhas bonitinhas na verdade são bombas com poder de destruição relativamente baixo, mas que podem matar alguém e serem muito eficazes na hora certa. Ela é acionada com movimento, ou seja, caso você jogue no chão, bata, ou simplesmente deixe cair, essa coisinha vai explodir. Por enquanto, a caixa vai ficar comigo, mas ela vai estar sempre ao seu alcance, então, tome cuidado, certo?"

Eu olho para ele, concordando com a cabeça.
Eric pisca para mim e guarda a caixa cuidadosamente dentro de um compartimento separado na mochila.

*
Aguardo ansiosamente na linha com o celular colado na orelha.
Eric não gostou nada da ideia de eu ligar para minha mãe, mas depois de alguns argumentos, ele cedeu. Eu não poderia dizer o verdadeiro motivo dessa ligação, porque isso seria revelar o estado de Melanie. Alguém precisa saber que as bombas biológicas estão a poucos passos da população de Illies, e avisar a Benedict só iria piorar as coisas. Joanna seria a única que me entenderia.
Demora cerca de um minuto para ela atender, minuto esse que parece uma eternidade para mim. A voz dela soa rouca e embargada, como se ela estivesse chorando, e eu sinto uma enorme vontade de abraçá-la.
Imagino a imagem do acampamento em chamas estampada em todos os telões de Illies. Para Joanna e o resto da população, eu e Eric estávamos lá dentro. Ela deve estar pensando que eu estou morta.
Talvez seja melhor que ela pense isso.
Eu estava prestes a desligar o telefone, enquanto ela murmura "alô" várias vezes, mas a imagem de Melanie volta a minha mente. Não posso desistir. Essa é a única forma de tentar me redimir com ela.

"Mãe?"
   - Chamo, indecisa. O telefone fica mudo por um bom tempo, e eu começo a pensar que ela desligou, mas então ouço sua respiração ofegante e descubro que ela reconheceu minha voz. Não é preciso dizer mais nada.

"Da..." - Sua voz falha. Ela pigarreia. - "Daphne?!"

"Oi, mãe." - Digo simplesmente. Ela solta uma exclamação abafada.

"Meu Deus!" - Ela exclama. - "Você não estava morta?!"

"Eu deveria estar."
   - Murmuro.
"Na verdade, é melhor que todos achem que eu estou morta."

"Por que?!"

"Porque é preciso." - Solto. - "Ninguém pode saber dessa conversa. Nem Benedict."

"Meu Deus do céu, Daphne, por que tudo isso?!" - Ela exclama, aflita. - "Seu irmão iria adorar saber que você..."

"Mas ele não pode."
   - Interrompo.
"É uma questão de segurança. Por favor, não conte a ninguém."

"Certo."
   - Ela suspira.
"Não vou contar, satisfeita?! Agora me conte o que aconteceu."

"Eu vou contar, no lugar certo." - Digo. - "Me encontre em Brevor, ainda hoje."