Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 49

"Vamos precisar de um carro blindado, alguns equipamentos e uma nave."
     - Eric afirma. Durante toda a sua explicação sobre nosso plano, Tori se manteu calada, com o cenho franzido. Esse é o momento em que ela finalmente abre a boca, dizendo, logo depois de soltar uma lenta e controlada expiração...

"Tem noção do quanto é difícil roubar uma nave da Central sem ser rastreada?"

"Tenho." - Ele responde. - "Mesmo assim, esse é o único jeito de ir seguramente para Calanma em menos de dois dias, e você sabe, Tori, não temos muito tempo."

Ela não fala nada por um longo tempo, pesando o argumento de Eric.
Suas unhas pontiagudas coçam levemente a pele fina de seu pescoço, formando marcas que somem com rapidez.
Minha apreensão é tão grande que, por vezes, esqueço de respirar.
Ela então deixa sua mão cair em cima da mesa e suspira...



"Ok."
   - Ela diz, rendendo-se.
"Vou arranjar a nave pra vocês, mas não vão poder pousar em New Roman."

"Por que não?" - Disparo.

"Porque é arriscado." - Ela responde. - "New Roman possui poucas pistas de vôo, e a maioria são particulares. É praticamente impossível pousar lá sem chamar a atenção."

"Então para onde vamos?" - Eric pergunta.

"Andalus."
   - Ela afirma.
"Faz fronteira com a capital e vocês podem ir para lá com o carro blindado que eu também vou dar a vocês. Existe um campo abandonado no extremo norte, próximo ao litoral. Ninguém vai lá há anos e as estradas adjacentes são todas desertas. Um lugar perfeito."

"Feito."
   - Eric diz prontamente. Olho para ele com a sobrancelha arqueada e ele me lança um olhar de 'eu sei o que estou fazendo'. Ele então encara alegremente a tela do notebook e pergunta:
"Posso contar com a nave amanhã, bem cedo?"

"Pode."
   - Ela diz com os lábios apertados, formando uma fina linha, mas eu sei que ela quer sorrir.

      Há uma união profunda e inquebrável entre Eric e os outros agentes, uma familiaridade que eu jamais vou alcançar com qualquer um deles. Ele estava no enterro de George Tower e foi a única pessoa que sua mãe, Miranda Tower, aceitou em sua casa depois. Eu vi a tristeza e a dor das lembranças em seu rosto, e então, percebi porque ele ainda acredita que Melanie possa estar viva, mesmo depois do que lhe aconteceu; a dor da sua morte seria tão forte quanto. Ou até pior.
    Independente do que eu possa significar para ele agora, essas pessoas foram sua família por todos esses anos, os únicos que o entenderiam porque também tinham sido tirados de seus lares. Crianças vendidas à Central e transformadas em máquinas, bases humanas usadas como peões na guerra. Descartáveis, assim que os objetivos fossem alcançados.
   
    O rosto de Tori Rounden some no instante seguinte, dando lugar a um borrão cinza que cobre toda a tela. Eric desliga o notebook e se senta num caixote, apreensivo. Eu aliso seu cabelo, tentando parecer o mais serena possível, mas a verdade é que estou tão ansiosa quanto ele.
Minha mente passa possíveis rotas e modos para invadir a mansão presidencial. O antigo aviso sobre as cidades que Illies invadiu e o quão perto ela está da capital é tudo o que eu consigo pensar com clareza. O número de tropas é maior, os armamentos estão cada vez mais pesados e o exército avança cada vez mais rápido. Em contrapartida, a alguns quilômetros daqui, uma epidemia se alastra, tão implacável quanto.
Como Tori disse, amanhã estaremos de volta ao olho do furacão.
E eu posso não sair viva de lá.

*
A luz laranja da alvorada entra pelas frestas das paredes, banhando todo o armazém.
Enquanto encaixo o silenciador na pistola e calço as botas de couro macio, percebo que o galpão é tão grande que até uma nave caberia aqui dentro; o cabelo escuro de Eric é a única parte dele que consigo ver em meio a todas essas caixas empilhadas.
O barulho suave da nave de Tori pousando lá fora é a única coisa na qual presto atenção.
As pequenas turbinas provocam um vento leve que acaricia minha nuca. Eric vai ao meu encontro, pronto para voltar a New Roman.
A porta inferior se abre, formando uma rampa de entrada. Ele segura minha mão por um instante, tentando passar confiança para mim através do calor de seus dedos.

"Bom dia, meninos."
    - A voz de Rounden soa atrás de nós, assim que as portas se fecham. Estamos quase decolando e o rosto dela está estampado numa grande tela no lado norte da nave. Ela faz algo como uma imitação exagerada de Evan Muller e depois diz, relativamente séria:
"Só queria saber se tudo está ao gosto de vocês."

"Onde estão as armas, Tori?" - Eric pergunta.

"Num compartimento à sua direita. Só abre com a sua digital ou a de Daphne."

Ele pressiona o dedo contra o sensor e a porta retangular se abre.
Há várias armas de pequeno e médio porte, munições e silenciadores devidamente organizados dentro do compartimento. Um pouco mais abaixo, uma submetralhadora e suas munições descansam sobre um suporte de forro vermelho escuro.

"Há cintos especiais para os dois nas gavetas do painel de controle, a nave está perfeitamente programada, o carro já está em Andalus, há uma cabine resfriada, caso tenham a necessidade de guardar algo e eu me certifiquei de que a nave não seria rastreada." - Tori explica. - "Enfim, fiz a minha parte. Espero que esteja tudo bem para vocês, porque quando esta tela desligar, vocês seguirão sozinhos."

"Só mais uma coisa."
    - Eric diz de repente. Então, ele caminha para mais perto da tela, com os olhos muito expressivos...
"Até onde a praga chegou, no momento?"

Silêncio.
O rosto de Tori se contrai em preocupação e ela mantém seu olhar em mim por um bom tempo, para depois olhar para Eric.

"Não tenho boas notícias, para nenhum dos dois. Muito menos para ela."

Prendo a respiração.
Tori continua me olhando com um misto de preocupação e pena, como se estivesse se desculpando antecipadamente pelo que vai dizer. Meu primeiro pensamento vai para Joanna, e só a mera suposição do que poderia ter lhe acontecido já me enche de terror. Minhas mãos geladas se agarram a parte lateral da minha calça e ela finalmente solta, como se todos os instantes calada fossem para reunir o fôlego...

"A sua mãe contraiu a praga."