Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 50

Tento afastar Joanna da cabeça enquanto desço da nave.
Desde que Tori me entregou a notícia, eu não disse absolutamente nada; seu rosto sumiu da imensa tela e nem eu ou Eric perguntamos por mais informações, e se Tori as tinha, decidiu guardar segredo.
   Eric vem me olhando de soslaio durante toda a viagem. Ele vai até a cabine de controle, checa equipamentos, repassa trajetos, mas não ousa tocar nesse assunto comigo. Eu também não falaria nada, de qualquer forma. A única coisa que eu quero com todo esse silêncio é me focar no que vim fazer em Calanma. Conversar sobre o quadro clínico de Joanna não vai me ajudar nisso.

     O lugar onde antes já foi uma pista de voo está em péssimo estado, com mato crescendo para todos os lados. O asfalto racha em alguns pontos e há protuberâncias, buracos e pedras grandes espalhadas em outros. Eric tomou cuidado para pousar no lugar menos destruído.
O centro de Andalus está há alguns quilômetros daqui, e tanto eu como Eric descemos de gorros e óculos escuros. Ele está com os olhos fixos num aparelho pequeno, de vidro, que resplandece com a luz que se ascende quando ele pousa o dedo indicador na tela. O aparelho exibe um mapa, algo como um gps, e parece que estamos tentando saber onde exatamente nosso carro está estacionado.

"Então, estamos num bairro do setor 4 chamado Verona. Nosso carro está a meio quilômetro daqui."
    - Eric informa.

"Não é num lugar movimentado, é?"
 
"Não." - Ele diz. - "Exceto durante a noite, quando as esquinas estão entopidas de bêbados e prostitutas, as ruas aqui são sempre desertas. Além do mais, Tori não seria estúpida de colocar nosso carro em um lugar cheio."

   Enquanto caminhamos na direção que o aparelho indica, me surpreendo com a descoberta de que Calanma possui áreas pobres. Verona é um bairro feio e mal-cuidado, cheio de pequenos prédios que estão a ponto de cair e o asfaltamento é de má qualidade. Nosso carro brilha numa garagem velha e enferrujada, parecendo tão fora de lugar quanto nós.
    Eric abriu a caixa preta no avião, tomando cuidado em depositar as pequenas bombas em aparelhos revestidos e seguros, próprios para o armazenamento de pequenos explosivos nos nossos cintos. Como são duas pedras, cada um ficou com uma, que serão usadas no caso de alguma emergência. Eu não me esqueci delas desde que foram tiradas da caixa.
Além do explosivo, meu cinto contém munições e um crackglass - o dispositivo que usei no NMC para quebrar o vidro. Não faz parte do plano ter que usá-lo, mas nunca se sabe.

    Eric foge das avenidas centrais e segue para New Roman pelas estradas adjacentes, sem nem sequer olhar no mapa, o que me faz pensar que ele conhece a cidade o suficiente para saber o que está fazendo. Os prédios maiores e mais sofisticados se tornam visíveis, porém, distantes, enquanto o carro se move na bela estrada, tão diferente das ruas de Verona.

"Escute."
   - Eric diz sem tirar os olhos da pista.
"Daqui a algumas horas estaremos em New Roman, então quero que você saiba exatamente como vamos agir agora."

Concordo com a cabeça. Ele não vê meu gesto, mas continua...

"Primeiro de tudo: me obedeça." - Ele diz. - "Eu sei que de vez em quando posso parecer controlador, mas lembre que eu conheço a cidade mais do que você, então, por favor, não faça nada fora do plano sem me comunicar antes."

Concordo com isso também.

"Temos pouco tempo para agir." - Ele alega. - "Tori me passou informações de que um cerco sobre New Roman está sendo planejado e não demorará muito em acontecer. A Central quer invadir Andalus e New Roman ao mesmo tempo, uma coisa relâmpago, que não dê tempo para eles se defenderem. Illies provavelmente vai conseguir fazer isso pelo investimento pesado que estão fazendo nessa operação, mas o melhor que podemos fazer é já estar longe de Calanma, com o antídoto na mão, quando isso acontecer."

Eu continuo calada, dando espaço para que ele fale.
Olho para a estrada, de relance, e vejo que acabamos de entrar em um túnel.

"Prudence está morando na mansão presidencial, no momento."
    - Eric explica.
"Jaime quase nunca está lá, então, provavelmente vamos encontrá-la sozinha, o que vai ser melhor. Vamos invadir o local tranquilamente, pela madrugada, sem passar pelos guardas. Tori me deu as coordenadas de uma passagem secreta que fica no subterrâneo da mansão."

"Como a Central sabe de tanta coisa sobre Calanma e ainda não venceu a guerra?"
     - Pergunto.

"A Central não sabe. Nós sabemos."
    - Ele responde, enfatizando o "nós".
"Os agentes nunca contam tudo o que sabem para seus mentores. Há dezenas de passagens secretas nas principais mansões de New Roman e Calanma é muito mais vulnerável do que parece, mas não queremos que Illies ganhe a guerra."

"Por que não?!"

"Daphne." - Ele diz. Sua voz soa como se a resposta fosse óbvia. - "A Central nos tirou de nossas verdadeiras famílias para sermos bonequinhos nas suas mãos. Nunca quisemos isso. Não queremos a soberania do governo iliense porque ele é tão perverso quanto Calanma ou até pior. Nenhum de nós se voluntariou para ser agente, talvez, com a exceção de você."

As palavras dele me atingem, de certa forma.
O fato de eu ter me oferecido para a Central de legítima vontade me faz parecer estúpida e até cruel. Cruel porque, algum dia, eu ajudei o sistema. Eu lhe dei munição.
O desconforto entre nós se espalha, aos poucos, por todo o ambiente, sufocante.
Torço internamente para que ele volte ao assunto original, mas ele permanece em silêncio.
Então, no instante seguinte, fixo meus olhos na pista, observando a luz que indica a saída do túnel.