Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 52

O som dos punhos de Eric contra o metal ecoa em todo o subsolo.
Ele esmurrou a porta de aço várias vezes, mas só agora ela dá sinais de estar cedendo.
Olho para o relógio. São quase quatro e vinte da manhã.
Eric respira fundo e soca a porta mais uma vez, com mais força, e ela abre com um rangido.
       A luz proveniente do banheiro nos atinge diretamente, e eu aperto os olhos. O azulejo branco de uma das paredes é visível daqui e Eric engatinha, se contorcendo para passar pela pequena abertura.

"Venha." - Ele diz, estendendo a mão para mim. Suas roupas fazem um constrastre gritante com o piso claro. Seguro sua mão firmemente e deixo que ele me puxe para fora.



     O toalete da mansão presidencial é especialmente nostálgico para mim. Os olhos verdes e assustados de Tiffany Anshelf parecem estar gravados em todas as paredes, lembrando-me do fatídico dia em que matei seu marido. Desde sua fuga, ninguém mais procurou saber onde ela estava ou como ela estava porque simplesmente não importava mais. Calanma jamais a aceitaria de volta e a Central estava ocupada com Vikram. Agora, de repente, sinto uma imensa curiosidade em saber o que lhe aconteceu.
Olho novamente para a passagem, um quadrado de tamanho médio, situado na parede oposta à saída. Minhas mãos voam para a arma e Eric não se encomoda em colocar tudo no lugar antes de ir. Ele apenas posiciona a pistola e caminha silenciosamente em direção à porta, abrindo-a meio palmo.

"Eu vou primeiro."
    - Ele sussurra.
"Aguarde meu sinal."

E então Eric vai.
Eu consigo vê-lo apontando a arma para todos lados, seus olhos negros se movendo rapidamente, tentando vigiar cada pedaço. Ele caminha e se afasta do banheiro, indo em direção ao salão principal e eu espero, quieta, tentando regular minha respiração.
Não demora 1 minuto até que ele apareça de novo no meu campo de visão, fazendo sinal para eu sair.

     Meus dedos se apertam no cabo da pistola quando eu saio, com ela em punho. Faço uma rápida vistoria no corredor antes de seguir em frente, passando os olhos em toda a extensão do salão. Da última vez que estive aqui ele estava cheio e barulhento, com a música suave se sobressaindo em meio às vozes. Agora, o que há é o piso polido e brilhante, o enorme lustre de cristal, a haste de tamanho médio, com a bandeira de Calanma erguida e a escada, que talvez seja a parte mais bonita da decoração. Assim como em Anshelf House, ela está no centro, se dividindo e serpenteando para os dois lados, porém, ela possui um aspecto muito mais moderno. Mais a oeste há a varanda lateral, com uma das paredes feitas de vidro. Eric caminha nessa direção e eu me mantenho parada por algum tempo, cogitando a possibilidade de invadir os quartos.
Não há um único sinal de pessoas dentro da mansão.
Então, quando estou quase subindo as escadas, o barulho suave de saltos sobre os degraus me faz recuar.
   Me mantenho debaixo da escada, imóvel. A silhueta de Prudence Helvet se torna cada vez mais nítida conforme ela se aproxima, com o celular colado ao ouvido e a voz claramente agitada...

"Ouviu o que eu disse?!"
    - Ela exclama, e seu tom carregado de nervosismo não se parece com a Prudence que estava acostumada a ver.
"Preciso de uma nave pousada no heliporto da mansão presidencial o mais rápido possível!"

Prendo a respiração, temendo que ela possa me ouvir.

"O quê?! Não tem nada a ver com Jaime!" - Ela solta, exasperada. - "Jaime é o presidente, ele sabe se cuidar sozinho... Escute, um alerta de nível 4 está sendo lançado nas cidades mais próximas à capital e não quero estar aqui quando eles chegarem, e se eu estiver, você sabe que não vou cair sozinha, então envie essa nave para cá agora!"

Ela desliga o telefone, irritada.
Ouço sua longa expiração e me sinto tentada a fazer a mesma coisa.
O que eu sei sobre alertas, é que o nível 4 sempre significa uma coisa: invasões inimigas.
Illies já deve ter tomado Andalus, e agora estão marchando para cá.

Aponto a arma para a nuca de Prudence, de olho no revólver em sua mão esquerda.
Eu posso atirar em sua mão, mas ela a mexe tão rapidamente que posso errar o alvo. E isso pode ser fatal, dependendo da agilidade dela, então, dou dois lentos e silenciosos passos para frente, mantenho minha pistola cuidadosamente mirada em sua cabeça.
Prudence se afasta, e eu percebo que essa é a hora perfeita.
Destravo a arma, aguardando pelo clic. Ela ouve o som e para, imóvel como uma estátua, para depois virar-se em minha direção, com seu revólver apontado para mim.
Deixo um esboço de sorriso escapar na minha boca. Sua pupila está tão dilatada que seus olhos cinza se tornam quase tão escuros quanto os de Eric.

"Achou mesmo que seria tão fácil, Prudence? Fugir assim, sem deixar rastros..."
    - Murmuro. A surpresa em seu rosto some, gradativamente, dando lugar a raiva.

"Eu deveria ter te matado quando tive a chance..." - Ela rosna.

"É uma pena que você não saiba aproveitar as oportunidades, não é?"
    - Solto, com escárnio.

"O jogo ainda não acabou, Daphne."

"Tem razão."
    - Digo. Lembro-me da varanda lateral e me movo para o lado, sem abaixar a guarda. Ela me segue, como eu pensei que faria, e então está na posição perfeita; de costas para o corredor, e para o caminho de Eric.
"Se bem que esse é um lugar um tanto inadequado para uma conversa como essa. Por que não me convida para o seu gabinete?"

"Por que acha que eu faria isso?"

"Talvez seja porque eu tenho uma arma apontada para sua cabeça." - Afirmo.

Ela solta uma risada nervosa e diz...

"Eu também tenho."

"É." - Concordo. - "Só que você é uma só."

   A expressão de Prudence Helvet se modifica completamente quando ela ouve o clic proveniente da pistola de Eric. Ele aparece repentinamente, o corpo firmemente posicionado, a mira na nuca de Prudence. Eu observo, com aberta satisfação, a forma como o corpo dela se tensiona e ela pisca várias vezes, tentando colocar os pensamentos em ordem.

"Prudence, por favor, não me faça atirar em você." - Eric murmura, bem atrás dela.

"Andrew?"
   - Ela pergunta, atônita. Reviro os olhos ao perceber que ela o chama pelo seu desfarce. Ela repete:
"Andrew, é você?!"

"Sou."

A familiaridade nas vozes de ambos me chama a atenção.
Começo a pensar que Melanie não foi a única a ter casos com pessoas de Calanma.

"Abaixe essa arma, Prudence." - Ele diz, usando uma voz cansada, como quem que quer se reconciliar com alguém.

"Por que?" - Ela sussurra. - "Por que está aqui? Por que está com ela?"

"Porque é preciso."
    - Ele responde. Então, seu tom volta a ser persuasivo.
"Você sabe, não vou te matar. Eu não seria capaz disso. Acredita em mim, não é?"

"Mas não nela."
   - Sua voz endurece quando ela se refere a mim. Começo a ficar impaciente.

"Ela não vai fazer nada a não ser que eu mande."
    - Eric afirma.
"Por favor, acabe com isso. Abaixe essa arma."

"O que você quer de mim?!"

"Você sabe."

"O que vou ganhar com isso?!"

"Liberdade." - Ele solta. - "Eu não vou deixar você morrer, e você vai poder fugir."

"Você vai fugir comigo?"
    - Ela pergunta, com a voz tão mole que me impressiona. Ele respira fundo e diz:

"Vou."

Tento me manter indiferente quanto a sua mentira.
O que possa ter acontecido entre Prudence e Eric não importa. Foi inteligente da parte dele seduzi-la.
Ela pisca várias vezes, pensando no que fazer.
Mantenho minha arma firme, esperando que ela atire em mim. Observo, com alívio, suas mãos folgarem e ela jogar o revólver no chão, rendendo-se. Eric se aproxima dela, sussurra alguma coisa numa voz doce e ela confessa, finalmente:

"Está no armário de mogno, no corredor, à esquerda."