Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 53

Aparentemente, Prudence iria levar os antídotos com ela durante a fuga.
Os frascos com líquidos de cor verde-água estão perfeitamente enfileirados dentro da sacola térmica, escondida dentro do armário. Eric me estende a bolsa e eu ponho a alça em meu ombro, com a arma ainda na minha mão. Ele se esforça em mantê-la calma, lhe enchendo de promessas vazias o tempo todo.

"Vá com ela, por favor." - Ele lhe diz. - "Eu vou logo atrás."

Prudence olha para mim com desprezo e sussurra, audível o suficiente...

"Não confio nela."

"Não vou fazer nada." - Solto, irritada. - "Se eu quisesse te matar, eu já teria feito."



Na verdade, eu quero, de fato, matá-la.
O problema é que estou seguindo o plano de Eric.
     Minhas mãos se fecham em torno de seu braço enquanto vou guiando-a em direção às escadas. Ela reclama do meu aperto, mas eu simplesmente ignoro seus protestos e continuo empurrando-a para frente. Prudence tropeça e cambaleia algumas vezes, e o cano da minha pistola se mantém encostado em sua cintura. Eric não pode maltratá-la porque não é isso que ela espera dele. Quanto a mim, a minha hostilidade é bem previsível.
Estamos atravessando o corredor que dá para o salão principal; a parede atrás de mim é de vidro, que se expande para o lado direito, formando a varanda lateral. O som dos saltos dela ecoam pela mansão, mas minhas botas de couro mole não fazem barulho algum.

"Quanto tempo até eles chegarem?"
    - Ela pergunta. Eu me mantenho calada, e ela espera por um instante antes de insistir.
"Seu exército... De Illies."

"Não é meu exército." - Solto, azeda.

"Então está agindo por conta própria?" - Ela pergunta. Eu volto ao silêncio. - "Por que está fazendo isso?!"

"Engraçado você perguntar..."
   - Murmuro secamente.
"Como se uma epidemia letal não fosse estímulo suficiente."

Então, numa fração de segundo, tudo acontece.
O barulho forte de vidro estraçalhando atrás de mim me desperta. Movo a pistola da cintura para a têmpora de Prudence e puxo-a para cima de mim, prendendo seu pescoço com o braço. Ela grita e tenta se soltar, mas eu pressiono o cano frio da arma como resposta. Seu corpo forma uma espécie de escudo e de repente, a mansão está cercada de soldados. Soldados com uniformes azuis, e não pretos. Soldados de Illies.
Olho para o vidro rachado com uma marca de bala no centro. Pedacinhos minúsculos dele se espalham pelo chão, poucos centímetros próximo a um corpo.
Fixo meus olhos nele, e por um momento, sinto que vou desmaiar.
Minha visão fica turva e eu sinto como se tudo estivesse derretendo, desmanchando-se a minha volta.
Uma enorme poça de sangue se forma bem embaixo da cabeça de Eric, que pende para o lado, como um peso morto.
Seu corpo está imóvel, assim como seus olhos. Não há brilho ou intensidade neles. Não há vida. Não há mais nada.

"Solte a refém e abaixe a arma."
    - A voz imperativa do soldado me traz de volta. Prudence está com as mãos para cima, trêmulas, enquanto meu braço se enrosca em volta de seu pescoço. Há mais de 10 soldados, posicionados dentro e fora da mansão, e quando olho para um deles vejo o reconhecimento em seu rosto. Ele sabe quem eu sou. É claro. Eu também sei quem ele é.

"Comandante Bresler."
    - Solto. Ele está com uma ultraquick apontada para mim, mas ninguém faz menção para atirar.

"Daphne."
   - Ele responde.
"Escute, solte essa arma, vai ser melhor para você."

"A Central te mandou especialmente para mim?" - Digo. - "Se for, envie os meus agradecimentos. É bom ver um rosto conhecido em meio a tantos estranhos."

"A Central ainda quer você." - Ele afirma, ignorando minha provocação. - "Eles ainda precisam de você."

"Pra quê?!"

"Bom," - Murmura. - "Você é mais útil do que eles pensavam."

"Uma lástima."
   - Respondo, com ar de falsa tragédia. Meu tom de voz se parece tanto com o usado por Eric momentos antes que me envia uma pontada de dor. Eu ignoro-a e completo:
"Perceberam isso tarde demais."

"Daphne, por favor!" - Ele diz. - "Me dê ouvidos, pelo menos uma vez. Se não ceder e abaixar essa arma, você vai sair morta daqui! Morta como Ross, como Benedict, como todo mundo a sua volta, então, pelo bem de todos, abaixe isso!"

A Central não possui interesse em mim, mas em Prudence. Por isso a negociação.
A menção a minha família e a Eric me envia outra pontada de dor, que se transforma em uma raiva fria, crescendo e se expandindo dentro de mim.
Eu não matei essas pessoas. A Central as matou. A Central corroeu tudo a minha volta.

Lembro-me do pequeno explosivo guardado no meu cinto, repassando as palavras de Eric na minha cabeça.
Há um único jeito de sair com vida.
A nave de Prudence já teve ter pousado no heliporto da cobertura.
Respiro fundo, enquanto calculo meus movimentos.
Eu só preciso mover a mão para baixo e lançar.

"Já que vou acabar morta..." - Digo, calmamente. - "Não acho que tenho muito a perder."

Meu dedo se move no gatilho, ao mesmo tempo que minha mão agarra a pedra.
A bala abre um buraco na cabeça de Prudence, que cai, morta.
Jogo a pedra com toda a força no chão, poucos metros a minha frente.
O que acontece em seguida é o barulho ensurdecedor da explosão e a nuvem de fumaça que vem com ela.