Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 54

Meus pés se movem com rapidez pela escada.
A morte de Prudence e a bomba manteram os soldados ocupados por algum tempo, mas não muito. A explosão formou um buraco no chão, onde ela caiu, e os estilhaços feriram vários homens. Mesmo assim, em poucos segundos, as balas zunem atrás de mim.
A bolsa se choca contra o lado direito da minha coxa enquanto corro, e eu atiro às cegas ao ouvir som de passos na escadaria. Sinto aquela velha sensação, a euforia que acelera e esquenta o meu interior, se espalhando até a ponta dos meus dedos. Eu senti isso na mansão presidencial, no NMC, em Yellowbloat, mas aqui, sozinha, com todo um exército atrás de mim, o perigo é ainda maior. A porta de metal que dá acesso para a pista de voo se abre automaticamente quando eu me aproximo.
    O vento chicoteia o meu rosto, soltando mechas de cabelo do meu coque. A nave está pousada no centro da pista, e um homem de óculos escuros se mantém imóvel, com as mãos atrás do corpo, mas quase posso ver sua sobrancelha levantada. Dou um único e certeiro tiro em seu peito.
Giro os calcanhares e atiro várias vezes em direção às escadas. Duas das minhas balas atingem um dos soldados que vêm atrás de mim; ele desaba e seu corpo bloqueia a passagem. Volto a correr em direção a rampa da nave, e antes de entrar, me agacho ao lado do corpo desconhecido, puxando o óculos de seu rosto.
Então, alguém dispara, porque uma bala atinge a parte de trás da minha coxa, me enviando uma dor lascinante que se espalha como uma corrente elétrica. Eu solto um grito e me jogo contra a nave, apertando o botão que fecha as portas. A rampa se levanta com lentidão, e eu praguejo em voz baixa, com os dentes cerrados, ainda atirando contra os homens que tentam entrar. O sangue da minha coxa suja toda a minha mão e a porta finalmente se fecha. Aperto comandos no painel de controle e programo a nave para pousar no extremo oeste da fronteira, perto de Noa.

Quando a nave decola, jogo as armas no chão e me sento, gemendo de dor.
O ferimento foi a queima roupa, com algo parecido com uma submetralhadora. Meus olhos percorrem toda a extensão da nave enquanto começo a desabotoar os botões da calça, abaixando-as até os joelhos. Toco a carne avermelhada em volta do ferimento e rasgo a barra do jeans, amarrando o pedaço de pano em volta da ferida, estancando o sangue. O nó apertado aumenta um pouco a dor, mas vai manter tudo no lugar por algum tempo.
Faço um inventário na minha cabeça enquanto volto a me vestir, enumerando o que tenho que fazer agora. Não me permito pensar em Eric ou nas palavras do comandante, porque isso vai me deixar sentimental demais.
Se eu sair viva dessa, eu vou ter tempo para chorar. Agora não é o momento.

*
"Você demorou."
    - É a primeira coisa que Amanda diz assim que me vê passar pela porta. Ela está no centro de um compartimento muito pequeno, na garagem do GHI, o maior hospital de Noa e um dos maiores do país inteiro. Seu jaleco branco está amarrotado, e eu fixo meus olhos em seu nome, bordado numa linda caligrafia...
Dra. Amanda Ross.
Eric nunca tinha me dito nada disso até a invasão da mansão presidencial, mas ele tinha uma irmã mais nova.
 
    Seu rosto é terrivelmente parecido com o dele, os olhos negros como breu e o cabelo castanho-escuro liso e sedoso, descuidadamente amarrado em um coque frouxo. Ela é muito jovem, quase tão jovem quanto Krigger, mas não há nada de delicado ou frágil em seus traços. Eu lhe estendo a bolsa e ela a puxa rapidamente, apoiando a sacola sobre uma mesa metálica e examinando seu contéudo. Eu vim armada, porém, a pé, então a única coisa que me despista são os óculos escuros que roubei do cara morto. Ela me garantiu que me arranjaria um novo carro, então eu só me encosto na parede, esperando.
Eu não sei se eu simplesmente me acostumei ou a adrenalina que corre pelo meu corpo está bloqueando a dor, mas sinto apenas um latejar incômodo na minha coxa.
Amanda leva a bolsa para os fundos do compartimento e depois volta, com as chaves na mão.

"Eu pensei que o Eric viria..."
    - Ela diz, hesitante, enquanto me estende as chaves. Seus olhos se fixam em algum ponto no canto da parede.
"Sei lá, falar comigo depois de todos esses anos."

Solto um longo suspiro.
Eu já deveria ter imaginado.
Amanda nunca foi realmente próxima dele, mas foi a única de sua verdadeira família que ele manteve contato de vez em quando. Eu não sei o que aconteceu, mas Eric com certeza deve ter mantido uma mágoa muito grande por seus pais terem o entregado para a Central. Ele não culpou a irmã mais nova, entretanto. Havia algo entre eles como um respeito e consideração mútuas, mas nada mais do que isso. Ele não deixa de ser seu irmão, apesar de tudo.

"Eric está morto."
    - Digo finalmente. Seu rosto fica imóvel enquanto ela digere a informação. Por um momento eu esqueço da minha dor e sinto uma forte compaixão por ela.
Ela pisca várias vezes, abaixa a cabeça, se afasta e apoia as mãos nos cantos da mesa.
Então sua voz sai baixa e sem fôlego, quase como um sussurro...

"Como?" - Ela pigarreia. - "Como aconteceu?"

"Um tiro na nuca."
    - Solto. Sinto aquele conhecido aperto no coração, que normalmente antecede as lágrimas, e deixo sair...
"Por favor, Amanda, não me pergunte mais nada."

Eu me viro em direção a porta, louca para sair dali.
Minha mão se fecha em torno da maçaneta quando ouço sua voz novamente.

"Daphne." - Ela chama. Prendo a respiração. - "Obrigada por me avisar."

Faço um movimento afirmativo com a cabeça e abro a porta.

    Meu carro é o terceiro de uma fila, com a carroceria preta brilhando, a alguns metros de mim. Ele é curiosamente parecido com o carro que Tori nos deu, e eu estou caminhando lentamente, mesmo sabendo que preciso ser rápida, pensando no que vou fazer agora. A missão acabou. O antídoto foi entregue no GHI, como combinado. Talvez eu volte para Yellowbloat e tente entrar num daqueles navios clandestinos.
Um zumbido longe, no fundo da garagem, me chama a atenção.
Provavelmente não é nada demais, mas a tentativa desesperada de ter mais alguma coisa para fazer antes de partir me faz seguir até a origem do barulho.
Uma silhueta masculina aparece e desaparece na penumbra.
Minhas mãos envolvem o cano da pistola e eu caminho devagar e silenciosamente em direção a ele. É um soldado que talvez possa não ter me visto, então, matá-lo só chamaria a atenção dos outros. Eu encosto na parede, escondida atrás das sombras, observando enquanto ele aperta algo em seu ouvido esquerdo, com o cenho franzido.

"Tem certeza que não quer que eu faça nada?"
     - Ele pergunta, contrariado.
"Quer dizer, senhora, ela está tão perto de mim que posso colocar uma bala na sua cabeça sem problemas."

Começo a pensar que talvez ele tenha me visto...

"O quê? Não, não..." - Ele continua. - "Senhora Greenaway, eu posso..."

Minha bala atinge o lado direito da sua cabeça, em seguida.
Seu corpo desaba no chão e eu agradeço por ter usado um silenciador, porque o barulho do tiro ecoaria em toda a garagem. A menção de Veronica Greenaway, a chefe de um dos setores da Central é o suficiente para saber que ele estava falando de mim. Agora ela já sabe que eu a descobri também.
Eu me viro e corro em direção ao carro, aguardando pelo som dos tiros.
A garagem se mantém silenciosa, tão silenciosa que posso ouvir as batidas do meu coração, mas assim que meus dedos se tocam a porta do carro, os soldados aparecem.
As balas zunem acima de mim e eu me abaixo, atirando duas vezes na direção deles. Mergulho para dentro do carro e dou a partida, andando de marcha ré. Observo de soslaio um dos soldados apontar sua arma para mim, e eu me abaixo antes da bala estourar o vidro da janela. Piso no acelerador, ouvindo o som dos pneus cantando e dirigo em direção a saída, deixando o som do alarme e os soldados para trás.
   Há vários outros soldados de prontidão na frente do hospital, que atiram assim que o meu carro salta da garagem. Eu atropelo um deles e outros se afastam do caminho, e eu ganho a estrada principal. uço gritos e som de passos ao longe, e não demora muito para outros carros estarem atrás de mim.
Começo a andar em ziguezague quando percebo que eles tentam atirar nos pneus; o carro invade a calçada várias vezes, dispersando as pessoas pelo caminho e derrubando placas. Uma moto encosta e eu atiro em sua direção através do vidro quebrado da janela. Minhas balas atingem a perna do soldado, que perde o controle da moto e cai. Eu viro uma estrada adjacente sem nem saber para onde estou indo enquanto o barulho das sirenes me persegue. Olho para o retrovisor. Três carros com símbolos da Central em suas latarias me seguem, e vez ou outra um soldado põe o braço para fora da janela, atirando. Queria ter armas maiores que uma simples pistola.
Viro a rua novamente, percebendo que voltei para a estrada principal. Uma bala atinge o vidro do porta-malas e eu me pergunto porque uma nave não foi enviada até agora. A possibilidade de morrer não desperta nenhum sentimento em mim, e eu me sinto como se estivesse anestesiada, agindo no automático. Eu poderia levar um tiro agora e não me importaria.
Então, de repente, um novo carro surge na minha frente, vindo de encontro a mim, com o mesmo símbolo da Central, e eu penso que é o fim. Estou cercada. Vão me mandar parar, sair do carro, para depois colocar uma bala na minha cabeça. O antídoto está entregue, pelo menos.
Mas ao invés de parar e me render, minhas mãos giram o volante e o carro toma a rua adjacente, que na verdade é uma longa ponte com arcos cor-de-laranja. Mas isso não me ajuda muito, de qualquer forma.
Um novo carro vem na minha direção, e antes que eu pare, o impacto da batida arremessa meu corpo para frente, e minha cabeça bate com força no volante.
A dor é forte, e eu penso que essa é uma boa hora para desmaiar, mas eu permaneço acordada, enquanto tudo gira ao meu redor e o carro capota várias vezes.
Talvez a morte seja o que vem em seguida.
Mas quando eu finalmente paro de ser chacoalhada, sentindo o sangue quente escorrer pelo meu rosto, meus olhos se fecham e tudo fica escuro ao meu redor.
Entretanto, eu não me sinto morta.