Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

20 de abr de 2015

Veneno - Capítulo 3

Orlando, 20 de janeiro de 2010, próximo às duas da manhã
MARY
"Sabe que não precisa ficar." - Fred diz, de pé, no vão da porta de vidro da sacada. 

       Ele segurou essa frase até agora, esperou pacientemente por um momento à sós para soltá-la. Eu adoraria que fosse verdade. Adoraria que ele estivesse certo. Seria maravilhoso se eu pudesse jogar tudo para trás e sumir. Fecho os olhos, pressionando os dedos com força sobre o muro, esperando que o vento forte leve suas palavras. Eu não posso nem sequer cogitar a possibilidade. 
Puxo de volta toda a perspectiva fria e racional do meu relacionamento com Brandon; são apenas negócios. Tudo vai acabar e ele vai sumir da minha vida. Só preciso suportar por mais alguns meses. Não é tão impossível assim. 


"Eu posso te ajudar a fugir hoje mesmo se você aceitar." - Ele continua. - "Ninguém vai saber. Eu tenho um plano. Você vai poder fazer o que quiser e não ser incomodada..."

"Fred."
   - Solto. Ele se cala. 
"Chega. Eu não vou embora." 

"Mary, você não tem que suportar isso..." 

"Eu acho que você não entendeu,"
     - Começo, me lamentando antecipadamente pelo que vou falar. Eu sei que estou mentindo e abdicando das minhas próprias vontades, mas certos sacrifícios são necessários. Não por mim, mas pelo todo...
"Eu não quero ir embora." 
______________________________

Fred me escolta com a mão pousada no meu braço, leve, porém firme. 
Ele não tirou as minhas algemas, e o atrito entre o ferro e a pele fina dos meus pulsos começa a abrir feridas no local. Eu não tenho a mínima vontade de falar com ele desde o sequestro, então eu apenas o sigo de má vontade, emburrada. 
Ele gira a maçaneta de uma porta idêntica a porta do nosso cativeiro, mas quando entro no cômodo, vejo que ele é completamente diferente do que estávamos antes. É uma sala, que apesar de pequena, é bem confortável, com duas poltronas macias instaladas uma de frente para a outra. 

"Senta." 
    - É a única coisa que ele diz antes de fechar a porta, e eu hesito, mas afundo na poltrona à direita. Depois de dois dias forçada a sentar no chão duro, sem dormir, a maciez do ascento é tão aconchegante que eu quase relaxo. Pisco os olhos várias vezes, tentando espantar o sono, e fixo meu olhar nele. 
    Fred parece mais cansado e mais tenso do que as últimas vezes que eu o vi, com o cabelo desgrenhado e as roupas amarrotadas. Ele se senta a minha frente e me encara, tentando escolher as palavras. Há algo parecido com culpa em seus olhos, mas eu não consigo sentir qualquer compaixão por ele. 

"Eu não quero machucar você."
     - Ele solta com um suspiro.
"Eu nunca quis." 

Permaneço calada.

"Você pode acabar com isso, sabe." - Ele continua. - "Você não quer aquele disco, sempre foi contra o roubo dele. Eu posso tirar vocês daqui, mas não posso ir contra o Paul. Se eu lhe der o disco, ele não vai se importar com o que eu vou fazer com vocês." 

"E por que eu confiaria em você?"
     - Pergunto, seca. 
"Você praticamente é um desconhecido, né? Eu nem sei se Fred é seu nome verdadeiro." 

"Mary, escute." - Ele começa. - "Eu não quero te ver morta, mas a Sadie quer e o Paul não se importa. Eu sei que eu vacilei, mas eu quero o seu bem." 

Solto um riso sem humor. 

"Por favor, Fred. Eu tenho um corte na parte de trás da minha cabeça por causa daquela pancada." - Começo. - "Meus pulsos estão cheios de feridas das algemas. A única coisa que comi nos últimos dias foi um pedaço de pão. Você já me machucou. Percebe que seu papo de bom moço é completamente fora de lugar aqui e agora?"

"Você não tem escolha!" 
     - Ele explode. 
"Eles vão torturar você e seu irmão e depois que liberarem o disco vão colocar uma bala na cabeça dos dois! Eu estou tentando fazer as coisas mais fáceis pra vocês!"

"Fazer as coisas mais fáceis não inclui um sequestro no velório dos teus pais!"
     - Grito de volta. Ele se cala, sustenta o olhar em mim por alguns segundos antes de virar a cabeça para o lado. 
"Qual é Fred?! Olha pra gente. É um pouco tarde demais para se justificar, não acha?"

Suas pálpebras batem continuamente, mas o resto de seu corpo permanece imóvel. 
Fred olha para mim como se estivesse me avaliando por algum tempo. Então ele levanta subitamente de sua poltrona e me leva de volta à cela, quieto. Sua mão envolve a maçaneta e ele solta, baixinho, como se esse fosse um segredo...

"Eu tentei te avisar."