Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

5 de abr de 2015

Veneno - Prólogo

Eu observo a terra cobrir o caixão, entorpecida.
Desde que recebi a notícia, vim passando os últimos dias numa espécie de torpor, completamente inerte do mundo a minha volta. Meu irmão chorou algumas vezes, mas eu não deixei que escorrece uma só lágrima.
Somos milionários, afinal.
Nossa advogada vem fazendo o favor de nos lembrar isso a cada cinco minutos. O testamento não vai demorar nada a ser lido, mas o que vem nele é mais do que previsível. Todo o dinheiro da família - distribuídos em imóveis espalhados pelo país - vai ser dividido entre eu e Jeff. Nenhum de nós quer pensar nisso agora, mas a perspectiva do que vamos encarar daqui pra frente é palpável demais para passar despercebida.

"Sinto muito por eles."
    - Fred, meu antigo colega de classe, é outro que não para de repetir coisas. Desde que o velório começou, ele não desgrudou do meu lado e repete essa frase várias vezes. Apesar de não acreditar muito no que diz, eu aceito sua companhia, simplesmente porque eu prefiro estar com qualquer pessoa agora, não importa o quão inconveniente ela seja, do que estar sozinha.
Fred Torres fazia parte da minha turma na faculdade, mas por algum motivo, desistiu depois do terceiro período. Nós cultivamos algum grau não muito profundo de amizade, nos vemos eventualmente, e ele estava lá quando eu soube que os meus pais morreram.
CASSANDRA TAYLOR PRICE.  1950 - 2010
Minha mãe fazia 60 anos essa semana.
GEORGE CHILD PRICE. 1941 - 2010
    A mão enorme e quente de Fred pousa sobre a minha, e eu apenas observo, sem dizer nada. Ele permanece imperturbável e eu me perco examinando as veias alteradas que pulsam em sua pele marrom. Ele é bonito, muito mais bonito que a maioria dos meus antigos namorados, mas eu nunca senti nada por ele, ao passo que todas a minha volta pareciam se derreter em sua presença.
      Meu olhar se foca, de repente, nas costas do meu irmão, a alguns metros de mim, tão alto quanto Fred. Basta uma olhada em seu perfil para perceber que ele está chorando. Bom, Jeff está tentando manter sua dignidade, fingindo uma expressão neutra e tranquila, mas foi os nossos pais que morreram.
Eu, inclusive, deveria estar chorando. Nem sei porque não estou.
       Me sinto anestesiada, vivendo em algum tipo de mundo paralelo onde nada aconteceu. Nossos pais ainda estão vivos e felizes, nossa casa continua tão alegre como sempre foi e tudo a nossa volta está no lugar onde deveria estar. Perfeito e equilibrado. Estável.
Uma calma inexplicável toma conta de mim e eu tenho vontade de dormir. Talvez por alguns dias. Uma semana até. A maioria das pessoas encaram o coma com horror, mas ficar inerte por alguns anos me parece uma perspectiva reconfortante agora.

"Bom, parece que você está rica."
    - A voz de Sadie Woo soa atrás de mim enquanto me dá tapinhas no ombro com sua mão tipicamente gelada. Ela sustenta um sorriso cínico para mim e eu ouço a voz de Fred, baixa e crítica...

"Sadie."
 
"O que é, hein?!" - Ela solta, ignorando seu tom de advertência. - "Só estou dizendo a verdade."

"Esse não é o momento."
    - Ele replica.

Olho para ela.
Há uma crueldade constantemente estampada em seus olhos verde-musgo, e por um momento eu penso que ela é o tipo de pessoa que poderia descobrir todos os meus segredos, todos os segredos da minha família. E se ela o fizesse, me destruiria, completamente.

"Pelo visto, o Fred tá de mal humor hoje."
     - Ela diz, torcendo a boca. Então há riso em seus olhos, e suas palavras saem como veneno, quando ela diz...
"Enterros fazem isso com as pessoas. Meus pêsames pra você."

Então ela sai, e nós dois trocamos um longo olhar.
A presença de Sadie me incomoda, como se ela ainda estivesse aqui, com seu sorriso cínico e olhar maldoso pousados em mim; a cerimônia de repente se torna mais monótona do que o suportável e eu decido me afastar. O som dos meus saltos é amortecido pela grama fofa, e uma vez ou outra eu encosto a ponta dos dedos nas poucas árvores do lugar. O silêncio sepulcral que surge com a falta de vozes se expande por todo o meu corpo, e só o pensamento de como será minha vida agora me deixa doente. O problema é que o meu presente foi construído em cima de uma teia cheia de mentiras e segredos que eu não posso ignorar. Pelo menos, não mais.
      Ouço som de passos atrás de mim e começo a pensar em algo a dizer para Jeff, que com certeza vai começar a falar que eu tenho que acompanhar a cerimônia.
Entretanto, quando olho para a origem do barulho, quem caminha até mim é Fred. De novo.

Meus olhos se movem na direção da cerimônia e o meu irmão não está mais lá.
Volto a encará-lo, estranhando o modo como ele devolve meu olhar.
Meu coração começa a apertar, como se garras o expremessem, como acontece todas as vezes que tenho um mau pressentimento...

"Cadê o Jeff?"
    - Pergunto. Minha voz falha na primeira palavra e a pergunta se perde no ar, sem ser respondida.

Abro a boca para perguntar de novo, mas sou incapaz de dizer uma sílaba.
Uma dor lascinante surge na minha nuca, repentinamente, e se espalha pelo meu corpo como uma corrente elétrica.
Eu tento gritar, mas tudo sai de foco e some.
Não há mais nada em seguida.