Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de ago de 2015

Veneno - Capítulo 10

MARY
O horror é instantâneo.
Gritos, olhos arregalados, mãos na boca, são coisas bem fáceis de localizar nas pessoas que encaram o corpo de Cassandra estirado no chão. Sadie estremece, mas não diz nada. Paul permanece imperturbável.

“Eu quero um carro blindado.” - Ele sibila para o telefone. - “Agora. Se não vou fazer a mesma coisa com os outros.”

“E Jeff?” - Limpo a garganta. - “Como é que ele fica?”

“Não temos mais um cirurgião para operá-lo, como você deve ter percebido.”    - Ele diz, com sarcasmo. A raiva crescente surge em mim.

“Não vai sair daqui vivo.”- Declaro.

“É mesmo? Bom, se eu não sair vivo, você também não vai.”

“Fred!” - Ele vocifera. O som grave de sua voz me faz estremecer.

Paul me empurra para longe da porta, me guiando para o canto esquerdo da sala. - “Sadie, fica de olho nela.”

Eu o observo se afastar. Ela faz sinal para que eu fique de costas, apontando sua arma para mim.

“Anda” - Ela ordena. - “Vai, vai, anda!”

Percebo a vacilação em sua voz.
Ela tenta esconder, mas está assustada, muito mais assustada que eu.
Eu a obedeço, virando de costas, esperando que ela se aproxime.
Sadie abaixa a guarda, caminha na minha direção e estica o braço.
Um barulho no interior da casa faz com que ela volte a atenção para o corredor.
Então, num segundo, meu cotovelo atinge seu rosto.
Ela cambaleia, confusa pelo impacto, e eu aproveito para tomar a arma de sua mão; Sadie grita, e minha mão vai para seu cabelo, puxando-a para perto de mim, fazendo-a de escudo. Paul escuta seus gritos e corre para a sala, mas eu já estou com o revólver apontado para sua cabeça quando ele chega.

Ele parece em dúvida quanto a focar em mim, ou no que possa ter acontecido dentro da cela de Jeff. A preocupação cresce dentro de mim.

“Paul!” - Sadie grasna. - “Não sai daqui, por favor, ela vai me matar!”

“Você sabe que se sair por essa porta, seu irmão morre, não sabe?”
    - Ele solta para mim. Eu não sei dizer se ele está blefando ou não.

“Acha que eu me importo?!”

“Sim, é claro. O sangue é sagrado.”
    - Ele afirma, como se fosse óbvio.
“Entre os dois, você é a única que acredita nisso.”

Fico calada.
Meu silêncio é como um mecanismo de defesa. Sinto que se eu disser algo, ele vai perceber que está certo.

“Seu irmão matou seu pai por puro egoísmo, e você o odeia por isso.” - Ele continua. - “Mas se sair por essa porta, vai matá-lo pelas mesmas razões.”

Xeque-mate.
Por mais que isso signifique minha vida, não posso sair daqui sem Jeff. Muito menos com ele nesta situação. Eu o coloquei naquele estado, de certa forma.
Por mais que eu tenha a consciência de que isso é péssimo e é exatamente o que Paul precisa para assumir o controle de novo, não consigo conter o turbilhão de opiniões conflitantes na minha mente. Eu estou sendo idiota e emocional demais ficando aqui por Jeff, um homem que, apesar de levar meu sangue, é um estranho para mim. Ele matou meus pais. Ele me colocou nessa situação. Eu não deveria me sentir em dívida com ele.
Mas é meu irmão. O pior irmão que alguém poderia ter, mas continua sendo meu irmão.

Paul, por sua vez, parece se cansar de esperar, de qualquer forma.
É compreensível, todos nós já ficamos tempo demais nesse lugar.
E há a polícia, atiradores de elite e toda uma multidão curiosa pela cena que está prestes a se desenrolar.
A pistola de Paul muda de alvo.
Ele move a mão, numa questão de pouquíssimos centímetros, e outras duas balas atingem o peito de Sadie. Eu recuo, num sobressalto, e observo com horror seu corpo inerte caindo no chão.
Somos somente três agora.