Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

17 de ago de 2015

Veneno - Capítulo 7

MARY
Eu observo o rosto de Jeff, brilhando com o suor.
Já faz quatro dias desde a sua ferida na perna, quatro dias em que eu me mantive calada e irredutível, e está acontecendo agora exatamente o que Paul disse que aconteceria.
Examino a ferida, estalando a língua em desgosto; o corte inchou, a pele em volta adquiriu um vermelho doentio, e o fedor proveniente da mistura de sangue e pus me causa náuseas. A dor e a febre alta lança tremores em todo o seu corpo e seu rosto contraído me diz que ele está se esforçando para não gritar.
Jeff está morrendo, isto é fato.
Por vezes eu o pego me encarando, em alguns de seus poucos momentos de lucidez, os olhos interrogativos, se perguntando se isso é o que eu realmente quero – vê-lo definhando aos poucos – ou se eu tenho algum plano. A primeira opção é a que mais faz sentido para ele e eu o entendo. Ainda não esqueci o que ele fez. Não o perdoei. Mesmo assim, esses são problemas internos, nossos. Há outros maiores e mais urgentes que precisam ser resolvidos.
E eu vejo, nessa quase-morte do meu irmão, a oportunidade de estar no controle.

Fred está plantado na porta do nosso cativeiro, e eu posso ver o reflexo dos seus pés no piso escuro, do outro lado da porta.
Solto uma longa expiração.
Ele foi posto aqui para o caso de eu mudar de ideia, e a ansiedade que cresce dentro dele com o meu silêncio é palpável, se estendendo em todos os habitantes da casa.
Eles merecem isso. A agonia da dúvida que eu os fiz passar nesses últimos dias é apenas uma amostra do que vem adiante.

Meus punhos batem contra a porta uma única vez.
Fred abre prontamente, com um puxão violento, e seus olhos estão muito abertos, as pupilas tão dilatadas que eliminam qualquer ponto de cor neles. Ele lê toda a ordem em meu rosto e solta…

“Pensei que nunca iria fazer isso.”

Não demora mais que dois minutos para que eu já esteja na sala.
Sadie é a primeira a me ver, acomodada num canto do cômodo.
Paul é o único de pé, com os braços apoiados na base da janela, as mãos fechadas em punhos.
Gostei de ver isso.
É o primeiro sinal, quase imperceptível, de que ele não está tão calmo como aparenta.

“Foi uma bela jogada, não foi?” - Ele solta, sem olhar para mim. - “Esfaquear seu irmão. Sabia que não iria suportar por muito tempo.”

Permaneço calada.

Ele finalmente se vira para me encarar e levanta, suavemente, uma sobrancelha, em reação ao meu silêncio. Sinto a expectativa de todos eles crescendo, ganhando forma, tomando todo o espaço.

“Então, não vai dizer nada?!”
    - Sadie reclama, impaciente.

“Eu menti.”

Pronto.
Duas pequenas palavras.
O suficiente para abalar a falsa quietude, a aparente certeza de que tudo estava ganho.
Os três se entreolham, confusos. Fred pisca várias vezes antes de balbuciar…

“Peraí, você...”

“Sim, eu menti o tempo todo.” - Repito. - “Vocês estavam certos. Eu não estou com o disco. Ele está na mão de Jeff, e seria entregue para o papai, antes dele morrer.”

Fred solta uma longa expiração e eu ouço Sadie xingar baixinho.
Paul continua imóvel, sem dizer uma só palavra.
Ele me encara, e eu não desvio o olhar, apesar de enxergar a raiva perigosa e crescente em seus olhos.

“É bom se apressar.” - Solto. - “Se Jeff morrer, o segredo do disco morre com ele.”

“Saiam.” - A voz de Paul ecoa. - “Os dois.”

Sadie, que caminhava pela sala como um leão enjaulado, começa…

“Olha, Paul, se eu fosse você eu...”

“Já mandei sair.”
     - Ele interrompe. Ela abre a boca, pronta para protestar, mas percebe que não é uma boa hora.

Ele passa um bom tempo em silêncio depois que eles saem.
Eu observo cada movimento seu, por mais imperceptível que seja.
Paul me olha com descrença, desvia o olhar, balança a cabeça…
E ri.

Uma risada repentina, depreciativa, que vai embora tão rápido quanto veio.

“Sabe, menina, eu poderia matá-la de mil formas diferentes agora.” - Ele declara.

“Mas não vai fazer isso.”
    - Respondo, com uma firmeza surpreendente.
“Você quer esse disco. É sua obsessão.”

Começo a me perguntar quais seriam os motivos que levaram Paul Torres a fazer tudo isso. O roubo do disco seria um suicídio tanto para nós quanto para ele. Nenhum de nós tem saída. Se saíssemos daqui, seríamos presos imediatamente.

“Não estranhou nem um pouco quando seu pai lhe pediu para fazer isso?”
      - Ele pergunta, como se estivesse lendo minha mente.

“Onde quer chegar com isso?”

“Responda.”

“Sim, estranhei.” - Confesso. - “Todos estranharam. Mas isso não importa agora.”

“Seu pai roubou esse disco por minha causa.”
   - Ele afirma.
“Tinha muitas dívidas comigo. Dívidas que nem ele, nem ninguém da sua familiazinha medíocre poderiam pagar.”

Continuo calada. Ele sai da janela e se senta numa poltrona.

“Disse que se não o fizesse, mataria toda sua família. Perceba que não falei que iria matá-lo; só aos seus.” - Explica. - “Por mais estranho que pareça, ele nutria algum tipo de afeição por vocês.”

Há dias atrás isso me afetaria.
Agora, por alguma razão, me tornei completamente indiferente a qualquer coisa referente aos meus pais.

“Por que iria querer isso?” - Pergunto. - “A polícia e a imprensa correriam atrás de você…”

“Não era para mim.”
    - Ele interrompe.
“Eu repassaria para outra pessoa. Um desafeto meu. A ideia era que ele ficasse com toda a parte negativa do roubo, e eu pegasse as informações. Era um plano perfeito, até o seu irmão cometer a estupidez de matar o velho Price.”

O fato de Paul, um intruso, saber qual a real causa da morte dos meus pais me causa uma profunda irritação.
Sinto como se todos naquele velório soubessem, menos eu.

“Mas é como você disse” - Ele completa, soltando um longo suspiro. - “Nada disso importa agora.”

“O que vai fazer, então?” - Pergunto, porque sinto que era minha obrigação dizer alguma coisa.

“Poderia matar a todos nós, não é?” - Solta. - “Colocar uma bala na sua cabeça, na do seu irmão, em Sadie, Fred e depois na minha própria. Seria um desfecho melancólico, não acha?”

Continuo calada.
Paul parece ter recuperado a calma. Seus olhos me examinam, não com raiva, mas com algo entre a diversão e a completa indiferença.

“Vou fazer o que você quer.” - Diz, finalmente.

“Quando?”

“Amanhã.”

“É muito tarde.”

“Não, não é.” - Diz. - “Ah, e é bom ele colaborar. Não quero estender isso por mais uma semana.”