Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

28 de jul de 2016

Horror na escola - final

Um barulho contínuo trouxe-o de volta. Estava deitado em uma cama branca, num quarto branco, com uma pessoa de branco à sua frente. Tinha dificuldade para abrir os olhos, que estavam bem inchados, mas, ao vislumbrar a mãe sentada na poltrona a seu lado, quase fez o globo pular da cavidade.

A mãe foi até ele e o abraçou levemente enquanto chorava silenciosamente, evitando forçá-lo muito.

- Eu… - Dizia Bruno, quase sussurrando. - eu tô vivo? Mãe?

- Sim, filho! Sim! - Íris começava a chorar mais alto. - Deus é bom!

- Mas… mas como me acharam?


A mãe olhou para o doutor, que lhe devolveu o olhar, meio embascado, piscando através dos óculos de lentes esmaecidas.

- A diretora ligou, filho. Você bateu com a cabeça na quadra jogando bola, lembra?

- Eu? Quando?

- Há dois dias, Bruno.  - Respondeu o médico, por baixo da máscara cirúrgica. - Desde então você apenas dormiu, até agora.

A cabeça de Bruno voltou a doer, sentiu o mundo girando. Sua mãe segurava seu pulso.

- Tudo bem. - Continuou o doutor. -  É uma reação natural de quem sofre algum trauma no crânio. É melhor deixá-lo descansar mais um pouco, dona Íris.

A mãe acomodou-o no travesseiro. Um sorriso brotou no rosto de Bruno. Agora percebia que estava nu, provavelmente devia ter urinado nas roupas e na cama e foi preciso trocá-lo, mas era uma humilhação que poderia suportar.

- O que foi, filho? Por que o riso?

- Nada não mãe, um negócio que sonhei, só isso.

- Deve ter sido um sonho e tanto. - Disse o médico. - Você dormiu por quase dois dias inteiros. Dormindo você se recuperaria mais rápido.

Bruno viu o médico introduzir uma seringa no frasco de soro que estava conectado ao seu corpo.

- O que é isto, doutor?! - Perguntou o rapaz.

- Ah. É um negocinho para você dormir mais um pouco. Ainda não está bem, bem. Mais um dia de recuperação e já vai poder voltar até a namorar. [o doutor piscou para Íris, e um sorriso de alívio surgiu no rosto da mãe, em meio às lágrimas incessantes]

Íris abraçou o filho uma vez mais. Sua testa já não estava febril, o que aliviou ainda mais a mulher.

- Eu vou ao banheiro lavar os olhos filho. Já, já eu volto.

Após um beijo no rosto, a mãe de Bruno deixou-o só com o médico. O menino já sentia a sonolência lhe dominar enquanto seus olhos percorriam o quarto de hospital. Um instante mais tarde, seu olhar parou em seus tênis, colocados sobre a roupa dobrada que usava quando foi a escola na última vez, em cima de uma cadeira. Na sola, Bruno notou manchas vermelhas, como se ele houvesse pisoteado em beterrabas cozidas.

Aflito, mas sem forças, olhou para o doutor, parado aos pés da sua cama, com uma segunda ampola nas mâos. O médico baixou a máscara e sorriu, exibindo seus dentes amarelados e podres, e aproximou-se de Bruno. Através dos óculos, o garoto viu com incredulidade e terror os olhos vesgos cor de violeta. Então falou, abaixando o rosto próximo o bastante para que seu paciente sentisse o hálito putrefato:

- Bons sonhos, menino. Descanse em paz.

Depois disto, o mundo de Bruno foi tomado pelas trevas.


FIM