Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de mar de 2014

Calibre 11 - Capítulo 1


New Roman, capital de Calanma, outono de 2100   
Estou sentada há um pouco mais que meia hora aguardando pelo ruído metálico que indicaria que a prisioneira havia chegado. O som me era muito familiar, inclusive os passos pesados, mas virei meu rosto automaticamente, como se fosse a minha primeira vez ali.
Então, eu vi o que já estava acostumada a ver em anos.
Dois guardas de preto usando a braçadeira com a bandeira de seu país estampada – a águia negra de olhos ameaçadores num fundo vermelho sangrento – e armados até os dentes.
Havia a prisioneira também, com algemas de ferro em suas mãos e pés.
Uma sociopata. Mais uma sociopata.
Seu nome era Daphne Redfort, como dizia na lista que eu li agora pouco. Era miúda e tinha mãos muito pequenas, com dedos longos e finos, mas quando eu a fitei, senti como se uma substância corrosiva estivesse saindo daqueles olhos castanhos. Seus cabelos escuros estavam presos num rabo de cavalo, acentuando ainda mais seu rosto pálido e assimétrico, e ela tinha olheiras roxas e profundas.
Era bonita, apesar de tudo.
Sentou-se de frente para mim, sem dizer uma palavra. Os guardas foram embora, mas eu sabia que havia inúmeros deles lá fora, há poucos metros da sala cinzenta e sem graça, esperando pelo mínimo sinal de confusão.
Nós nos encaramos em silêncio.
Ficamos assim por um longo tempo.

– Se você não disser nada, vai ficar difícil te ajudar.
 Solto, casualmente, como se estivesse entediada, quando na verdade minha mente fervia naquele exato momento. A perspectiva de estar cara a cara com psicopatas e sociopatas com altos níveis de destruição ainda me causa desconforto, mas eu sabia fingir.

– O que você quer?
Daphne diz, sua voz soando despreocupada e irritada ao mesmo tempo, como pensei que seria. Me inclino sobre a mesa e sussurro:

– Talvez eu possa tirá-la dessa situação, sabe.



E então, no instante seguinte, Daphne ri.
Não uma gargalhada nervosa, ou com raiva, mas a risada de alguém que está realmente se divertindo, como se alguém tivesse lhe contado uma piada.

– Se eu pudesse sair dessa situação, moça, quem estaria me visitando era um advogado, não uma psiquiatra.

– Como sabe que sou uma psiquiatra?
Pergunto, mesmo sabendo que não é uma pergunta muito inteligente. Com certeza essa não era a primeira vez que recebia uma visita como essa, mas o que me moveu a perguntar foi aquele desejo de saber o que ela pensava sobre isso, sobre nós, sobre as consultas...

– Vocês são todos iguais.
Daphne diz, encolhendo os ombros.
– Sempre me olhando como se eu fosse uma débil mental.

Uma resposta satisfatória.
 Mas não completamente.

– E o que você pensa sobre si mesma e sua atual situação?

– Eu não penso nada, moça.
Ela responde, encostando-se à cadeira.
– A única coisa que eu sei é que daqui a alguns dias eu vou para a cadeira elétrica.

– E não sente medo de sua sentença?

– O medo é uma coisa estúpida.
Daphne declara, deixando escapar um vestígio de sorriso que parece meio maníaco em seu rosto, num momento como esse.
– Pode até funcionar às vezes, mas no meu caso não.

Eu fico calada, passando e repassando os detalhes de sua ficha na minha mente.
Daphne Redfort. 
21 anos. 
Branca. 
52 quilos. 
Acusada da morte de cerca de quase 40 pessoas, sendo mais da metade, oficiais de Calanma, soldados de alta patente. 
Evidências encontradas: uma bala de calibre 11, amostras de sangue e cabelo deixados no local de um dos crimes. 
Nação de origem: Illies. 
Illies.
É essa informação, em especial, que me chama a atenção.
Qualquer pessoa mais esclarecida pode perceber que eu não sou apenas uma psiquiatra. Meu sobrenome, Helvet, tem poder suficiente para me dar acesso a informações que uma pessoa normal jamais teria.
Uma delas, é de que Calanma está em guerra.
E a nossa nação inimiga é justamente, Illies.

– No que está pensando?
Ela pergunta, me puxando para fora de minha nuvem de pensamentos.

– Sou eu que faço as perguntas.
Disparo. Ela encolhe os ombros e diz:

– Eu já vou morrer mesmo, não custa nada responder uma simples pergunta.

Eu não respondo.
O que é terrível, porque o que eu mais quero é responder, não o que ela está me perguntando, mas alguma coisa suficientemente eficaz para mudar de assunto sem mais suspeitas. O rumo que essa conversa está tomando é perigoso.
Meus pensamentos são perigosos.
Eu tento bloquear as hipóteses e suposições. O jeito intenso como ela me encara, como se estivesse lendo a minha mente, me incomoda.
Talvez você não seja uma completa sociopata, Daphne Redfort.
Talvez o governo esteja mentindo.