Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de mar de 2014

Calibre 11 - Prólogo

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– Sinto muito, mas eles não resistiram.
O médico nos dá a notícia. Previsível, essa é a palavra. Eu já podia imaginar muito bem o rosto do cirurgião contraído em desconforto por ter que dizer isso. Poderia imaginar os braços do meu irmão Jason nos meus ombros, como está agora, tudo isso antes mesmo de começar a cirurgia.
Ou talvez, antes mesmo daquela viagem.
Eu não sei como, mas eu sabia que os meus pais iriam morrer.
A coisa toda começou quando o papai voltou de uma viagem a negócios. A mamãe ficou tão feliz e entusiasmada que decidiu acampar com ele nos arredores do monte Clementine. O nome desse monte é uma homenagem a minha bisavó, Clementine Helvet. Eles decidiram escalar o jovem monte, a protuberância resultada do último grande choque entre as placas tectônicas, mas houve um avalanche. Richard, meu irmão mais velho, estava na casa da namorada. Jason também tinha saído, então eu acabei recebendo a ligação. E quando eu ouvi a notícia vinda da voz do outro lado da linha, meus maus pressentimentos se confirmaram.

– Eu posso ver os corpos?
Pergunto, depois de muito tempo calada, com aquela sensação de que tinha uma bola em minha garganta. Me surpreendo ao perceber que minha voz não saiu embargada.

– Senhorita, os rostos foram muito lesionados e...
O cirurgião começa, receoso por estar me negando alguma coisa. Na verdade, todo mundo sente medo ao dizer um "não" para um Helvet. Somos a família mais influente do país, nossos pais e avós são considerados verdadeiros heróis da nação. Eu costumo aceitar um "não" com facilidade, mas dessa vez, eu preciso fazer isso.

– Eu também sou médica.
Respondo firmemente. O cirurgião me fita, e eu posso ver o ceticismo nítido em seu rosto. Ok, não sou uma médica completamente e sim uma psiquiatra, mas posso ter certeza de que já vi coisas muito piores do que corpos mutilados. Ele não tenta me impedir novamente, e eu caminho a passos rápidos até a sala de cirurgia.
    O odor afiado de sangue humano preenche meu nariz. Eu não me importo com ele, nem com o cheiro de hospital, nem com o fato de que um dos corpos dos meus pais estão nesta sala, apertos e muito mutilados.
Me sinto anestesiada.
Eu deveria me afastar, é o que qualquer um normalmente faria, mas meus pés se movem para frente.  Eu olho para o rosto desfigurado, e só consigo descobrir que se trata da minha mãe pelo seu cabelo castanho-médio. Eu não me sinto mal, nem ao menos estou enojada com o estado do rosto da minha mãe. Eu não noto as feridas. Não noto o sangue. Eu só consigo olhar para os seus olhos claros, abertos, opacos.

– Você bem que poderia me ouvir de vez em quando.
Sussurro, e uma lágrima escorre logo em seguida. Eu pedi, insisti para que eles não fossem, mas eles não se importaram. Eu sussurro como se ela pudesse me ouvir, e mantenho a esperança estúpida de que ela possa voltar e mover sua mão até a minha. Seria lindo se acontecesse, mas essa história não é uma utopia.
E depois, de um tempo, com o rosto seco e o olhar firme, eu saio daquela sala.
E a minha única sensação é que se eu pressenti suas mortes, talvez um dia eu possa pressentir a minha também.