Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

14 de abr de 2014

Calibre 11 - Capítulo 4


– Eu vou começar com perguntas simples, avançando para as mais complicadas pouco a pouco.
Evan me diz e eu concordo com um movimento leve de cabeça. Eu passo a língua rapidamente pelo chip metálico grudado no meu céu da boca, olhando fixamente para o holograma que se abre quando ela arrasta o dedo pelo painel de controle. Assim que o dispositivo for desligado, o chip irá se descolar automaticamente da minha boca; enquanto o polígrafo estiver ligado, ele permanecerá fortemente colado a mim.

– Qual é o seu nome?

– Prudence Helvet.

– Quantos anos você tem?

– Vinte e cinco.

– Qual é o nome dos seus pais?

– Annie e Robert Helvet.

– Quantos irmãos você tem?

– Dois.

– Você é psiquiatra?

– Sim.

– Tem filhos?

– Não.

Evan faz uma pausa que significa que ela vai começar a passar para as perguntas mais pessoais.


– Quando foi o seu último relacionamento?

– Amoroso?
– Sim.

– Faz um pouco mais de três anos.

– Qual foi o motivo do término?

Solto uma longa e cansada expiração.
Meu relacionamento com Benjamin Verdan foi tão rápido, intenso e doloroso que mergulhei no meu trabalho logo depois, dobrei minha carga horária e aceitei trabalhar para o governo só para não ter tempo de pensar nele. E funcionou, entretanto. A lembrança dele esteve adormecida na minha mente durante todo esse tempo e agora, quase quatro anos depois, uma simples pergunta de Evan Black foi o suficiente para desperta-la.

– Ele simplesmente sumiu.
Respondo.

– Sem nenhum motivo?

– Não que eu saiba.

Ela dá uma rápida olhada no holograma, mas ele continua tão silencioso quanto estava, porque eu disse a verdade. Eu nunca entendi a razão de ele ter desaparecido, num dia ele estava feliz, sorridente e amável e tudo parecia perfeito entre nós, no dia seguinte ele desapareceu sem dar pista. Eu também não o procurei, e se na época eu me recusava a questionar-me sobre o que aconteceu, agora é que eu estou ainda menos disposta a fazer isso.

– Quem lhe entregou nossa carta de convocação?
Evan pergunta, mudando de assunto, ao que eu agradeço imensamente.

– Minha amiga, a Doutora Tiffany McGrey.

– Mais alguém sabe que você está aqui?

– Não.

– Está ciente do protocolo de sigilo da nossa agência?

– Sim.

– Saberá separar sua vida pessoal de suas obrigações para com o governo?

– Sim.
Respondo e eu teria certeza dessa resposta uma semana atrás, quando eu não tinha conversado com Daphne Redfort. Mesmo assim, eu sei mentir, até mesmo para um polígrafo.

Evan observa a tela por um instante, antes de cravar seus olhos escuros em mim e perguntar:

– Você é fiel ao seu país?

Eu presto atenção em minha respiração, controlando-a. Essa é a pergunta final. Ela irá decidir se eu sou uma aliada ou uma inimiga.

– Sim.

Por um instante eu espero pelo apito irritante que significaria uma mentira. Mas Evan observa o polígrafo e ele continua lá, em silêncio, com a luz verde indicando que eu disse a verdade.
Me sinto uma perfeita mentirosa.
Evan ainda fica me observando por um tempo, procurando por um traço de mentira, um vacilo, alguma coisa que dissesse que a máquina havia errado.
Porém, meu rosto permanece neutro e ela arrasta o dedo de volta, desligando o aparelho.
O holograma some e o chip se solta de minha boca.

Evan empurra um recipiente de porcelana com o dedo em minha direção. Eu coloco o pequeno dispositivo metálico ali dentro. Ela se levanta e faz sinal para que eu a siga.

– Então, Prudence, a partir de agora considere-se parte da missão.

– E que missão é essa?

– Seu instrutor irá te explicar.
Ela diz, caminhando para sua mesa.
– Ele estará te esperando num porto e você será encaminhada para lá assim que sair dessa sala. Achei que gostaria de ser levada por Richard, já que ele é seu irmão e tudo.

Evan me entrega um chip, mais um chip, dessa vez ele tem a forma arredondada e é ainda menor do que o último. Um comunicador. Eu o coloco dentro do ouvido.

– Qualquer coisa, entre em contato com seu instrutor pelo fone.
Ela diz, me entregando outro aparelho, que mais se parece com uma caixinha, muito fina e branca. Há um pequeno visor em cima e um único botão redondo no meio. Evan explica:
– É um sincronizador. Ele tem um igual.

*

 – Fiquei sabendo que passou por um detector de mentiras.
Richard diz, casualmente, enquanto guia o carro pelas ruas de New Roman. Ele age como se nada tivesse mudado, como se nós fossemos irmãos comuns, numa situação comum. Eu poderia jogar esse mesmo jogo, mas não estou muito disposta.

– Há quanto tempo você trabalha para a GOSC?
 Pergunto. Ele me olha de soslaio por um breve momento e depois volta a olhar para a pista.

– Eu não podia contar a você.
Ele diz, assumindo uma expressão e voz séria.
– Faz parte do protocolo.

– Você não é o tipo de cara que cumpre regras a risca.
– Prudence.
Richard diz, sua voz mais alta e mais dura, do mesmo jeito que ele sempre faz quando não está gostando do rumo da conversa.
– Você sabe que é diferente. Se eu te contasse, você não iria descansar até que eu contasse sobre como era a GOSC, coisa que me era definitivamente proibido.

     Eu abro a boca para rebater, mas ele me encara pela primeira vez durante todo o caminho, sua expressão tão ameaçadora que eu me encolho instintivamente.
Eu sei que ele não faria nenhum mal para mim, mas toda vez que ele me olha desse jeito parece que está a ponto de me estrangular.
Richard Helvet e sua habilidade incomum de calar as pessoas com um simples olhar.
Essa é mais uma das coisas que ele herdou de papai.
Nós nos mantemos em silêncio durante toda a viagem.

  Já é fim de tarde quando chegamos ao porto. Eu me fixei no tom alaranjado do céu durante toda a viagem para me distrair de Richard, mas agora que o carro parou, é impossível ignora-lo. Ele parece muito mais tranqüilo, com o canto da boca levemente curvado em um sorriso, e eu pergunto:

– Em qual delas eu devo entrar?

Richard passa uma rápida olhada na fileira de lanchas paradas e responde:

– Na terceira.

Então me viro, pronta para abrir a porta, quando ele diz:

– Não que você precise disso, mas… boa sorte.

– Obrigada.

    O aroma de água salgada preenche meu nariz, apesar do cheiro ser bem leve e remoto. Eu pareço tão fora de lugar nessa paisagem litorânea, com roupa social, cabelo preso e salto fino, mas eu não tive tempo de me trocar e mesmo se tivesse, eu não saberia como me vestir porque até algum tempo atrás, eu não tinha a menor ideia de que estaria aqui. Na verdade eu não tenho a menor ideia de para onde eu vou agora e mais um monte de outras coisas sobre a minha missão.
   Eu tenho certa dificuldade em subir na lancha e o barulho que o meu salto causa me irrita porque eu sempre gostei de ser silenciosa e entrar sem ser percebida nos lugares. Eu entro na embarcação e ela é bem bonita e aconchegante, porém, não tenho muito tempo para examina-la porque um homem forte e estranhamente familiar está de costas para mim, mexendo em alguma coisa que eu não sei o que. Meu instrutor, provavelmente.
Mas por que ele me parece tão familiar?

Eu solto uma tossezinha, para que ele perceba que eu estou aqui.
Ele se vira para me encarar e então eu tenho a resposta para minha própria pergunta acima.
Eu lembro do interrogatório de Evan e percebo que ela tinha um motivo muito maior do que eu pensava para me perguntar sobre meus relacionamentos.
Porque o que eu acabo de descobrir é que o meu instrutor, é justamente, Benjamin Verdan.