Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de abr de 2014

Calibre 11 - Capítulo 6


Andalus, litoral de Calanma, à oeste de New Roman, 7 da noite
Com 23 anos eu já era uma psiquiatra formada, o que pode parecer muito cedo em comparação ao sistema de educação convencional que predominava antes da guerra. É claro que algumas nações – muitas, inclusive – aderem esse tipo de ensino nos dias atuais, mas Calanma adotou um modelo muito mais avançado e rápido.
Praticidade.
Essa é a palavra de ordem nos dias de hoje.

Ao passo em que pudemos nos formar mais cedo, nossa vida escolar se tornou muito mais rígida e pesada do que antigamente, com aulas todos os dias – incluindo os finais de semana. Os feriados foram extintos, exceto o Dia da Unificação¹ – e férias reduzidas a apenas uma semana; conceitos considerados desnecessários pelo país foram abolidos do cronograma escolar. É compreensível que esse modelo tenha sido adotado num país em rápido desenvolvimento econômico e tecnológico, sem contar na guerra. Calanma precisava de bons profissionais ao seu dispor, com urgência.
   Os jovens que optaram a se tornarem soldados, como Ben, ao invés de irem para uma universidade comum depois do ensino básico, foram encaminhados para grandes internatos, passando por dois anos de intenso treinamento com vários tipos de armas, bombas e técnicas de luta, além dos conceitos em estratégia de guerra e algumas doses de história. Ben sempre foi excepcionalmente bom nisso, se tornando um dos melhores soldados e atraindo os olhares da GOSC. Eu sempre soube da realidade dos colégios internos, isso porque o meu irmão do meio, Jason, foi para um deles. Ele sempre me contava da rotina pesada e da rigidez de seus professores; não é muito difícil perceber que Calanma sempre esteve em guerra, em meio a todo o incentivo por parte do governo, oferecendo salários altíssimos e até mesmo cargos políticos a quem seguisse essa área. O que Calanma realmente fez questão de esconder do seu povo, era contra quem estava lutando e o porquê.

– Você sempre quis ser um soldado ou só está aqui pelo dinheiro?
Pergunto a ele, assim que saímos do porto. Ben me lança um olhar curioso pela minha pergunta repentina, porém, responde:

– Eu gosto do que eu faço.

– Matar pessoas.

– Matar inimigos.
Ele rebate e depois encolhe os ombros.
– É uma terapia.


Eu me deixo calar e o sigo até um carro preto. Ele abre a porta que dá acesso ao banco do passageiro e eu entro, observando ele dar a volta e entrar pela outra porta. Ben tira uma caderneta do nada e me entrega. Eu arqueio uma sobrancelha em interrogação e ele diz:

– Documentos falsos.
Então se inclina para mim e solta, num quase sussurro sedutor:
– A partir de agora você se chama Sarah Torres e é minha mulher.

Eu aperto os lábios em irritação e ele sorri contente.
– Posso saber como você vai fazer para que ninguém me reconheça?
Pergunto, irritada, mas não por isso, e sim pela sua recente provocação.
– Sou uma Helvet, lembra-se?

– Para isso que servem os disfarces.
Ele diz, pegando uma muda de roupas e me entregando.

– Não acha que vou me trocar aqui, acha?
Digo, incrédula. Ele rola os olhos.

– Até parece que eu nunca a vi nua.

– Benjamin!

– Ok, ok.
Ele solta, levantando os braços em rendição.
– Não vou olhar, se é isso que te preocupa.

Eu solto uma praga em voz baixa e começo a desabotoar os botões da camisa social com muita rapidez. Me mexo algumas vezes, descendo a saia, enquanto Ben começa a dirigir calmamente. Não demora mais de quinze minutos até nós chegarmos ao nosso destino e eu estar devidamente vestida.
   Andalus é quente, até mesmo durante a noite, e tem luzes muito bonitas que iluminam a cidade; aqui as pessoas sorriem mais, brincam mais e fazem festas, como se estivessem alheios ao que está acontecendo em seu país. A infraestrutura se parece muito com a de New Roman, aliás, todas as cidades se parecem com a capital, mas sempre há alguma coisa que vai diferenciá-la. E o que diferencia Andalus das outras, são justamente, as luzes. A bela luz natural do sol, durante o dia; as telas repletas de propagandas coloridas e luzes piscantes, à noite.

– Você não mudou muito o corpo nesses anos.
Ben comenta, e eu lhe lanço um olhar fulminante, até perceber que ele está dizendo isso não porque realmente reparou, mas sim para provocar.

– Onde estamos indo?
Pergunto, ignorando sua provocação. Ele assume um tom sério, misterioso, e apenas diz:

– Aguarde.

E eu aguardo, bastante contrariada, por sinal. É que eu sempre preciso saber o que está acontecendo, em que chão estou pisando.
Nós nos misturamos facilmente na multidão que caminha alegremente nas ruas. Aqui eu vejo alguns soldados bêbados, acompanhados de mulheres bonitas com roupas minúsculas e tão ridículas que penso que seria mais elegante se elas andassem de lingerie na rua. Nenhum deles nota Ben e mesmo se o conhecem, estariam bêbados demais e ocupados demais com suas vadias para notar. Ben esteve segurando o meu cotovelo desde que saímos do carro com tanta delicadeza que eu só senti um roçar de seus dedos na minha pele. Mas então, ele aperta de repente, me forçando a virar a rua, dando um puxão tão forte e rápido que eu saio cambaleando ao lado dele.
É uma rua estreita e bem mais calma que a rua central. Ela é meio escura também, mas a luz brilha forte na saída; possui prédios mais baixos que se escondem no meio dos arranha-céus e Ben me encaminha para um deles. Uma base da GOSC. Uma organização secreta não pode chamar a atenção. Eu já deveria ter imaginado.
Mas então, quando nós entramos, percebo que eu estava errada.
– Onde estamos?
Pergunto, observando o interior da casa, um lugar espaçoso e aconchegante, com móveis todos em tons de preto, branco, cinza escuro e um pouco de marrom.

– Meu apartamento, oras.
Ele responde, como se fosse óbvio, se jogando no sofá.

– Eu pensei que estaríamos indo à GOSC.

– Não podemos ir à GOSC.
 Ele diz, eu arqueio uma sobrancelha.
– Não é recomendável. Eles instruem que só devemos procurar a base se houver algum imprevisto.

– Então vamos ficar aqui?

– Claro. Não pensou que dormiríamos na base, pensou?
Então ele sorri ao ver minha expressão decepcionada e solta:
– A GOSC é uma organização secreta, Prudence, não uma pensão.

– Qual é o meu quarto?
Pergunto, de repente, incomodada com a conversa.

– Virando à esquerda, segunda porta.

¹Dia da Unificação: Feriado nacional onde se celebra a união do povo com o fim de fundar uma sociedade funcional e estável, no caso, Calanma. Durante o feriado, acontece também cerimônias em homenagem aos mortos na guerra.