Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

24 de mai de 2014

Calibre 11 - Capítulo 11



1 hora da manhã. 

Depois que Ben foi embora, eu dei um jeito de roubar uma faca da cozinha. Eu não tenho planos de usá-la, apenas num caso de emergência. A verdade é que eu estou um pouco apavorada com isso, mas deixo o meu medo de lado para fazer o que é necessário. Eu aguardo pacientemente o momento certo, quando tudo estiver escuro e o movimento diminuir consideravelmente.
Daphne não foi ao meu quarto hoje.
Eu fico um pouco aliviada com isso, porque ela sempre me olha desconfiada, como se pudesse enxergar todos os meus pensamentos.
Me levanto devagar, silenciosamente, tomando todo o cuidado para a cama não ranger.
Eu puxo a faca de ponta fina, encaixando-a na fechadura e girando-a. Em Calanma, fechaduras como essa foram praticamente abolidas, por serem consideradas extremamente frágeis, mas aqui, em Illies, parece que eles desconhecem uma boa e segura fechadura eletrônica, com scanner, o que é bom para mim, no momento.
A porta não demora para abir e eu dou passos cautelosos no chão gelado. Tudo está escuro, e a única iluminação fornecida são as luzes de fora, refletidas no teto de vidro. Guardo a faca na cintura, atenta a qualquer movimento em minha direção. Continuo caminhando a passos lentos em meio a escuridão do prédio, quando começo a ouvir, de longe, vozes.
Avanço lentamente em direção ao som.
Um, dois, três, quatro passos.
A iluminação fraca e amarelada do que parece uma vela, vem de um dos corredores.
Me escondo atrás da parede, prendendo a respiração, enquanto ouço uma voz masculina dizer:

– Aquele jovem, o Richard Helvet... Já cansei de falar que deveriam prestar atenção nele.

Eu me pressiono ainda mais contra a parede ao ouvir o nome do meu irmão. Meus pés e mãos estão gelados e eu estou tremendo de frio, mas tento ficar o mais imóvel possível.
– Concordo. Ele anda criando contato com pessoas importantes, se envolvendo nas questões sigilosas com relação a guerra e Calanma quer um novo presidente.

– E a menina? Não acha que manter ela aqui seja perigoso?

– Ela é como um bebê no meio da guerra. A garota Helvet não é como seu irmão, ela não sabe o que está acontecendo e não sabe o que queremos com ela.

Eu poderia me ofender com o modo como eles se referem a mim, mas estou preocupada com seus passos, avançando cada vez mais pelo corredor.

Olho ao meu redor, procurando algum lugar para escapulir.

– E você por acaso sabe?

– Ouvi algumas coisas sobre a Central usá-la em algum vídeo, algo como jogar a merda no ventilador, sabe?

Então, no instante seguinte, viro à direita e desapareço na escuridão.
Eu procuro um compartimento fechado, analisando o que eu ouvi. Richard será o novo presidente, é o que eles acham.
Eles também acham que me usar para causar caos e desespero no povo é uma boa solução.
Eu deixo o meu orgulho ferido de lado e fico aliviada por saber que eu sou frágil e inofensiva para Illies. Pelo menos, é melhor do que ter alguém desconfiando de mim.
Decido entrar por uma porta aleatória, ciente do perigo que estou correndo, então eu percebo que é apenas um banheiro vazio e me permito respirar mais livremente.

– Ben?!
Sussurro, tocando no meu fone.

– O que?
Ele responde, sua voz rouca, como quem acaba de acordar.

– Descobri uma coisa.

Solto e ele fica calado do outro lado, esperando que eu complete. De repente, uma euforia louca e borbulhante começa a crescer dentro de mim e eu começo a ditar o que eu ouvi minutos antes. Ben continua calado, mas eu ouço a sua respiração equilibrada, e eu sei que ele vai lembrar de cada mínima palavra que eu disse uns dois anos depois.

Então, uma voz áspera e feminina, de um timbre completamente diferente do meu irrompe pelo banheiro.

– Que raios você tá fazendo aqui?!

É como se o sangue congelasse dentro das minhas veias.

Isso não é a voz de Daphne, aliás, não é a voz de ninguém que eu conheça aqui e quando me viro para olhar, a luz proveniente de uma lanterna ilumina meu rosto.
A mulher que me olha com a testa franzida tem a cabeça raspada e a pele num tom de chocolate ao leite.
Meu fone ainda está em silêncio, apesar da respiração de Ben ter acelerado mais e ele sabe, e eu sei o que tenho que fazer agora.
Eu lembro da faca, o metal gelado na minha cintura, perigoso e convidativo.
A mulher desconhecida se aproxima de mim e eu bloqueio qualquer protesto que a minha consciência tente fazer.
E quando ela afasta a lanterna, pronta para me puxar pelo braço, eu puxo a faca e lhe dou um golpe na altura do estomago.
Ela grita e cai, me puxando junto com ela. Mesmo sangrando, ela tenta partir para cima de mim, mas eu continuo golpeando, apertando o cabo até os nós dos meus dedos ficarem brancos.
Sinto o odor afiado do sangue em meu nariz, e em circunstâncias normais eu ficaria atordoada, mas agora eu não me importo. Golpeio cegamente, sem saber onde estou atingindo, numa sequência de movimentos bruscos e irracionais. Então eu paro, ofegante, ao ver que ela está completamente desacordada.
O andar está estranhamente silencioso.
Eu não consegui calcular o quão alto foram seus gritos, mas eu sei que alguém que estivesse em qualquer um dos corredores ouviria.
Eu solto a faca como se ela desse choque e apoio as duas mãos no chão sujo e sangrento.
A lanterna me dá um vislumbre do estrago que fiz. Minhãs mãos estão completamente sujas de sangue, assim como minhas roupas, a faca e eu sinto uma gota de sangue que escorre no canto da minha boca.
Os golpes atingiram seu peito, pescoço e barriga.
Então eu ouço a voz de Ben no fone, e soa como se fosse a primeira vez que eu ouvia aquela voz rouca, séria e neutra, ordenando:

– Limpe tudo isso.