Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

10 de mai de 2014

Calibre 11 - Capítulo 9


Dustfire, fronteira entre Calanma e Illies, território Iliniano, em algum momento da tarde
A primeira coisa que me dou conta quando acordo é a minha dor de cabeça.
  É uma dor moderada, porém incomoda, e quando eu coloco o dedo na minha têmpora, sinto-a latejar.
A segunda coisa que me dou conta é de que estou em algum lugar do mundo fora de Calanma.
Minha principal aposta: Illies.
Eu tateio a minha orelha, só para ter certeza de que o meu fone continua ali. Meus olhos percorrem o lugar e meus sentidos estão bem mais afiados agora do que estavam da última vez que me lembro.
Vasculho minhas lembranças atrás de alguma informação.
Eu estava no fórum, em Andalus, esperando que o ataque acontecesse.
Os rebeldes jogaram algum tipo de veneno na corrente de ar do prédio.
As pessoas correram, vários outros morreram, mas eu consegui escapar.
Então houve a cerca e os vultos que pularam a cerca, e a voz de Daphne.
Depois disso, mais nada.

– Bom dia, Prudence.
Daphne diz, entrando de repente no meu quarto – eu acho que isso é um quarto – com sua mesma voz e expressão tranquila e indiferente. Eu sinto uma enorme curiosidade em saber como ela se sairia numa situação realmente difícil, onde ela não está no controle da situação.

– O que aconteceu comigo?
Pergunto; ela então me encara pela primeira vez no dia.

– Você não se lembra de nada?

– Só até a parte da cerca.

– Bom, deve ter sido pela pancada.
Ela responde tranquilamente, enquanto coloca um prato com um sanduíche em frente a mim.

– Eu apanhei?!
Pergunto. Ela levanta o canto da boca.

– Só um pouquinho. Coma.

– Onde eu estou?

– Não faça perguntas. Coma.

– Onde eu estou?
Pergunto novamente, frisando cada palavra. Daphne solta um suspiro irritado.

– Num lugar chamado Dustfire, conhece?

– Não.
Confesso, desanimada.

– Foi o que eu pensei. Coma.


  Eu sigo Daphne com o olhar até que ela vai embora, batendo displicentemente a porta. Eu observo o sanduíche diante de mim sem muita fome.
Então eu lembro de Ben. Aperto o fone.

– Ben? Ben?
Sussurro.

– Oi Prudence.
Ele responde, sua voz visivelmente cansada.

– Eu pensei que você e a GOSC iriam me proteger de algum tipo de agressão física...
Solto acidamente.

– O que eles fizeram?

– Uma pancada na cabeça que me rendeu uma bela dor de cabeça. Achei que você deveria saber.

– Você corre risco de vida?

– Não.

– Então, ótimo.

Eu solto algum som estranho de irritação e ele ouve, porque ri do outro lado.

– Prudence, não podemos impedir certas coisas, mas pode ficar tranquila porque essa é a última vez que eles vão te bater.

– Como pode ter certeza?

– Eles não têm motivo para bater em você, tem?

    Minutos depois, um homem que eu nunca vi me conduz para um lugar que eu não conheço, me pondo um saco preto na cabeça. Eu apuro meus outros sentidos e tudo o que consigo são sons de passos em estruturas diferentes, como metal, concreto e madeira. Eu sou levada para um local aberto e eu sinto a luz do sol antes mesmo de tirarem o capuz do meu rosto e quando finalmente o tiram, Daphne está lá, acompanhada de outros três homens, fazendo sinal para que eu a siga.
   Eu não estou acorrentada ou amarrada e ninguém está me segurando fortemente pelo braço, ao que eu agradeço imensamente. Olho para todos os lados e o que eu vejo não são prédios, estradas e asfalto, como eu pensei que seria e sim uma estrada de barro pelo qual nós circulamos e em todos os lados para onde olho, vegetação. São fazendas e casas repletas de vegetação e árvores em todos os lados, pessoas sorridentes colhendo frutos da terra e isso é tão estranho para mim que não consigo desviar o olhar. Plantações de trigo, soja e verduras se estendem até onde a vista alcança e mais na frente, bem longe, consigo ver alguns animais de grande porte como cavalos, bois e touros circulando livremente. Eu já tinha ouvido falar em lugares parecidos com esse, mas Calanma é tão diferente disso que eu ajo como se estivesse em outro mundo.

– Não era o que você esperava ver, né?
Daphne murmura acima do meu ombro e eu faço a pergunta que paira na minha mente.

– Todos os lugares de Illies são assim?

– A maioria.

– Isso não é desenvolvimento.
Solto e todos param de caminhar. Daphne vira para me encarar severa e fria e diz:

– E o que você acha que seja desenvolvimento?
Eu fico calada e ela prossegue:
– Um bando de humanos vivendo no meio do concreto, matando uns aos outros por causa de um pedaço de papel que eles chamam de dinheiro? Acha mesmo que isso é evolução? Porque se você acha isso, apenas olhe o mundo a sua volta e perceba o quanto a sua sociedade "evoluída" se autodestruiu.

Permaneço quieta e ela volta a caminhar, dizendo:

– Por mais que o seu país tente te convencer do contrário, aqui em Illies nada é desperdiçado ou maltratado; nem plantas, nem animais, nem humanos. Nós fazemos o que nos cabe, como seres racionais, fazer; cuidar da natureza, ou pelo menos, o pouco que restou.

– Engraçado você dizer isso quando ontem mesmo vocês jogaram um gás tóxico no meio do fórum de Anladus.
Rebato e ela sorri enviesado antes de dizer:

– Por mais que pacífica que seja, Prudence, se alguém te bater, você não vai ficar apanhando de graça, vai?


Mas eu já não estou mais interessada na resposta dela, pois algo em seu pulso me chama a atenção.
Daphne usa uma faixa preta no pulso esquerdo e eu nunca tinha reparado isso antes, até ver que enquanto ela se movimentava, sua faixa se deslocava um pouco, revelando um mínimo pedaço de pele e uma bem pequena mancha. É uma manchinha preta, quase imperceptível, mas que me deixa intrigada.
E quando me deito naquela noite, minha única sensação é de que aquela mancha pode me revelar algo importante sobre Daphne Redfort.