Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de jul de 2014

Tormenta - Capítulo 3


O núcleo da Central contém branco por todos os lados.
Branco nas paredes, nos sofás de couro, nas mesas... A luz proveniente do teto de vidro acima de mim torna o local ainda mais claro. Eu olho para cima e observo por um breve instante as pessoas caminharem na grossa camada de vidro que para mim é um teto, mas para eles, é um chão.
Então, o som dos scarpins de Evan retornam minha atenção para frente.

"Eu devo lhe pedir desculpas pela forma rude como foi abordada, interrompendo seu trabalho, enfim... Eu só queria deixar explícito que o assunto é importante."
    - Ela diz, assumindo um macio tom de voz.

"Todos os assuntos são importantes quando se trata da Central."
     - Digo, e minha voz soa mais seca do que eu gostaria que soasse, mas quanto a meu comentário, Evan prefere não falar nada.

"Então, creio que essa não é a primeira vez que tem contato com a Central, não é?"
     - Ela continua e minha expressão continua tão neutra quanto antes.
"Eu sei que já ouviu isso várias vezes, mas nós realmente precisamos de você, Daphne."

"A Central está mais do que ciente sobre minha posição em relação a isso."
    - Solto, e dessa vez, a secura da minha voz é proposital.


"Eu estive fazendo algumas pesquisas sobre a sua família."
     - Evan solta de repente, sem deixar de lado sua voz macia e formal. Eu tento permanecer neutra, mas o meu interesse no assunto fica bem claro, se você olhar bem para os meus olhos.
"Eu sei que sua mãe era de Calanma e eu sei toda a história trágica que envolve o seu nascimento, mas nós estamos realmente dispostos a não apenas descobrir o que aconteceu, mas também punir aqueles que o fizeram acontecer."

Eu continuo calada.
Então, quando a boca de Evan Black se abre novamente, fica impossível fingir indiferença com as suas seguintes palavras...

"Seu pai está vivo."
    - Ela percebe a tensão em meu corpo e senta-se ao meu lado.
"Nós sabemos onde ele está e queremos descobrir muito mais, mas você também precisa nos ajudar."

"É com isso que pretende me comprar?"
    - Solto rispidamente.

"Não quero comprá-la, Daphne" - Responde Evan. - "Pense nisso como uma troca de favores. Você serve ao seu país e nós a servimos."

"O que exatamente vocês querem de mim?"
   
"Há algumas missões secretas que necessitam, especialmente, da sua colaboração."
    - Ela diz, com a voz tão baixa que parece um sussurro.
"São planos de guerra, arquivos sigilosos que só posso revelar se tiver a absoluta certeza de que está conosco."

"E eu só preciso dizer sim para ter acesso a eles?"

"Em parte."
    - Ela responde.
"Você saberá do que se trata a missão em que estará envolvida, mas antes terá que passar por procedimentos de segurança."

"Como o que?"

"Detector de mentiras."

Eu me levanto de repente.
Os olhos de Evan me seguem, calmos e analisadores, enquanto dou passos pela sala. A minha mente se torna um turbilhão de pensamentos e suposições. Acabar com a guerra. Derrotar Calanma. Descobrir meu passado. Essas são promessas que a Central me faz, porém, todas essas palavras são carregadas de incertezas. Será que eu quero descobrir meu passado? Será que eu quero entrar nisso tudo?
A imagem do presidente de Calanma sendo morto, como um símbolo da vitória de Illies e da vingança da minha família me vem a cabeça. Eu também imagino pessoas mortas. Imagino jornadas perigosas. Imagino o aço gelado da arma em minha pele.
E o pior, é que me dou conta de que gosto disso.
Uma euforia louca e borbulhante aquece minhas entranhas quando me viro para Evan, com a voz mais firme do que antes e digo:

"Eu aceito."