Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 15

O barulho das vozes me deixa nervosa.
O carro diminui a velocidade gradativamente, ao passo em que a enorme construção se aproxima.
Essa é a terceira vez que vou a mansão presidencial em uma semana. Tudo aconteceu muito rápido desde a morte de Edmund Helvet e hoje é o dia em que Richard se torna oficialmente o novo presidente de Calanma.
Hoje tudo termina.
No final da noite eu posso estar numa nave, sã e salva, de volta ao meu país, ou posso estar morta. Ou presa. A perspectiva de uma cela abafada e suja, e a tortura, vinda de várias formas, me faz estremecer.
Repasso os comandos de Eric na minha mente, acrescentando coisas que ele não disse, e talvez nem saiba que façam parte do plano.
Tiffany Anshelf.
Ela não fazia parte do plano, até ontem. Evan mediu muito bem todos os pós e contras, os riscos de incluí-la na operação antes de aceitar minha proposta. Foi necessário um discurso bastante persuasivo da minha parte e eu tenho certeza que se não fosse pela força de seu sobrenome, Muller jamais teria concordado. Eu saio para o ar fresco da noite, caminhando com uma tranquilidade fingida até os homens que carregam sensores manuais. Pelo uniforme preto, o colete, as resistentes botas e a braçadeira da águia de Calanma, suponho que são mais do que simples policiais; são soldados.
TERRI JAWANDA. CIDADÃ DE NEW ROMAN. SIMC: 0849. ENTRADA AUTORIZADA.
As letras maíusculas aparecem na tela do sensor e eles me deixam passar pela porta.
     O salão da mansão residencial está completamente diferente da última vez, no dia do casamento de Richard. Não há conversas nem risadas altas, apenas alguns múrmurios isolados que vez ou outra percorrem o ambiente. As pessoas estão sérias, formais, aguardando pela vinda do futuro presidente e sua primeira dama. Há um clima de apreensão, como se elas pudessem pressentir o que eu estou prestes a fazer.
    A mansão está repleta de soldados, e eu não faço ideia de quem ou quantos são homens nossos e quantos são legítimos de Calanma. Melanie passeia pelo outro lado do salão, calça e blazzer preto, camisa branca com uma bem remota transparência e o distintivo policial preso a um cordão negro, formando uma espécie de colar que vai até um pouco acima da cintura. Ela, além dos guardas, é a única de nós que pode desfilar livremente com uma arma no coldre, visto que ela é uma policial. Ela parece absolutamente tranquila, como alguém fazendo um trabalho de rotina, e eu a invejo por saber fingir tão bem. Minha pistola está escondida numa placa, no banheiro dos empregados. Ela foi plantada lá dois dias atrás, para que eu escapasse da revista que fazem na entrada da mansão. Aproveito o movimento no salão e escapo, me camurflando entre as pessoas.
Os compartimentos dos empregados ficam no subsolo, assim como o banheiro, e quando desço as escadas, a cena de Helvet House volta à minha mente. Nem Eric, muito menos Evan comentou comigo sobre as imagens que filmei do subterrânio da mansão; eu ainda não faço ideia de que tipo de substância continha dentro daqueles potes metálicos e as suposições que surgem em minha mente me causam arrepios.
O subsolo está completamente vazio e a luz é fraca, como se estivessem economizando energia. Entro no banheiro rapidamente e vou direto até a placa de ferro que fica embaixo da pia. Forço duas vezes, segurando a placa com as duas mãos e ela sede com um ruído surdo, revelando o buraco escuro onde a pistola está guardada. Coloco-a dentro da bolsa, e me certifico de que tudo esteja no lugar antes de ir embora.

Richard Helvet está impecável em seu terno.
A relativa quietude do salão dá lugar às palmas que surgem assim que o casal presidencial aparece nas escadas da mansão. Tiffany tenta manter uma postura radiante, mas a tristeza é tão nítida em seus olhos que seu sorriso parece terrivelmente falso. Eu percebo o excesso de maquiagem em seu rosto e imagino Richard socando seu fino rosto como um louco, os gritos da esposa enchendo a noite. Contenho a careta de repulsa que tenta se formar em meu rosto quando ele se aproxima, roçando suas mãos em meu braço.

"Está ainda mais linda hoje, Jawanda."
    - Ele diz. Tiffany está a alguns metros dele, cercada por pessoas que não conheço. Ainda não vi Eric.
"Vai me acompanhar no discurso de posse, não é?"

"Sim, senhor." - E vou matá-lo também, penso. Richard me lança um largo sorriso antes de se afastar.



Meus olhos se fixam, ansiosos, em Tiffany, enquanto ela desfila pelo salão, cumprimentando uns e outros, aqui e ali. Ela desempenha o papel de primeira dama com pesar, e eu penso que talvez esteja fazendo uma boa ação em matar o novo presidente. Sarah Stut é a única que parece realmente radiante, sorrindo encantada quando Richard se dirige a ela.
Eric então surge no salão, tão confiante quanto Melanie, conversando com outros cônsers. A presença dele causa um pequeno reboliço nas pessoas, em especial, nas mulheres, que são excessivamente gentis e sorridentes com ele; me surpreendo ao ver importantes mulheres casadas que flertam descaradamente na frente dos próprios maridos.
Eric me olha rapidamente, de relance, e seu rosto é neutro como se não me conhecesse.
Então meus olhos voam para o lugar onde Tiffany estava e, de repente, não a vejo mais.
    Me movo entre a multidão, procurando pela sombra magra de Tiffany. Richard continua conversando animadamente, sem se dar conta do sumiço da esposa. Aliás, ninguém, nem sequer Vikram e Clarice Anshelf, os pais da moça, parecem prestar atenção nela. Eu viro uma curva que dá para um corredor vazio e a vejo, caminhando sozinha em direção ao banheiro. Espero ela entrar na cabine antes de segui-la.

"Terri?"
    - A voz de Tiffany soa assim que a porta do banheiro feminino se fecha. Ela estava inclinada para o espelho, tocando suas pálpebras inferiores com a ponta dos dedos, até eu entrar e ela fixar seus grandes olhos verde-musgo em mim.

"Tiffany, eu preciso conversar com você."
    - Solto, abandonando a formalidade. Eu sei que o que eu vou fazer é arriscado, mas tudo o que eu tenho feito nesses tempos tem sido arriscado.

Ela volta o olhar para o espelho e diz, na defensiva:

"Se é sobre o Richard, o que acontece entre mim e ele não diz respeito a..."

"Não é sobre ele."
    - Digo. Ela volta a me encarar, surpresa.
"Pelo menos, não do jeito que você imagina."

"Então, o que é?"

"Você corre risco de vida, Tiffany." - Falo, após um suspiro cansado. Observo sua pupila dilatar a tal ponto que seus olhos ficam quase negros.

"Richard não seria capaz de me matar." - Ela recomeça.

"Eu não estou falando dele, caramba!"
    - Explodo. Tiffany vai ficando cada vez mais assustada a cada palavra minha.
"Eu estou falando de mim, estou falando de um monte de gente que vai... enfim, você tem que ir embora daqui, e rápido."

"Por quê?"

"Porque vai acontecer algo terrível hoje." - Afirmo. - "Você vai saber na hora certa, mas quanto mais longe você estiver quando acontecer, melhor."

Tiffany permanece imóvel, me encarando, a boca levemente aberta pelo espanto.

"Eu preciso que você confie em mim, por favor..."
    - Digo.
"Você confia?"

Ela faz que sim com a cabeça, atordoada.

"Você vai sair daqui e ir até a cobertura da mansão, agora."
    - Começo. Minha voz é quase um susssurro.
"Lá vão explicar tudo a você. Você vai fazer o que eles mandarem, vai subir a cobertura sozinha, não vai dizer a ninguém para onde está indo e vai evitar ser vista. É para o seu próprio bem. Você vai saber por quê, prometo."

"Certo."
   - Tiffany murmura num fio de voz.
Eu concordo com a cabeça, passando o olhar mais tranquilizador que eu consigo fazer.
Então, minutos depois, eu respiro fundo e saio do banheiro, pronta para o segundo passo.