Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 16

"Onde está Tiffany?"
    - Richard pergunta num sussurro quando se senta ao meu lado, com o palco e microfone bem em frente a nossos lugares. Faltam poucos minutos para o discurso de posse. Poucos minutos para sua morte.

"A última vez que a vi estava no toalete, retocando a maquiagem."
    - Murmuro, o que não é uma mentira. Tiffany saiu do banheiro pouco tempo antes do que eu, e pelo seu sumiço, deve ter seguido minha ordem.
Richard solta uma praga, baixinho.

"Bom, não importa agora." - Ele diz, após se recompor. - "Não tenho tempo para ficar procurando-a."

O que é ótimo para mim, penso.
Fico feliz em saber que Tiffany é tão descartável que nem passa pela cabeça de Richard Helvet que ela possa estar numa nave de Illies neste exato momento.
O fato da mansão presidencial não possuir câmeras era justamente uma forma de driblar que conversas confidenciais do governo fossem captadas pelo NMC, o que, nessa situação, foi um tiro pela culatra, já que a ausência de tais aparelhos deixou o caminho livre para minha conversa com Tiffany, e sua fuga.
Pequenos descuidos, grandes estragos.
A voz do orador com todo seu tedioso falatório sobre a história de Calanma me liberta dos devaneios. Uma descarga de adrenalina percorre meu corpo e eu passo os olhos ligeiramente pelo salão, procurando rostos conhecidos. Melanie está de pé, posicionada perto do corredor à esquerda, justo na minha rota de fuga. Eric está três fileiras atrás de mim, ao lado de uma porta que também servirá como rota de fuga, porém, não minha. Minha mão desliza discretamente para dentro da bolsa assim que Richard caminha até o palco.
Aguarde pelo sinal de Melanie.
O salão mais uma vez ganha vida com os aplausos.
Observo o largo sorriso de Richard, uma última lembrança do presidente de Calanma.
Penso em Tiffany e sua reação quando souber de tudo.
Terri Jawanda é uma farsa.
Você esteve ao lado de uma inimiga o tempo todo. 
O sinal de Melanie Jaswant é sútil, quase imperceptível.



      O som do meu tiro interrompe o discurso de Richard. A bala atingiu o meio da sua testa em cheio e ele cai como um peso morto no chão. A visão do presidente assassinado mergulha o salão no caos. As coisas acontecem simultaneamente numa velocidade praticamente impossível de se acompanhar; Melanie saca a pistola e mata o soldado que vêm na minha direção; outros soldados atiram, uns nos outros, enquanto eu corro em direção ao corredor; Melanie me dá cobertura; o som das balas se mistura aos gritos, sejam eles de pavor ou raiva, e o barulho de vidro estraçalhando. Um cônser tenta correr atrás de mim, mas antes que me alcance, Eric o apunhala sutilmente com algum tipo de arma branca. Corpos ensanguentados se espalham pelo salão e eu fujo para longe dos gritos, subindo as escadas com rapidez.
   Ouço o som de botas pesadas batendo contra o chão. Me viro e atiro no primeiro soldado que me aparece. Ele põe a mão na altura do estomago, perdendo o equilíbrio e eu volto a correr, ouvindo o barulho do seu corpo rolando pelas escadas e as exclamações enfurecidas de outros soldados. Vou contando os blocos de escadas que subo, ofegante; 2, 3, 4... Disparo outras três vezes antes de sentir a rajada de ar proveniente da cobertura.
   Corro em direção a nave pousada em minha frente. Rostos conhecidos de colegas de Benedict carregam armas de grande porte e atiram nos soldados que tentam subir. O braço de Ben se estende para mim e eu agarro, deslizando para dentro da aeronave.
Eu respiro fundo várias vezes e pouso a pistola na primeira poltrona que encontro. Meu vestido se cola ao corpo pelo suor e eu vejo Tiffany de relance, sentada, me observando.
Então ela realmente seguiu minha ordem à risca, penso.
Eu sou tomada por uma sensação de alívio tão grande que eu desabo numa poltrona, fechando os olhos. O som dos tiros parece tão remoto, mas meus ouvidos ainda zunem com o som dos gritos no salão, como se estivessem reproduzindo algo antigo.
Somente quando a porta da nave se fecha, que o silêncio se instala.
O único barulho nítido são os passos do meu irmão Benedict. Quando abro os olhos novamente, descubro que há só eu, ele e Tiffany aqui dentro.

"Você o matou, não foi?"
    - Tiffany solta assim que me aproximo. Sua voz sai mecânica, assim como seu rosto sem expressão, mas quando ela me encara, vejo uma confusão de sentimentos ruins em seus olhos; mágoa, dúvida, medo.
"Meu marido."

"Bom, não é como se ele tivesse sido um bom marido para você."

"Mas era meu marido."
   - Ela rebate; há algo de humano em sua voz agora, algo como uma raiva mal-contida.

"Tiffany, mais que seu marido, ele também era o presidente de Calanma."
     - Digo.
"Se ele te tratava tão mal, a você que era esposa, companheira, íntima... imagina como não trataria os outros?"

Ela se cala.
Seus olhos brilham com as lágrimas que por um fio não escorreram e eu continuo, mesmo sabendo que vai ser doloroso, mesmo sabendo que ela não está pronta para tudo isso.

"Você agora é considerada traidora pelo governo de Calanma, sabe disso, não sabe?"
     - Vejo a confusão em seus olhos e percebo que tenho que explicar...
"Eles precisam de um bode expiatório, Tiffany, e sabem que não vão conseguir me pegar. Então você está sendo procurada em todo o país, neste exato momento, porque eles precisam dar uma satisfação, eles precisam mostrar as pessoas que estão fazendo alguma coisa."

"Para onde estamos indo?"
   - Ela pergunta.

"Illies. No momento, é o único local seguro para você. O governo de Illies promete segurança nacional a você."

"E aqui eles não podem... seguir a nave?"
   
"Quando arranjarem uma nave boa, rápida e pronta para decolagem, já estaremos em Illies."
     - Benedict, que até então se mantinha calado, solta, meio que cuspindo as palavras, numa demonstração do intenso desprezo que ele nutre por Calanma e qualquer coisa ligada a esse nome.

"Então eles não sabem que eu estou aqui..."
    - Tiffany murmura depois de um tempo em silêncio.
"Talvez eles possam me aceitar, talvez eles não me considerem traidora, talvez eu..."

"Tiffany."
   - Digo, levantando a voz e interrompendo os devaneios dela.
"Calanma não é aquilo que te disseram que era."