Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 19

"Me faça um relatório."
     - Observo, na sala de controle III, o belo rosto de Eric Ross tomar uma das telas tão finas e largas que parecem fazer parte das paredes. A voz de Evan Muller soa impassível, num comando, mas quando olho para seu rosto assimétrico, seus olhos sorriem. De certa forma, ela gosta de Eric. Parece que todos aqui gostam de Eric.

"A capital esteve agitada nos últimos dias."
    - Ele diz, e eu não demoro a perceber que ele não pode nos ver, apenas nos ouvir. Desde que voltei a Illies, praticamente me tornei um membro da Central, portanto eu normalmente estou aqui, andando em salas de controle.
    A Central possui inúmeras salas de controle; são cinco em cada andar e quatorze andares. Cada uma delas assumem funções diferentes e eu estou na sala de controle III, do décimo primeiro andar, responsável pelo monitoramento e comunicação das bases em território inimigo.
"Jaime Helvet fez uma viagem particular à Andalus ontem pela manhã numa das melhores e mais rápidas naves de Calanma. Não quis ninguém com ele, nem o primeiro cônser. A prodigiosa Prudence Helvet finalmente colocou os pés na DGJURC e fez uma reunião de emergência com parte do conselho. Disse que a maior prioridade no momento era providenciar que Jaime fosse feito presidente o mais rápido possível. É claro que não vão esperar que encontre uma esposa, muito menos com a suposta divisão entre os cônsers. A velha aliança entre Anshelf e Helvet parece estar ruindo, afinal. Seus agentes em Ohtagua fizeram o belo trabalho de espalhar a notícia de que Tiffany Anshelf está sob proteção do governo illiense."

"Então a pequena bomba já está fazendo efeito?"

"Sim." - Ele afirma. - "Prudence invadiu Anshelf House com cerca de vinte soldados; Clarice Anshelf foi levada ao DEPOL¹, ficou em custódia e foi interrogada a portas fechadas. Vikram não gostou nada, foi ao departamento e exigiu que soltassem a esposa. Depois de algumas horas, Clarice foi vista saindo do prédio aos prantos junto com o marido."

Evan se cala por uns segundos, fixa seus olhos em mim e pergunta:

"E você, Daphne, o que acha de tudo isso?"

Sinto os olhos de toda a sala em cima de mim. Normalmente têm sido assim toda vez que meu nome é citado.

"Eu acho que não passa de uma estratégia."
    - Digo.
"Prudence não seria estúpida de deixar ruir uma aliança tão importante como essa. O problema é que a estabilidade emocional dos cidadãos de Calanma foi rompida desde o ataque ao NMC, e mais ainda com a morte de Richard. As pessoas estão começando a perceber que Calanma não é tão invencível quanto achavam e o governo está intimidando todo mundo, alertando-os de que não vão tolerar rebeliões."

"Não acho que vá haver rebeliões." - Melanie solta, encostada numa das mesas da sala.

"Já está havendo, porém não do povo."
    - Eric diz.
"O conselho se dividiu desde a morte de Richard. Metade dos cônsers se mantiveram fiéis aos Helvet, porém a outra metade acredita que o primeiro cônser deve ser nomeado presidente, por ser mais experiente e dedicado. Isso é extremamente perigoso para eles; se deixarem espalhar, até o próprio exército pode se voltar contra Jaime. Eu concordo com Daphne. Não me surpreenderia nem um pouco se Anthony Saint de repente aparecesse morto."

Um barulho fraco de trinco na porta interrompe a conversa.

"Muller."
   - Um homem de estatura média-alta surge na porta da sala. Ele parece meio hesitante, e eu troco um olhar com Melanie quando ele fala:
"Aqueles papéis, já estão em sua mesa."

*

Evan está verificando uma pilha de papéis velhos quando eu entro.
Ela está concentrada, lendo os dizeres escritos com tinta preta, franzindo o cenho uma vez ou outra em determinados trechos.

"Olá, Daphne." - Ela diz, sem levantar os olhos para mim.

"Tenho que falar com você."
    - Solto. Evan pousa a pilha na mesa e me encara, estranhando meu tom de voz. Mesmo assim, ela fala com a mesma voz formal e tranquila, como se nada estivesse acontecendo...

"Pois então, fale."

"Eu quero que você traga Eric de volta a Illies o mais rápido possível."
     - Digo, esperando uma reação de Evan. Porém, ela apenas cruza as mãos sobre a mesa e pisca tranquilamente, os longos cílios cuidadosamente arrumados com rímel incolor.

"Será que posso saber por que está me pedindo isso?"
    - Ela pergunta finalmente.

"Porque ele corre perigo." - Respondo. - "Já estão desconfiando dele."

"Como sabe disso?"
    - Evan exige, e de repente sua voz soa rígida.

"Melanie."
    - Então dou um passo para frente e acuso:
"E pelo seu tom de voz, Evan, parece que você sabia disso muito antes do que eu."

"Não compete a você decidir o que fazer com os meus agentes."

"Você prometeu protegê-los."
    - Solto.
"E não seria bom para ninguém aqui se você decidisse voltar atrás com o acordo."

"Eric é a nossa única base em Calanma." - Evan afirma. - "Foi muito difícil colocá-lo onde está, um investimento que levou anos, e agora você me diz que eu tenho que tirá-lo de lá?! Justo agora?! Tirei você, tive que transferir uma das bases de Ohtagua para West Blues porque Melanie não podia mais permanecer lá, perdi a minha base em Painton com a morte do George, não acha que já perdemos bases demais?!"

"O prejuízo vai ser muito maior se ele falar tudo o que sabe sobre a Central."
    - Digo.

"Ele não faria isso."

"Ah, não?!" - Explodo. - "Acha mesmo que Eric suportaria ser torturado, porque vai ser isso que Calanma vai fazer quando descobrirem sobre ele, sem soltar uma palavra?! Por favor Evan, nem você aguentaria! Se não tirar Eric de lá, e rápido, você vai correr o risco de perder todas as suas bases, isso sem contar no vazamento de informações confidenciais sobre cidades nossas e estratégias de guerra. Tem certeza de que é isso que você quer?"

Ela se cala, me olhando fixamente.
Evan está me medindo, processando o que eu acabei de falar, colocando tudo numa balança.

"Certo." - Ela diz com uma expiração. - "Eu vou pensar no seu caso. Se eu achar que for realmente necessário, enviarei uma equipe de resgate. Satisfeita?"

"Muito."
   - Murmuro.

Não espero que ela diga algo para me virar e sair de sua sala.
Me deixo pelo menos abrir um sorriso.
Pelo que sei sobre Evan, não vai demorar mais que uma semana para que Eric esteja de volta.

DEPOL: Departamento de Polícia de Calanma. Responsável pela segurança; sua sede é um prédio de quinze andares no setor 1 de New Roman.