Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 7

E novamente, eu aceito mais uma missão.
Eu praticamente me sinto presa a isso, presa a esse compromisso que fiz com Evan e a Central desde a primeira vez. E também, eu confesso, a ideia de matar o futuro presidente não soa tão ruim assim. Ele é o opressor. Ele faz parte da corja que eu desejava ter o prazer de matar todos os dias. Apago qualquer vestígio de dúvida que atravessa minha mente enquanto observo o setor 1 de New Roman passar pelos meus olhos na janela do carro. A morte de Richard Helvet seria mais uma descarga de caos no meio da população de Calanma, mas a guerra viria a tona sobre eles de qualquer jeito. E já que comecei tudo isso, tenho que terminar.
   Eu tenho um SIMC falso tatuado no pulso.
   Um nome novo, um passado novo, um histórico novo. Aqui não sou Daphne Redfort, a jornalista de Illies pronta para cometer um atentado contra o novo presidente, e sim, Terri Jawanda, a futura secretária particular de Richard Helvet. Essa é a última vez que vou me infiltrar aqui como uma cidadã comum, até porque, depois do atentado, vou estar na lista de mais procurados pelo governo de Calanma.
Eu quase não percebo quando o carro para. O motorista está me lançando um olhar de curiosidade e eu murmuro algo como "obrigada", antes de sair. A torre a minha frente é tão imensamente fina que a impressão que eu tenho é de que ela vai cair. O visual do prédio é achatado, largo, como uma planária sem cabeça e ao avesso. O sol brilha forte, iluminando a rua muito parecida com a rua do NMC e a bandeira de Calanma ergue-se ao lado do prédio, a águia de olhos astutos nos observando, tentando encontrar algum traidor. Todos estão impecáveis com suas roupas assimétricas, assim como eu, caminhando tranquilamente em direção a torre; sapatos masculinos lustros e saltos finos fazendo um leve som, o único som da manhã.
   De dia, o local está repleto de soldados. As pessoas não se assustam com as armas, esquecendo-se do poder destrutivo que elas possuem já que nunca as viram disparar. Eu passo por scanners, leitores de SIMC e outros aparelhos mais modernos de identificação antes de entrar na DGJURC¹. O interior do prédio é tão movimentado e ao mesmo tempo tão silencioso como lá fora. Aqui as pessoas são robóticas, cada uma com seus rostos sem expressão, caminhando obedientemente em direção a suas tarefas, recebendo ordens e as executando instantaneamente sem que se ouça sequer sua voz. Eu não faço ideia de qual das portas ou corredores devo seguir, então me dirijo até o centro do saguão, tentando parecer a mais normal possível.
Em Calanma, tudo funciona, tudo está no lugar e o país trabalha como uma máquina.
Realmente, vocês são tão mecânicos quanto uma máquina.



"Srta. Jawanda?"
    - Uma voz rouca e terrivelmente conhecida soa atrás de mim. Viro-me para a direção do som, sentindo o sangue das minhas pernas virar água, para ver o que eu não queria e queria, ao mesmo tempo.
Aquele cara.

Ele está completamente diferente da última vez que o vi.
A severidade e frieza de seu olhar deu lugar a um olhar atento, porém brando, e uma expressão de diversão presumida em seu rosto. É como se ele soubesse que eu estaria aqui, que era eu quem deveria vir, o tempo inteiro. Ele também parece se divertir bastante com a minha clara expressão de surpresa.

"Oh, desculpe pelo atraso, eu deveria estar esperando-a na entrada do prédio."
    - Ele diz. Eu continuo muda. Então ele estende sua mão para mim e diz, com um largo sorriso:
"Eu me chamo Andrew Bordoni."

"Terri Jawanda."
   - Murmuro, retribuindo o sorriso gentilmente e cumprimentando-o, uma vez passado o choque. Então, Andrew abre o terno sutilmente, mostrando uma minúscula estrela vermelha gravada em seu interior.
As instruções de Evan surgem na minha mente.
Esse é o sinal.
Andrew é o meu mentor nessa missão.

"Então, o Sr. Helvet está esperando-a lá em cima, vamos?"

   Quatro torres se elevam até onde a vista alcança, nos quatro cantos do saguão, com suas cabines transparentes subindo e descendo, transportando, de cada vez, 1, 2 ou até 3 pessoas. Andrew me leva para um desses elevadores e eu fico ansiosa por alguma instrução, algo que um mentor diria, mas como ele não diz nada, eu também fico calada, por pura precaução.

"Você parece nervosa." - Ele comenta. Só então percebo que estive batendo os pés no chão compulsivamente, desde que entrei no elevador. Pressiono meus pés com força no chão, numa tentativa de mantê-los quietos.
É claro que eu estou nervosa.
Ser enviada para matar o presidente não é algo muito relaxante.

"Não se sinta tão perdida." - Andrew continua. - "Sempre vai haver alguém te dizendo o que fazer e onde ir aqui dentro."

As portas do elevador se abrem.
Eu caminho para fora, mas Andrew não move um músculo. Ele continua lá, tranquilamente encostado na cabine, como se sempre soubesse o que fazer.

"Você não vem?"
    - Pergunto. Ele abre um sorriso enviesado e solta:

"O chefe chamou você, não eu."

Então as portas se fecham.
Enquanto caminho para frente, completamente desnorteada, meus pensamentos se resumem a um único resmungo:
Que ótimo mentor eu tenho!

¹DGJURC: Sigla para "Departamento Geral de Jurisdição de Calanma".