Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

2 de nov de 2014

Tormenta - Capítulo 20

Eu mergulho, me afundando cada vez mais nas águas escuras como breu.
Tenho que salvar minha mãe.
Me agarro ao pensamento como se minha vida dependesse disso.
O mar agora é um coro de vozes, todas elas confundindo a minha mente.
Quem é, de fato, sua mãe? Ela ou Joanna? 
Joanna é mãe de Benedict....
Você costumava chamá-la de mãe...
Eu sei que a vida dela vai depender do que eu vou fazer. Ela pode estar no fim do mundo, no fim desse imenso mar, morta. Ou quase morrendo.
Eu abro a boca, mas o meu grito é abafado pelas águas que nela entram.
Eu sei que não posso parar.
Desistência significa morte.
Talvez por ter desistido que ela veio parar aqui...
Não há o que fazer... as vozes sussurram para mim. Ela já está morta...
Eu começo a me debater, no fundo do mar, às cegas.
A correnteza se torna mais forte e me puxa para o fundo.
É a primeira vez que eu luto contra a água e eu sinto a morte se aproximando de mim.
Não lute, será ainda pior.
A sua mãe está morta.
Você jamais deveria ter vindo aqui...



Eu acordo ofegante, encarando o teto do meu quarto.
Demoro a sentir o meu corpo, como se ele ainda estivesse preso ao sonho. Eu me mexo devagar, primeiro os dedos do pé, as pernas, os braços...
Suspiro aliviada ao finalmente me dar conta de que foi só mais um dos sonhos estranhos que tenho eventualmente. Está tudo bem. Eu estou em casa.
Eu me viro para o lado, afundando minha cabeça no travesseiro e acompanhando as batidas do meu coração se regularizando, pouco a pouco.
Eu relaxo e fecho os olhos, ignorando as imagens do pesadelo, deixando que o sono me vença.
Então um barulho, muito alto para ser imaginário, me desperta.
    Ligo a luz e me sento na cama, esperando outro som. É uma batida na porta. Olho para o relógio que mostra que são duas e cinco da manhã. Pego a pistola num movimento automático e desço as escadas em direção a sala.
Penso que talvez possa ser apenas o Benedict chegando ou a minha mãe. Faço uma careta ao lembrar do sonho. Talvez eu não precise de uma pistola.

"Eric?"
   - Solto assim que abro a porta. Eu esperei que o veria quando acordasse, mas não desse jeito, a essa hora. Ele me encara sério, e diz, sem rodeios:

"O seu irmão está aí?"

"Não." - Respondo, desconfiada.

"E a sua mãe?"

"Também não."

"Ótimo." - Ele diz, entrando na sala. Eu fecho a porta, e apesar da invasão, eu não reclamo.

"Será que eu posso saber o que faz aqui a essa hora?"
    - Pergunto. Então eu tenho o primeiro vislumbre do Eric que estou acostumada a ver; um brilho de chacota passa por seus olhos e sua expressão se suaviza.

"Acabei de voltar e é assim que sou recebido?"
      - Eric murmura com falsa mágoa. Então ele faz uma cara dramática ridícula e completa:
"Eu esperava abraços e beijos, e algumas lágrimas de alegria e..."

"Eric."
    - Digo. Minha voz é séria, mas eu estou sorrindo.
"Já experimentou ir direto ao ponto?"

"Ok, ok."
   - Ele diz. Então ele reassume a postura séria, e eu vejo legítima preocupação em seus olhos.
"Eu quero saber o que aconteceu com Tiffany Anshelf desde que ela chegou aqui."

"Pensei que a missão já estivesse encerrada."
    - Digo com dureza.

"A sua talvez sim, mas a minha não."
     - Ele afirma.
"Agora responda minha pergunta."

Suspiro, cansada.

"Tiffany ficou sob proteção do governo. Só isso. Não há muito o que falar."

"Quando foi a última vez que a viu?"

"No dia em que voltei pra cá." - Respondo. - "Onde quer chegar com isso, Eric?"

"Você sabe onde encontrá-la?"
    - Ele diz, ignorando minha pergunta. Eu paro por um instante, calada. É a primeira vez que me dou conta disso; eu não faço a mínima ideia de onde Tiffany está.
Eric dá um sorriso depreciativo ao meu silêncio e diz:

"Será que pode entender agora onde eu quero chegar?"

"Ninguém sabe onde Tiffany Anshelf está."
   - Sussurro, espantada com o significado disso.
"Só membros importantes da Central."

"Exatamente." - Ele confirma. - "E a Central não esconderia isso, a menos que..."

"A menos que a Central esteja fazendo algo que não devia."
     - Digo.
"Uma quebra no acordo de proteção."

Eric concorda com a cabeça.
A simples dedução do que a Central possa estar fazendo com Tiffany Anshelf nesse momento me faz prender a respiração. Questionar a Central seria traição. Seria se voltar contra seu próprio país.
Ele me encara, imaginando o que eu estou pensando agora, lembrando o quanto pensou nisso antes de vir aqui...

"Entende porque a missão não acabou, Daphne?"