Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

7 de dez de 2014

Tormenta - Capítulo 27

Eu sussurro as instruções de Eric dentro do carro, perdendo a conta de quantas vezes repeti suas palavras.
Tori cumpriu muito bem a parte dela, atraindo Vikram Anshelf para Ohtagua, deixando-o mais vulnerável ao nosso ataque. Eric, por sua vez, providenciou os equipamentos, as armas, o cativeiro, o carro em que nós estamos e a moto que vai ser pilotada por Melanie.
Agora nós só precisamos executar o plano.

   Todos nós três usamos roupas escuras e confortáveis, botas de couro mole e aderentes, tudo para facilitar corrida e uma possível fuga. Eric nos obrigou a usar luvas pretas, de um tecido grosso, com um comunicador acoplado na lateral. Ele fala com Melanie através disso, ouvindo atentamente as informações que ela lhe passa.
   Melanie está agindo relativamente sozinha, indo primeiro até Ohtagua e não atacando diretamente como nós vamos. Isso porque ela é a melhor quando se fala de armas de grande porte e há um fuzil esperando por ela, escondido em algum lugar na fronteira. O fato é que Melanie vai nos dar cobertura no momento do ataque. Ela vai estar escondida em algum lugar da rua, irá atirar nas câmeras de segurança e em qualquer coisa ou pessoa que nos ofereça algum perigo.
Eric nos diz que Vikram estará com poucos seguranças, como uma estratégia para não chamar a atenção. É claro que ele acredita que esse é um encontro confidencial, então despertaria suspeitas se ele de repente aparecesse cercado de soldados.
Vikram é, de fato, um homem corajoso.
E é justamente essa coragem que será sua ruína.

"Tô quase lá." - Melanie murmura no comunicador. Sua respiração é irregular, como se ela estivesse correndo.

"Está seguindo na direção leste?"

"É claro, Eric." - Melanie responde com irritação. Se passa alguns segundos em que o único barulho é o de passos apressados no chão, coisas sendo deslocadas, até que ela volta a falar: - "Achei, achei!"

"Ótimo, vá para Ohtagua, agora."
    - Ele ordena e o comunicador desliga com um clique.

Eric me passa um olhar cúmplice, cheio de expectativa e preocupação.
Capturar Vikram Anshelf não será nada fácil. Ele está na mira de Illies e Calanma por ser muito importante para ambos. A notícia do seu sumiço e do ataque às câmeras de segurança da Oz Street vai chegar rapidamente nos dois países.
   
   Eric guia o carro com cautela pela mata fechada; nós estamos seguindo ao norte, sentido Coneyland. O lado sul vai para Askinfor e para o cativeiro de Tiffany, lugar esse que me sinto mais a vontade se estiver longe. As estradas que levam a Dustfire estão interditadas por conta da guerra, com homens armados, carros forte e placas imensas com os dizeres "proibido seguir" e "não ultrapasse" fechando a pista. Se algum soldado nos pegasse, seríamos presos automaticamente e logo depois, enviados até a Central para interrogatório. Então, o único jeito é passar pela floresta.
Nós chegamos em Clain com uma rapidez surpreendente e o cuidado se torna ainda maior em não ser captado pelas torres de vigia que estão funcionando. O terreno árido de Brevor, um dos subdistritos de Dustfire, forma uma nuvem de poeira por toda a trilha do nosso carro. Não há soldados, bombas ou metralhadoras aqui, não há absolutamente nada e Dustfire é na verdade um imenso amontoado de poeira e construções demolidas. A verdade é que os soldados e a guerra estão na fronteira, mais perto de Calanma do que de nós.

"É um risco imenso para Melanie." - Eric disse outro dia, assim que o plano estava completamente formado. - "Escondemos o fuzil na fronteira, no meio de todo aquele fogo cruzado."


Confiro nossas armas.
O cabo da pistola preta de Eric brilha, limpa e polida, pousada ao seu lado. Ele mantém a mão esquerda sobre ela, como se estivesse pronto para atacar a qualquer instante. Além de nossas armas, nós temos duas facas guardadas na cintura, no caso de uma emergência. A lâmina fria se pressiona contra minha pele toda vez que respiro fundo. Tento me focar no plano, não no que pode dar errado.
Nós dois também mantemos máscaras que só deixam nossos olhos à mostra, tudo para que nossos rostos não sejam reconhecidos pelas câmeras ou por algum soldado ou agente. Olho para o relógio. É uma tarde quente, e mesmo com o ar condicionado ligado, o carro está um forno. Faltam cerca de trinta minutos para que Vikram Anshelf esteja lá.
Ohtagua é uma cidade que vive emitindo alarmes o tempo inteiro, isso porque ela está tão perto da fronteira que está a um passo de ser tomada. Na geração passada, Illies e Calanma tinham um território maior, que foi sendo invadido ou completamente abandonado por conta da guerra. Hoje somos países pequenos, correndo risco de sofrer um ataque forte e definitivo a qualquer momento.

"Eric."
   - A voz de Melanie soa no comunicador. Meu coração perde um batimento quando ela afirma:
"Estou na posição."

Eric suspira e pisa no acelerador no instante seguinte.
O carro dá um longo ronco e avança com rapidez enquanto Eric ordena...

"Avise quando Vikram chegar."

O carro faz curvas, entra em ruas pequenas e desertas, passa por cruzamentos até chegar numa rua específica que já vi, mas não lembro o nome. Eric diminui a velocidade e transita pela avenida plana e comprida como se estivessemos apenas passeando. A aréa é residencial e as casas estão todas fechadas, com as janelas trancadas, como se não houvesse ninguém ali. Enxergo outro cruzamento alguns metros a minha frente e ouço o clique do comunicador, seguido pelo som da respiração de Melanie...

"Ele está aqui."

Prendo a respiração.
Eric me fita, e seu olhar me passa confiança e ao mesmo tempo, um aviso.
Esse é o momento.
Minhas atitudes nos próximos minutos vão ser decisivas.

     Eric pisa no acelerador novamente, vira à esquerda, vira para a esquerda novamente e gira o carro. Eu vejo de relance um outro carro estacionado, de onde sai um homem grisalho de expressão confiante, terno e gravata; os pneus cantam no asfalto e quando Eric freia, eu pego a pistola, impulsionada a agir. Nós dois saímos do carro ao mesmo tempo que duas balas provenientes do fuzil de Melanie estraçalham as duas principais câmeras da rua.
Os olhos azuis de Vikram se abrem com a surpresa enquanto seus dois seguranças sacam suas armas, ou pelo menos, tentam fazer isso; Eric atinge um deles com três disparos no peito e eu atiro no segundo com um tiro na coxa e outro na garganta.
Eric guarda a pistola no coldre e pega o capuz, enquanto eu mantenho minha arma apontada para Vikram. Ele olha diretamente para os meus olhos e uma onda de reconhecimento e confusão passa por seu rosto. Então, Eric coloca o capuz na cabeça de Vikram e o empurra para o nosso carro. Vikram cambaleia e tropeça, e logo em seguida, é jogado para o banco do passageiro.

"Você." - Eric diz para mim, abrindo a porta do banco do motorista. - "Vai no passageiro e fica de olho nele."

Eu concordo com a cabeça.
Ele arranca com o carro e eu me pergunto o que passou pela cabeça de Vikram Anshelf quando ele me viu, enquanto o cano da minha arma se mantém encostado em sua têmpora.