Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de dez de 2014

Tormenta - Capítulo 34

"Lamento pelo adiamento desta conversa, mas acredito que todos estavam muito cansados ontem, então o mais prudente foi tranferi-la para hoje."
   - Uma mulher magra, com postura elegante e uniforme impecável caminha no centro do pátio, com a cabeça erguida. Sua farda é bem parecida com a do comandante, mas eu consigo notar que há uma estrela a menos no seu paletó. Seu cabelo escuro foi escovado para trás e preso num coque baixo, e ela usa a boina com o emblema de Illies estampado.
"Eu sou a Major Alexander e junto com o Comandante Bresler e o Tenente Silva, irei avaliar o desempenho dos senhores durante os quatro dias de confinamento em nossa base. Gostaria de parabenizá-los pela bela iniciativa em se alistar para nosso exército. Servir ao nosso país é sempre uma honra."

Sufoco um som exasperado que surge em minha garganta com essa última frase.
Olho para Adeline e ela está agindo como se simplesmente concordasse com tudo o que a major diz.

"É do conhecimento geral de que existem regras e normas de conduta na base, algumas delas já familiares aos senhores."
    - Ela continua. Uma cartilha com todas as regras do lugar foi entregue a todos nós assim que chegamos, então como eu estava cansada, eu não li nada.
"Para qualquer militar, independente de sua patente, a disciplina é fundamental. Portanto, violações às nossas regras não serão, em hipotése alguma, toleradas aqui dentro, e os trausentes serão punidos de forma severa. Quanto ao treinamento, todos aqui já possuem certo conhecimento no combate corpo-a-corpo, com arma branca e arma de fogo, porém, aqui dentro, os senhores terão um contato maior com o que acontece nas linhas de confronto. Desejo um bom aprendizado a todos."

Nossas posturas vão se suavizando e as conversas surgem assim que a major vai embora. Começo a observar os membros da minha equipe, um por um, me perguntando se formamos uma boa equipe; Furnan conversa algumas vezes com Conner e eu e Eric trocamos olhares de vez em quando.
    Nós nos organizamos em fila e começamos a correr no campo em volta da base, segundo as ordens do tenente. O dia está nublado, venta muito, mas, felizmente, não chove. Enquanto corremos, ele explica que esse exercício será obrigatório, algo que nós faremos todas as manhãs logo após o desjejum. Há algumas sirenes que indicam o início e fim de determinada atividade, como as refeições.
Quase não ouço nada do que o instrutor nos diz porque minha mente está ocupada demais com Vikram e sua bactéria letal.
Em duas semanas iríamos criar algum plano para descobrir quem está com o antídoto da praga e roubá-lo de Calanma. Então, Evan nos trancafiou aqui dentro. Fico pensando como ela está lidando com esse problema agora.

"Não fique tão desligada."
   - Adeline sussurra para mim, sentando-se ao meu lado. Fomos todos encaminhados para o centro de treinamento depois da corrida e alguns soldados lutam no ringue; uma plataforma suspensa por outras duas camadas de concreto que servem como degraus. As paredes da sala são de um cinza claro e há bancos espalhados por todos os lugares ao redor do ringue. Eric está do outro lado, com o maxilar travado e os olhos fixos em algum lugar. Encaro Furnan com uma interrogação no rosto. Ela aperta os lábios em desaprovação e murmura:
"Olhe para trás, no canto, à direita."

Contenho o impulso de virar a cabeça automaticamente.
Ao invés disso, eu me endireito no banco, finjo que estou observando a luta e desloco os olhos na direção indicada por Furnan. O que eu vejo é um homem fardado, de pé, de pele escura e uma barba rala, me olhando fixamente. Ele é bonito e eu estava quase entendendo isso como um flerte, quando minha mente despeja lembranças dos dias anteriores...
Ele estava nos portões da base quando eu cheguei, me observando.
Estava no momento da corrida e no discurso da Major Alexander.
Estava no PAV4.

"Parece que seu amigo ali não gostou muito das atenções direcionadas a você..."
    - Adeline comenta, olhando para Eric com um sorriso enviesado. Vejo a preocupação nos olhos de Eric e percebo que ele não está incomodado com aquele homem pelos mesmos motivos que ela deduz. Eric o reconheceu da mesma forma que eu reconheci aquele rosto misterioso.

"Quem é ele?" - Pergunto efusivamente, voltando meu olhar para Furnan.

"Algum tipo de supervisor, eu acho."

"Só isso?"

"Não estive aqui por muito tempo, sabe." - Ela rebate. Suspiro.

"Descubra quem ele é." - Digo. Ela estranha a urgência na minha voz. - "Por favor, é importante."

*

"Soldado Wright, soldado Ross."
   - A voz do tenente ecoa em todo o centro de treinamento. Ele está sorteando nomes que irão para o ringue numa luta corpo a corpo; franzo o cenho logo quando descubro que o oponente de Eric é um homem assustadoramente forte.

As lutas até agora tem sido violentas e apesar de ninguém ter ficado desacordado ou ter se ferido gravemente, não vai ser muito legal ver Eric sangrando, com inchaços ou cortes no rosto.
Ele parece mais tranquilo do que eu, entretanto, como se seu oponente fosse tão fraco e pequeno como uma formiga.
Essa é a primeira luta em que eu realmente presto atenção.
    O tenente apita e a luta começa; as pessoas se aproximam do ringue numa tentativa de enxergar melhor a luta, mas eu continuo no mesmo lugar. Os dois passeam pelo ringue e os olhos de Eric se movem com intensidade, ágeis, aguardando pelo ataque. Os olhos do tenente se fixam nos dois, avaliativos, e a presença do supervisor misterioso ainda me causa desconforto. Seu oponente se mantém na defensiva por algum tempo, perde a paciência e se lança contra Eric, que se esquiva para o lado, acertando um golpe forte em seu ouvido direito. O homem cambaleia, desorientado, com os olhos arregalados pelo ataque inesperado.
Eric se aproveita do momento para desferir uma série de socos no seu oponente, que cai, completamente vencido. Observo como os olhos das pessoas se abrem como pratos, tão surpresas como eu pela forma como Eric reage; o tenente pula para o centro, se aproxima dos dois e apita, colocando fim à luta. O rosto de Wright está vermelho com os golpes e Eric o ajuda a se levantar; um filete de sangue escorre de seu lábio inferior, ao que ele limpa com a mão, e as pessoas parabenizam Eric com tapinhas no ombro.

"Eu sabia que ele ia ganhar."
   - Furnan murmura, olhando para frente. Eu a encaro, surpresa, e ela me encara de volta, com a voz claramente espantada quando diz:
"Você não?"

"O homem era o dobro do tamanho dele." - Solto. Ela estala a língua em desgosto.

"Definitivamente," - Ela murmura, decepcionada. - "Você não sabe nada sobre ele."