Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

9 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 37

"Não fique tão surpresa."
   - Ele diz, observando com diversão minha cara de espanto.
"Fui enviado pela base para comandá-los aqui, já que é sua primeira experiência num lugar como esse. Ah, eu esqueci de me apresentar... Me chamo Stuart."

Eu não estendo a mão para ele e nem ele para mim.
Um silêncio incômodo se instala e eu não tenho o mínimo interesse em puxar conversa, portanto, a única coisa que acontece em seguida é o barulho insurdecedor de uma sirene que mergulha o acampamento no caos. Stuart olha para mim, alerta, e grita:

"Ataques inimigos!"



Não é necessário nenhum outro aviso para que eu me mova.
De repente estou correndo ao lado de Stuart em direção ao arsenal. Ele pega duas submetralhadoras e me entrega uma, correndo para o lado norte da cidade no instante seguinte. Eu corro atrás dele, posicionando a arma, olhando para os lados em busca de algum soldado de Calanma. Outros soldados também correm na mesma direção, se embrenhando pelo centro de Ohtagua, gritando comandos.        
       Soldados com braçadeiras vermelhas surgem e os disparos começam. Me protejo atrás de muros e ruínas das construções, atirando em homens que se aproximam. Stuart me dá pressa e eu salto sobre pedras, correndo em direção a ele. O som dos gritos se mistura ao das sirenes que soam a alguns metros de nós. Entramos em um beco e balas zunem em nossa direção.
Os disparos atravessam latas enferrujadas de lixo e chicoteiam nas paredes, espalhando poeira e pedaços de concreto pelo chão. Nós nos escondemos no lado direito e esquerdo do beco e eu estou olhando fixamente para Stuart, que ofega, com a arma em punho.

"Quantos são?"
    - Sussurro, assim que ele me encara.
Ele espera, e coloca a cabeça para fora do beco, sutilmente. Stuart olha para mim novamente e mostra dois dedos. Aceno com a cabeça e sussurro de volta:

"Pega a esquerda e eu pego a direita."

Ele acena novamente e nós aguardamos.
Som de passos se arrastam em nossa direção, e eu aguardo até que estejam perto o suficiente.
Aceno para ele com a cabeça e nós saímos ao mesmo tempo, atirando nos soldados a nossa frente. Minhas balas atingem a região da clavícula e pescoço de um dos soldados, e com um grito agudo, ele cai no chão, imóvel.
    Cutuco os dois soldados mortos com o pé, me esquecendo completamente do tenente. Corro até o fim do beco com a arma em punho, aguardando por outros soldados, até que a voz esguaniçada de Stuart grita...

"Daphne, espere!"

Olho para trás e ele está agachado, seu rosto contorcido em dor.
Sua submetralhadora está pousada no chão e eu me aproximo, praguejando em voz baixa.

"Stuart, nós temos que ir antes que os outros apareçam..." - Explico.

"Você não vai a lugar nenhum."
    - Ele afirma, e eu me surpreendo com a mudança repentina em sua voz.
Me surpreendo ainda mais quando ele se levanta, no instante seguinte, com uma pistola apontada para mim, dizendo...
"Não vai até me dizer o que fez com Tiffany Anshelf."

"Você é da Central, não é?!" - Solto. - "Evan te mandou aqui fazer o servicinho que ela não pode fazer..."

"O governo de Illies não é o único que te exige respostas."
    - Ele solta com desprezo.
"Ou já se esqueceu de sua estadia em Calanma, Terri Jawanda?"

A menção do meu disfarce me pega de surpresa.
Eu estive, desde o primeiro momento, imaginando que esse homem era um agente da Central, enviado por Evan Muller para seguir meus passos, quando na verdade, ele veio do outro lado da fronteira.
É também uma surpresa imaginar que Clarice Anshelf mandou um assassino vir atrás de mim. Ela é a única interessada no paradeiro de Tiffany.

"Também posso matar você, Stuart." - Digo, pressionando meus dedos contra a arma. Ele encolhe os ombros.

"Se algum de nós apertar o gatilho, os dois morrem. E eu não tenho nada a perder."

"Quanto a Srª Anshelf pagou pra você vir me matar?"
    - Pergunto, tentando ganhar tempo.

"Você lhe tirou a filha e o marido, o que queria que ela fizesse?!"
    - Ele cospe.

O tiro vem antes da minha resposta.
O corpo de Stuart cai um segundo depois do estampido, e Furnan está lá, com arma em punho e uma expressão de alguém que estava ansiosa para matar alguém.
Ela corre em minha direção e me examina com o olhar, antes de me puxar bruscamente e dizer, com sua velha e familiar nota de escárnio na voz...

"Se alguém perguntar, diz que foi bala perdida."