Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 45

"Sarah Stut era apenas um personagem, assim como vários outros que estão espalhados em Calanma e Illies."
    - Estela murmura, pousando duas canecas sobre a mesa. Ela puxa uma cadeira de madeira e se senta displicentemente, em nossa frente. Assim que o líquido toca meus lábios, percebo que é chá gelado. Ela olha para minha caneca, encolhe os ombros e solta:
"Eu não podia servir café num calor como esse."

   Yellowbloat é exatamente como pensei que era. Um território extenso, de barro alaranjado, com pouquíssimas casas abandonadas que estão muitos metros separadas umas das outras. Uma dessas casas se manteve ocupada durante os últimos cinco ou seis meses por ela e pelo seu amigo de cabelo grisalho, Michael. É uma casa simples e feia, com poeira acumulada nos cantos dos poucos móveis. O ar seco irrita as minhas narizas, mas o vapor frio do chá diminui a ardência e o líquido gelado refresca cada parte do meu corpo. Eles, entretanto, parecem bastante habituados ao clima quase desértico do lugar.



"Deixa eu ver se entendi" - Eric diz, cético. Ele ainda não tocou em sua caneca. - "Quer dizer que você é uma espiã?"

"Mais ou menos isso."
    - Ela responde, dando de ombros novamente.

"Pra quem você trabalha?"

"Chegou ao ponto, Ross."
     - Ela solta, com um sorriso satisfeito. Meus olhos voam para Michael, de pé na soleira da porta que dá para os quartos, nos encarando desconfiadamente. Ele não parece tão satisfeito quanto Estela.
"Nós viemos de um lugar que você não conhece, ainda, mas iria adorar conhecer..."

"Estela."
   - Michael rosna. Ela faz um sinal com a mão, descartando sua advertência.

"Eles são de confiança." - Ela afirma. Então seus olhos verdes se cravam como facas em nós e ela acrescenta: - "Se não fossem, já estariam mortos."

"Tudo o que queremos é sair desse lugar."
    - Digo, olhando para Michael dessa vez. Ele sustenta meu olhar por alguns segundos e depois os desvia, contrariado.
"Ir pra qualquer lugar longe de Illies e Calanma."

"Viu?! São apenas refugiados."
     - Ela afirma.

"Eles não possuem comportamentos de simples e frágeis refugiados."

"Eu nunca disse que eles eram fragéis, Michael..." - Estela começa.

"Escutem."
    - Eric interrompe. Sua voz é cortante como uma navalha. Nós três viramos nossos rostos para encará-lo.
"Vocês já confiscaram nossas armas e com certeza sabem de muito mais coisa do que aparentam. Vocês sabem que os dois governos em questão estão nos caçando, e portanto, não temos para onde ir, então, que diabos poderíamos fazer contra vocês?!"

Nós permanecemos calados por algum tempo.
Estela mantém uma sobrancelha arqueada para Eric e Michael está com a mesma cara fechada de sempre, mas sei que ele refletiu sobre o argumento; observo o modo como sua expressão se suaviza, aos poucos, enquanto Estela retoma a conversa.

"Certo. Acho que é suficiente."
   - Ela diz.
"Bom, eu não sei por onde começar direito mas... Enfim, o mundo não está tão destruído como vocês provavelmente acham que está."

Um silêncio cheio de expectativa cai sobre nós.

"De fato, houve uma catástrofe." - Ela acrescenta. - "Mas não foi nas proporções que contaram a vocês. Na verdade, uma boa parte do mundo ficou intacta, e o lugar que vocês estão agora foi um dos poucos, porém, consideráveis lugares que foram atingidos pelo cataclisma. Nós viemos de uma organização que tenta recuperar essas áreas mais devastadas. Todas elas estão isoladas do resto do mundo, se tornaram países de governo autoritário e manipulador, ou estão passando por guerras e genocídios. Já foi pior, mas atualmente alguns deles já foram recuperados. Nossa missão é aqui. Fomos enviados para desestabilizar e quebrar as forças dos governos de Illies e Calanma."

"Ou seja, estão fazendo com que a guerra se intensifique..."
     - Eric rosna. Há uma ponta de ressentimento em sua voz.
"Porque desestabilizar os dois governos é isso; forçá-los a atacar mais, a matar mais, a destruir mais..."

"Esse é o único jeito."
    - Estela interrompe.
"Não podemos simplesmente invadir e dizer que se rendam. A guerra só atingiria mais pessoas, tomaria proporções ainda maiores. É preciso minar suas forças, até que eles não tenham outra escolha além de se entregar."

"Vocês se manteram longe de nós durante todo esse tempo porque lhes era conveniente." - Ele cospe. - "Agora vocês também correm risco. Uma bactéria vai ser lançada, não é?! Se a praga sair do controle vai atingir o resto do mundo, então, de repente, intervir se tornou uma necessidade."

"Não fazemos as regras, Eric."
    - Michael finalmente diz. Eu me mantenho estranhamente calma.

"Os motivos que nos levaram até aqui não interessam agora."
     - Digo. Eric me encara. Eu sustento seu olhar como um aviso, e ele não objeta.
"Só quero saber se há uma forma de sair."

Estela e Michael se entreolham.

"Há."
   - Estela responde. Algo em sua voz diz que nosso pedido de fuga não era bem o que ela esperava... ou desejava.
"Existe um navio contrabandista que aparece na península de vez em quando. Ele é o principal meio de transporte para refugiados. Eu posso pôr vocês lá dentro e em alguns dias estarão na sede da organização, sãos e salvos."

Eu e Eric nos entreolhamos dessa vez.
Apesar de toda sua mágoa com relação a essa organização, a ideia de sair desse lugar é tentadora demais para ser recusada. Nosso relacionamento com as pessoas que fazem a organização e o resto do mundo pode não ser dos melhores, mas também, com certeza, não pode ser pior do que viver fugindo de Illies e Calanma. Não pode ser pior que a Central. Não pode ser pior que a praga.
Faço o maior esforço para afastar qualquer pensamento ruim da minha mente.
Essa é a primeira e única oportunidade que nos foi oferecida de ter uma vida normal.
Eu me agarro a essa nova esperança como se minha vida dependesse dela. Talvez dependa, de fato.
O que está do outro lado da península não importa.
Nada pode ser pior do que isso.