Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 46

Um baque surdo e repentino me desperta do sono.
Meus olhos se abrem num sobressalto e aos poucos vou me acostumando com a pouca luz. O quarto é simples e pequeno, com apenas uma cama velha e uma cômoda.
Eu aguardo pelo barulho, mas a casa permanece silenciosa. Parte de mim começa a imaginar que o som foi algo da minha imaginação, mas tudo foi real demais para isso.
Nós não recuperamos nossas armas, mesmo depois da conversa com Estela e Michael, mas eu ainda guardo uma das minhas facas; passo a mão esquerda debaixo do travesseiro e meus dedos se fecham em volta do cabo de acrílico. Meus pés descalços tocam o chão empoeirado e eu guardo a adaga entre minha calça, debaixo da minha blusa.
Há um peso estranho pressionando a porta fechada, e eu aperto ainda mais a faca antes de abrí-la.
Quando a porta se escancara, o que estava sobre ela não era algum objeto e sim alguém. Eu não precisei usar a faca, de qualquer forma, porque o corpo de Estela desaba em minha frente, com a barriga aberta e a blusa encharcada de sangue.



"Estela!"
   - Solto, incapaz de me conter. Minha voz sai tão sufocada pela surpresa, que o que era para ser um grito, se tornou num sussurro. Seus olhos verdes estão muito abertos e opacos, e o ferimento em sua barriga parece ter sido formado por uma série de facadas.
Há quanto tempo seu corpo estava aqui?

De repente, a realidade me atinge tão forte quanto um soco.
A Central nos achou e matou Estela. Eric pode estar morto também.
    Salto sobre o corpo dela e desço as escadas correndo, sem me importar com o som dos meus passos. A cozinha é o primeiro cômodo visível e, sentado numa cadeira, Michael está imóvel e muito pálido, com a cabeça pendendo para trás e uma marca de bala no meio da sua testa.
Pressiono as mãos contra a boca, suprimindo um grito.
Tento conter o pânico que começa a tomar conta de mim e passo os olhos pelo lugar, procurando por uma arma de fogo. Ouço um som de passos atrás de mim e me viro, com os olhos arregalados em direção a porta da casa.
O que eu encontro, então, são os olhos cinza-claro de Benedict pousados em mim.

"Eu não queria fazer isso, Daf, mas foi necessário."
    - Ele afirma, pronuncionando meu apelido com uma ternura muito fora de lugar.

"Você..." - Balbucio, apontando para o corpo inerte de Michael. - "Você..."

"Sim, eu o matei."
    - Ele responde, indiferente.
"Também matei aquela garota. Seria mais rápido e seguro colocar logo uma bala em sua cabeça, mas ela era tão bonita que por um momento pensei em poupá-la."

"Não é isso o que aquelas facadas dizem."
    - Rosno, finalmente recuperando a voz.

"Por favor, Daphne." - Ele solta, entediado. - "Ela me atacou como uma onça indo para o abate. Não sabe o quanto foi difícil manter seu lindo rosto intacto."

"Onde está Eric?"
   - Sibilo. Minha voz permanece estranhamente controlada, apesar da minha raiva crescente. Eu mal posso acreditar que esse homem é o meu irmão.

"Felizmente para você, eu não consegui achá-lo."
   - Benedict diz.
"Francamente, Daphne, quantas vezes já lhe disse para não fazer escolhas precipitadas?!"

"Escolhas precipitadas..."
    - Repito, incrédula.
"Você acaba de matar duas pessoas e ainda se sente no direito de me julgar?!"

"Tá bom, tá bom." - Ele murmura, percebendo o lampejo de ódio nos meus olhos. - "Eu sei que você está abalada com isso, mas não precisa me olhar assim, certo? A Central ainda está disposta a perdoar você mesmo depois de tudo o que você fez."

"O quê?!"
   - Grito.
"Você vem aqui, mata todo mundo e diz que a Central vai me perdoar pelos meus 'pecados'?! Meu Deus, Benedict, você perdeu o juízo?!"

"Quem perdeu o juízo aqui é você."
    - Ben solta, sério de repente. Ele dá dois passos na minha direção, com o maxilar travado, e sibila:
"Caso tenha se esquecido, irmãzinha, o preço da traição no nosso país se paga com a morte. Você deveria agradecer por ainda estar viva, não se referir a Central dessa forma insolente!"

"Quanto te ofereceram?"
   
"O quê?!"

"Quanto te ofereceram pra você vir atrás de mim?"

"Daphne, meça suas..."
   - Ele ameaça, mas eu nem sequer dou um passo para trás.

"Com certeza a chance de sair desse maldito exército." - Eu continuo, apesar de sua advertência. - "E um bom apartamento em Sukvinder. Você é tão mesquinho que nem sequer deve ter pensado na mamãe, não é?! Alguma quantia em dinheiro também. E atenção, é claro. Você sempre quis ser reconhecido, admita que estava com uma inveja de mim quando matei Richard Helvet, não estava?! Até hoje você morre de inveja porque não tem a coragem que eu tenho para..."

Uma ardência súbita surge num lado do meu rosto.
Sinto o peso da mão de Benedict mesmo depois que ele a afasta, movendo-a para meu pulso, me dando um aperto de ferro. Eu o encaro, incrédula. Enquanto eu cuspia as palavras para ele, num acesso de raiva, ele se aproximava de mim, até eu estar cercada, minhas costas pressionadas contra o tampo de mármore da pia.
Benedict nunca bateu em mim, nem mesmo na infância.
Uma raiva quase tão grande quanto a minha brilha nos olhos dele, enquanto ele rosna...

"Você vai comigo para onde eu mandar sem dizer mais uma palavra, entendeu?!"
     - Então, ele ultrapassa todos os limites quando acrescenta, com desprezo:
"Sempre achei que era uma péssima ideia criar a filha daquela vadia da Doris..."

Minha faca voa para seu pescoço no instante seguinte.
Ele solta um grito e cambaleia para trás, me encarando, estupefato; suas pupilas se dilatam tanto que cobrem quase toda a íris. Eu sei que atingi uma artéria porque o sangue espirra, escorrendo pelo seu pescoço e empapando a gola de sua camisa. Suas mãos ficam cobertas de sangue quando ele arranca a adaga de seu ferimento, fazendo um enorme esforço para não gritar novamente. Ele joga a faca no chão com força e eu permaneço imóvel, com as mãos agarradas na quina da pia.
Exatamente como no sonho.
Ele pode até resistir por algum tempo, mas ninguém sobrevive ao corte de uma artéria.
A dor profunda e a perca de sangue o deixa atordoado, porém, ele ainda está alerta o suficiente para agarrar a pistola em seu coldre. Eu saio do transe assim que ele a puxa para fora.

    Ouço o som dos disparos enquanto mergulho para debaixo da mesa. Ele atira várias vezes, às cegas, jogando as cadeiras para longe com violência, enquanto caminha, lentamente. Ele não vai demorar muito para desabar. Eu só preciso me manter viva até isso.
O jarro de vidro que estava pousado sobre a mesa cai no chão, se quebrando em mil pedacinhos. Eu me esquivo para longe dos cacos, quando os dedos frios de Benedict se fecham em volta do meu tornozelo, me arrastando para fora.
Minhas coxas raspam nos cacos de vidro enquanto ele me arrasta até a sala. Filetes de sangue escorrem nos meus braços e pernas, e a dor dos cortes são como pequenos choques elétricos. Suas mãos então voam para os meus cabelos, e ele me puxa para cima com força, forçando-me a encará-lo.
Ele vai me matar agora, penso.
O cano gelado de sua pistola se encosta no meu pescoço, exatamente no lugar onde eu o feri com a faca.
Ele pisca, sendo tomado pela fraqueza.
Sua camisa está encharcada de sangue agora, inclusive numa das mangas curtas.
Meus olhos voam para uma pequena bola de ferro, aparentemente insignificante, como um objeto de decoração, apesar de não ser nada bonita. Ela está tão perto de mim que basta eu estender um pouco o braço para pegá-la.
Ferro é um metal pesado.
Torço para que a bola não seja oca.
     Minhas mãos se fecham em torno na bola e eu descubro que ela é pesada o suficiente. Bato com ela bem na têmpora direita de Benedict, com força, e ele deixa a pistola escapar de suas mãos. Chuto sua barriga, enviando-o para o outro lado da sala e me agacho para pegar a arma. Ele é mais rápido do que eu e devolve o chute, no centro das minhas costas. Desabo no chão, soltando um gemido de dor. Agarro o cano da pistola e me viro de barriga para cima rapidamente, disparando várias vezes em sua direção.

Três das minhas balas perfuram o seu tronco, mas eu continuo atirando.
Fecho meus olhos, apertando minhas pálpebras com força, como se isso fosse bloquear o som dos tiros. Penso em disparar até descarregar a arma, mas quando seu peso morto cai em cima de mim, eu desisto.
Lágrimas surgem em meus olhos e eu jogo a pistola para longe de mim.
Minha boca se abre e os soluços arrebentam na minha garganta, fazendo um som alto e gutural.
Benedict é meu irmão, apesar de tudo.
Ele é o filho da mulher que eu mais amo na vida, da mulher que eu conversei e prometi proteger dias atrás.
E eu acabei de matá-lo.

    Eric surge na porta minutos depois. Ele corre em minha direção, tirando o corpo de Benedict de cima de mim. Seus olhos se fixam na minha blusa ensanguentada, com horror.

"Não é meu sangue."
    - Me apresso em dizer, entre soluços.

Ele me põe de pé, gentilmente, e passa seus braços em volta de mim.
Eu aceito seu abraço prontamente, inalando seu cheiro até que ele me tranquilize.
Repito para mim que Eric está vivo, que tudo não foi tão ruim assim.
   E então, minutos depois, eu deixo que ele me beije, troque a minha roupa, lave minhas feridas e me envie para a cama.