Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 47

Eu arrumo nossas coisas, em silêncio.
Eric está de pé, do outro lado da sala, com um olho pousado sobre mim e o outro sobre a porta aberta. Nós dois concordamos que este não é mais um lugar seguro para ficar depois do que aconteceu ontem, então, estamos indo adiante com o plano de escapar pelo navio clandestino.
Benedict estava sozinho.
O carro dele foi encontrado a poucos metros daqui, no meio do nada, com uma grossa camada de poeira na lataria. Eric o guiou até uma área mais afastada, mas isso não significa que a Central vai demorar a chegar neste endereço.

"Acha que devo contar pra ela?"
    - Solto de repente. O olhar perdido de Eric então volta-se novamente para mim, confuso.

"Ela quem?"



"Joanna."
   - Digo. Compreensão passa pelo seu rosto, mas ele não fala nada.
"Eu posso fazer uma ligação antes de partir. Ela não iria me entender, mas seria muito pior ouvir a história que a Central vai inventar para ela. Me acusando de traidora e tudo..."

Eric permanece calado.
Nós nos olhamos por algum tempo. Meu corpo inteiro dói, mas a dor emocional é muito mais forte que a física.
Eu desabo no sofá, respirando fundo.
Eu solto o ar, mas a pressão continua ali, como se garras espremessem meu coração.

"Me sinto tão culpada."
    - Confesso. Numa questão de segundos, Eric está sentado, de frente para mim, me olhando com intensidade. Ele não sabe, mas eu não estou me referindo apenas a Benedict, mas também a Estela e Michael. Ainda tem Melanie Jaswant. Ela aparece nos meus pesadelos quase toda noite.

"Você não teve escolha." - Eric murmura, alheio aos meus pensamentos.
 
Eu poderia ter contado a ele sobre Melanie.
Eu deveria ter contado.

"Talvez eu tivesse."
    - Sussurro, tão baixo que penso que ele não ouviu. Mas ele ouviu. Ele aperta minha mão como resposta.

"Não, não teve." - Rebate. - "Se você não o matasse, ele mataria você."

Eu enxergo a sinceridade em seus olhos.
Ele não tem a mínima ideia sobre Melanie.
Eu ainda não posso contar a ele, mesmo com toda essa culpa me consumindo. Eu não suportaria ver sua reação, então, eu apenas sussurro uma resposta afirmativa.

*
    O único porto de Yellowbloat está a alguns quilômetros da praia, seguramente afastado dos olhos de Illies. Homens de pele queimada e roupas velhas andam para lá e para cá, movendo mercadorias que entram e saem da plataforma, ouvindo o barulho dos navios atracando na península. Não há nenhum letreiro na lataria das embarcações, nada que mostre de onde eles vieram e para onde vão; fico me perguntando que tipo de mercadoria é despachada nas enormes caixas que se acumulam nos vários galpões espalhados pelo porto.
    Enquanto caminho, sinto o aço frio da pistola que foi de Estela na minha barriga, me causando arrepios. Nossas armas se mantinham escondidas num armário que foi aperto logo depois que Eric se livrou do corpo de Benedict; ele conferiu nossa mochila em seguida, se sentindo aliviado ao perceber que a caixa preta ainda estava intacta.
Melanie Jaswant.
Seu nome surge assim, do nada, como um lembrete sobre minhas dívidas.

"Fique atenta, Daphne."
    - Eric avisa, me olhando de soslaio.
"Nosso navio é o pintado com uma linha vermelha."

Gasto um bom tempo prestando mais atenção nele do que nos navios.
Seu cabelo escuro está desarrumado, como se ele tivesse passado a mão nervosamente por ali, e sua barba está um pouco maior do que costuma ser. Seus olhos examinam os navios pintados de azul escuro, procurando pela tal linha vermelha. Ele jamais estaria indo embora se soubesse o que está acontecendo com Melanie. Eu também não deveria ir.
    Nos últimos dias, eu tentei, desesperadamente, me convencer de que eu poderia resolver as coisas de outro modo. Repeti que poderia me aliar à organização e cuidar para que a praga seja extinta, mas a verdade é que não posso. Não posso ir embora. Não posso tentar mudar tudo do outro lado da península porque o problema está aqui, e a cura para ele também está.
Prometi a Joanna que acabaria com a praga e não posso simplesmente ignorar isso, por mais que eu queira deixar tudo para trás...

"Nosso navio chegou." - Eric afirma, com uma ponta de entusiasmo na voz. - "Vamos."

"Eric."
    - Digo, segurando seu braço. Ele me encara, confuso. Eu desvio o olhar, fazendo um imenso esforço para dizer a próxima frase...
"Eu não vou."

 "Daphne, por favor, não é hora de..."

"Melanie contraiu a praga."
     - Solto, finalmente. As palavras rápidas se misturam ao som da minha respiração, e Eric olha para mim, sobressaltado. Suas pupilas se dilatam, fazendo seus olhos já escuros ficarem negros como breu, e eu dou um passo para trás como auto-preservação.

"O quê?" - Ele sussurra. Há algo de muito perigoso no tom baixo da sua voz, como se ele estivesse fazendo um grande esforço para não me estrangular, mas mesmo assim, eu repito, num fio de voz...

"Ela foi infectada."

Eric continua me encarando, incrédulo, e eu sei exatamente o que está pensando.
Por pior que seja, eu não posso falar nada em minha defesa. Ele está certo por pensar assim de mim, afinal.

"Há quanto tempo você sabia?"
    - Ele pergunta, sem olhar para mim dessa vez, controlado, porém, rígido.

"Desde o dia em que você sumiu, no acampamento, em Painton."

"Pouco mais de uma semana."
    - Ele murmura para si mesmo. E então solta uma risada, mas não há humor nela.
"Me surpreende que tenha conseguido esconder tão bem durante esse tempo."

Continuo calada.

"Sentiu remorso alguma vez, Daphne?"
   
"Se não tivesse sentido, não estaria contando a você." - Digo, entre dentes. O desprezo estava tão nítido em seu olhar que a raiva começou a crescer em mim, mesmo sabendo que não estou no direito de exigir nada dele.

Eu esperei protestos pelo meu tom de voz. Esperei que gritasse comigo, porque com certeza, essa é uma reação bem mais preverível do que sua frieza.

"Por que não me contou antes?"

"Porque..."
   - Começo, mas minha voz falha no meio da frase. A verdade é que agora não faz tanto sentido esconder a verdade dele quanto fazia uma semana atrás. Eu estava tão desesperada para fugir que, no fundo, achei que ocultando o que aconteceu seria uma forma de deixar para trás. Mas esse não é o tipo de problema que se ignora.
      Eric fica por um longo tempo me olhando, esperando uma explicação que sou incapaz de dar. Eu fico quieta e muda por minutos, sem ousar encará-lo, fixando meu olhar em algum objeto insignificante da plataforma.
Então, ouço seu suspiro decepcionado, e, de soslaio, observo ele caminhar para longe.