Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 51

Noa é uma pequena cidade a oeste de Dustfire; tão perto da fronteira quanto, porém, nunca invadida ou bombardeada.
Parece um milagre que uma cidade que está tão próxima da linha de fogo permaneça intacta todo esse tempo, mas ela nunca apresentou alguma verdadeira utilidade. Pelo menos, não até a praga.
    As cidades ao leste do território de Illies e Calanma nunca despertaram interesse, principalmente pela sua proximidade com o deserto. À leste, além dos nossos domínios, há o mar e as terras que vem depois dele. À oeste, o imenso e terrível deserto se espalha, escondendo completamente o que vem depois de todas aquelas colunas de areia.
    Depois de estar com os antídotos, nossa próxima parada é Noa, a cidade cheia de hospitais entopidos de gente infectada, onde médicos e enfermeiros se esforçam em ao menos tornar a morte um pouco menos dolorosa. A maioria dos doentes são enviados para lá, onde ficam de quarentena, trancados em quartos isolados até apodrecer. Sobrevivem pouco mais de uma semana mergulhados na inércia das grandes doses de morfina, e seus corpos ganham um fim mais seguro do que acumulados nas grandes metrópoles.
Ultimamente, quando fecho os olhos, consigo enxergar minha mãe num desses leitos.

     
Estamos a poucos metros do lugar que, desde a morte de Richard Helvet, nunca pensei que veria de novo.
A mansão presidencial.
Ela se ergue a nossa frente, do mesmo jeito que sempre esteve, com luzes translúcidas brilhando suavemente através de suas janelas retangulares.
Eu não sei quando Illies vai invadir a cidade, mas algo me diz que está perto, perigosamente perto. Talvez eles vençam a guerra e a Central conquiste a soberania que tanto quis, a menos que a organização intervenha.
    Desde a morte de Estela e Michael, a organização soa como algo tão longe e abstrato, um fantasma que paira sobre nós. No fundo, eu ainda estou esperando que algo aconteça, mas não faço ideia das verdadeiras intenções da organização e como ela vai agir, se é que vai agir.
Eu não dormi até agora, então, quando a noite cai, os sinais da fadiga começam a aparecer.
Apesar disso, conforme eu e Eric nos aproximamos da mansão, armados e vestidos de preto, as sombras altas e corpulentas dos soldados que cercam a entrada afasta qualquer vestígio de sono. Eu posso sair morta daqui. Esse é um desfecho bem provável.
   
    Nosso carro foi deixado num matagal, quase dois quilômetros afastado da mansão presidencial. As armas de médio e grande porte foram deixadas na nave, e só pudemos trazer as pistolas, a mochila - agora vazia - de Eric e os explosivos em nossos cintos. Já passou das 3 da manhã e o céu começa a ficar claro.
      Quando cruzamos a rua, nos embrenhando pelos fundos da imensa construção, uma estufa se estende a nossa frente.
Ela é bastante comum, com blocos de vidro e teto côncavo, exceto pelo seu tamanho.
Ela toma toda a grande área dos fundos da mansão, repleta de lindas rosas, crisântemos, narcisos, e outros tipos de flores que nem conheço. A beleza e o emaranhado de cores cega, e por um breve momento, esqueço o que vim fazer aqui. Então, olho para Eric e é como se eu recobrasse os meus sentidos.

      Ele está com uma fina lasca de madeira na mão, girando-a delicadamente na maçaneta. Assim como as paredes, a porta da estufa é feita de vidro blindado, e não há sensores nela, o que me surpreende.

"Há algum tempo, quando as coisas não estavam tão agitadas, essa estufa foi aberta ao público."
     - Ele diz. A fechadura emite um som suave e a porta se abre.

"Desde quando há uma passagem secreta aqui dentro?" - Pergunto.

"Desde que a estufa foi construída."
    - Ele responde, encolhendo os ombros. Eu sigo seus passos, e assim que entro, o forte cheiro das flores atinge meu nariz.

"E não há câmeras, sensores ou qualquer coisa assim?!"
     - Pergunto, cética. A falta de segurança do local me lembra muito o compartimento subterrâneo em Helvet House.

"É sempre aquela mesma regra: esconda um segredo num lugar que ninguém imagina que um segredo  possa estar escondido." - Eric explica. - "Além do mais, há o risco dos satélites."

Ele pressiona os pés contra o piso bem próximo a uma pilha de caixotes.
Os caixotes estão muito bem organizados, e as minúsculas flores em tons de lilás cobrem toda a terra debaixo delas. Um dos blocos de piso cimentado cede, como se estivesse solto. Eric afasta as caixas para o lado e força o piso com os dedos, até soltá-lo completamente.
O que aparece depois disso não é concreto ou barro, e sim, madeira.
Eu noto uma série de pisos frouxos e nós os tiramos, um por um, até restar apenas uma porta quadrada de madeira, plantada no chão.
Eric força a porta para cima, e quando ela finalmente cede, um compartimento escuro e profundo debaixo da terra é revelado; o contorno de uma possível escada é a única coisa visível.
Estico o pescoço, passando os olhos ao nosso redor.
O lugar continua tão vazio e silencioso como antes.

"Ok, você vai primeiro."
    - Ele murmura. Não tenho nenhuma objeção quanto a isso, então, puxo a lanterna para fora do cinto e ascendo, movendo o feixe de luz para dentro do buraco.

Posiciono os pés para dentro, firmando-os no topo da escada.
Testo o peso várias vezes antes de mergulhar para dentro da fenda.

     A passagem subterrânea é muito maior e mais extensa do que imaginei. Os passos de Eric se movem atrás de mim, ainda descendo as escadas. O subsolo não possui nenhuma luz imbutida, como pensei, então eu movo a lanterna para observar o local. Depois da escada, a passagem se divide em quatro, formando corredores que serpenteiam para todos os lados. Minha pistola está firmemente em punho, apesar de não haver um único sinal de presença humana, além de nós.

"Esse lugar parece um labirinto."
    - Murmuro, observando-o de soslaio; Eric passa o dedo uma e outra vez na tela do mapa digital, movendo-o para cima e para baixo.

"Então, temos quatro saídas."
    - Eric diz. Então ele aponta para o segundo corredor do lado direito e explica:
"A primeira, ao nordeste, vai dar para a cozinha."

"Cheio demais." - Afirmo, torcendo o canto da boca. Eric concorda com um aceno.

"A segunda, a oeste, dá para a varanda lateral." - Ele diz, então acrescenta: - "Sempre há o risco de cruzar com algum soldado ali."

"Ou com a própria Prudence."
    - Adiciono.

"É, mas não quero abordá-la dessa forma." - Ele rebate. - "Ao norte, há uma porta que dá para o gabinete do presidente."

"Hum." - Murmuro. - "Portas secretas estão sempre escondidas atrás de móveis pesados."

"Além disso, o gabinete pode estar trancado." - Ele diz.

"Verdade."
   - Concordo. Meus olhos voltam-se novamente para o lado direito.
"Então, nos sobra o corredor à leste..."

"Que dá para o toalete." - Ele murmura.

"Um corredor que dá acesso direto ao salão principal."
    - Digo, lembrando de minha conversa com Tiffany Anshelf. Os detalhes daquele lugar ainda estão frescos na minha memória.
"Os empregados não devem ir lá, e podemos encontrar a Prudence. A mansão presidencial tem algum mordomo?"

"Não faço ideia."

"Então, finalmente, você não sabe de algo?" - Provoco com um sorriso enviesado. Ele sorri de volta e murmura, antes de seguir para o corredor à nossa direita, com ar de falsa tragédia...

"Infelizmente."