Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Epílogo I

Tori está mergulhada em um sono profundo, e eu observo seu tronco mover-se para cima e para baixo, lentamente, devido a sua respiração regular. Há fileiras de remédios postos numa mesa branca, ao lado de sua cama, e o leito cheira a soro.
Nossos quartos são lado a lado, então não foi muito difícil distrair os enfermeiros e escapar; o principal hospital de Fort Severn - a cidade na qual fui levada - está agitado com a nova safra de pacientes. Todos eles vindos de algum lugar de Illies ou Calanma.
Eles dizem que estou num país chamado Canadá.
Aqui é tão frio que quando meus pés tocam no chão gelado, meu corpo começa a tremer. Eu ignoro a vontade de mergulhar novamente nos macios e quentes cobertores e foco meu olhar em Tori. Há um corte raso em seu lábio inferior e vários outros hematomas espalhados pelo seu rosto, pescoço e braços, se sobressaindo na sua pele cor de chocolate.
Ela também terá que depor, lembro, com pesar.
Evan Muller, Veronica Greenaway, Emma Mitchel e vários outros foram capturados e presos na semana passada. A guerra finalmente acabou. A praga está sendo controlada.
Mesmo assim, a perspectiva de ver todas essas pessoas novamente ainda me causa arrepios. Não importa o quão bem as coisas podem estar indo agora, tem coisas que a gente nunca consegue esquecer. Como a morte de Eric, por exemplo.
Não faço a mínima ideia de quem foi o soldado que atirou nele, mas não posso deixar de pensar que ele pode estar aqui. Ou talvez esteja até morto.
     Todos nós, eu, Melanie, Tori e outros agentes refugiados fomos obrigados a depor no dia do julgamento. Os réus provavelmente serão condenados, e eu farei o que for preciso para me certificar disso, mas falar o que aconteceu vai ser muito pior para Tori Rounden do que para mim. Ela foi espancada e sofreu um estupro coletivo quando descobriram sua ligação comigo. De certa forma, me sinto culpada por suas feridas.
Então, enquanto me lamento por tê-la envolvido nessa história toda, sua mão se agarra a minha fracamente, como se ela conhecesse meus pensamentos.
Seus grandes olhos se abrem lentamente, me encarando com atenção.

"Daphne."
   - É a única coisa que ela diz. Há uma nota de alívio em sua voz. Um sorriso fraco e sincero surge em seus lábios e ela solta:
"Que bom que está viva."

Ela parece mais alegre com minha sobrevivência do que eu mesma.
De repente, sinto uma vontade de chorar, mas as lágrimas não surgem.
Nos últimos dias eu estive me condenando por ter sobrevivido, por ter deixado Eric morrer, por ter me envolvido e envolvido tantas pessoas nisso tudo, quando na verdade, estas foram as suas escolhas. Tori não me ajudou porque gostava de mim ou de Eric. Melanie não se negou a fornecer informações nossas, mesmo com o risco de ser infectada com a praga, por mim ou por ele. Até mesmo a indiferente e despreocupada Adeline Furnan não quis que eu morresse por mim. Esses esforços foram por Illies. As cicatrizes foram por Illies. Eles estariam aqui, comigo ou sem mim.
Então, finalmente, eu me permito tirar o peso da culpa de meus ombros.
Eu me permito enxergar um futuro.
Talvez o Canadá não seja tão ruim assim.