Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Epílogo II

Melanie se atira nos braços de um homem até então desconhecido por mim.
Ela tinha me dado pistas de que estava com um novo namorado, mas só agora vou descobrir quem é. Nós conseguimos ser amigas, ou algo perto disso, nas últimas semanas. Desde que saí do hospital fomos resignadas para um novo apartamento, e ela sempre tenta ser alegre e engraçada comigo, talvez para que eu não tenha tempo de pensar em tudo o que eu perdi.
Eric morreu há exatamente um mês.
Ainda dói pensar sobre isso, mas consigo me manter longe das lágrimas por algum tempo.
Eu acho que a dor nunca passa, no final das contas, você só aprende a lidar com ela.

   O novo namorado de Melanie é um palmo maior do que ela, então ela precisa se esticar um pouco para poder beijá-lo. Conforme eu me aproximo, percebo que ele é, de alguma forma, familiar para mim. Ouço risadas vindas dos dois e fico feliz em ver que ela está se saindo bem nesse recomeço. Espero que eu também tenha esse êxito.
Estou a poucos passos do casal quando eles finalmente se desgrudam.
O namorado dela olha para mim e então eu percebo porque ele me parece tão familiar.
A surpresa toma conta do meu rosto e da minha voz quando digo...

"Jaime Helvet?"

"Olá, Daphne." - Ele diz, sorridente, estendendo a mão para mim. - "Se não se importa, gostaria que me chamasse de Daniel Martin. Vida nova, nome novo."

Olho para ele e depois para Melanie, incrédula.

"O que é?!" - Ela solta, ríspida. - "Não me olhe com essa cara..."

"Você não estava morto?"
    - Pergunto para Jaime, ou Daniel, enfim...

"Forjei minha morte." - Ele diz, encolhendo os ombros. - "Foi o único jeito de me deixarem em paz. Eu já tinha planejado tudo antes da morte de Richard, e convenhamos, nunca gostei dos meus irmãos, nem eles de mim. Eu também achava aquela guerra uma estupidez. Agora estou tentando começar tudo do zero."

"Nós estamos." - Digo. Minha voz sai tão baixa que mais parece um sussurro. Melanie me lança um olhar pesaroso porque ela sabe do que eu estou falando.

"A propósito,"
   - Daniel sussurra para mim, com escárnio na voz.
"Parabéns pelo que fez naquela cerimônia de posse. Nunca fui a uma festa tão animada quanto aquela."

Solto uma gargalhada.
Ele se afasta sorrindo, voltando-se para Melanie, e eu os observo, lembrando de quando eu vi Jaime Helvet pela primeira vez. Estávamos todos tão nervosos, mergulhados em nossos próprios problemas para notar um ao outro.
Ele parece mais feliz e mais bonito sem aquela expressão carregada.
Não que não tenhamos problemas agora, mas talvez aprendemos a aproveitar melhor nossas vidas, independente do que aconteça.
Eu abandono o ceticismo e a ameaça antiga que o seu sobrenome me causava.
Eu estou juntando meus cacos, Melanie também, e eu acho que a ovelha negra da família Helvet tem o mesmo direito...
Então, quando os dois saem juntos, em direção ao mar, um único pensamento paira sobre a minha mente, me trazendo a esperança que talvez eu nunca tive...
Todo mundo têm, ou deveria ter, a chance de recomeçar.

FIM