Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

5 de abr de 2015

Veneno - Capítulo 1

Brasil, 15 de dezembro de 2009, às 16 e meia da tarde
MARY
As turbinas do helicóptero era o único som audível na pista de pouso. 
Brandon foi o primeiro a sair, esbanjando um sorriso presunçoso, claramente satisfeito com seu próprio sucesso. Os óculos escuros escondiam seus olhos azuis, mas eu quase podia vê-los fixados em mim, com aquele brilho sádico que me causava frio na espinha. 
Meu pai me obrigou a vir aqui buscar a maleta, assim como me obrigou, meses atrás, a namorar com ele. 
A maleta acinzentada guardava o disco que continha dados importantes sobre a capacidade das jazidas de petróleo do Oriente Médio, a profundidade na qual todas se encontravam, dados geólogicos, gráficos e tudo mais. Eu costumava fazer vista grossa e tentar me convencer de que minha família é mais normal possível, e que esse tipo de coisa acontece. São os negócios. Faz parte. 
O meu pai tentou ser gentil comigo, dizendo que eu só precisava suportar o Brandon por algum tempo, só até a entrega da maleta. Eu aceitei fazer isso para ele, como sempre. Eu gosto do meu pai. Ele é bom para todos nós, nos trata bem e financia nossa vida confortável. O que importa o resto? 



"Sua maleta." 
  - Ele diz, a dois passos de mim. Minha mão enluvada se fecha em volta da alça, e ele enrosca sua mão em meu pulso, forçando-me a encará-lo... 
"Eu acho que deveríamos jantar essa noite para comemorar a vitória, não acha?" 

Contenho o meu constante impulso de esbofeteá-lo. 
É tudo sua culpa, penso. 
Eu não teria que estar aqui se você não o exigisse. 

"Claro." - Respondo, sorrindo, não porque acho que venci, mas porque é isso o que eu tenho que fazer. 

Observo ele se afastar, pensando que esse jantar possa não ser uma má ideia. 
A imagem do veneno transparente mergulhando em sua taça, se misturando ao seu vinho, tornando-se imperceptível, toma conta da minha mente. Vai parecer natural. Ninguém se importa se não foi. 
Eu ainda não venci, mas estou bem perto. 
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Dor.
É a primeira coisa que eu percebo, um latejar doloroso e incessante na minha nuca.
A luz incomoda meus olhos, e demora um certo tempo para que tudo entre em foco; estou deitada num tapete que cobre boa parte da sala, se estendendo até os sofás e a estante. A sala é imensa, repleta de janelas amplas que dão uma boa visão do que existe lá fora. Nada. Só um monte de árvores.
Eu tento esticar meu braço, mas a corrente de ferro me impede isso. Eu e Jeff fomos acorrentados um ao outro, separados por uma longa corrente que prende as duas algemas, e ele continua dormindo com o corpo meio torto, virado para o sofá.
Cutuco seu braço, vasculhando minha memória em busca da última lembrança.

"Jeff?" - Chamo. Nenhum sinal. - "Jeff?!"

Eu sempre soube que essa ideia de roubar o disco não daria certo.
Outras pessoas estavam interessadas na jazida. O roubo seria noticiado na imprensa. A polícia está nos caçando, mas outra pessoa nos pegou.

"Jeff, por favor, acorda!"
    - Solto, num tom de voz mais alto. Ouço seu suspiro exasperado. Jeff. Que nome horrível.

"O que é?!" - Ele deixa escapar. - "Por Deus, Mary, tente se controlar."

"Eu estou algemada, presa numa casa que eu não conheço, num lugar que nunca vi na vida. Como quer que eu fique calma?!"

"Bom," - Ele murmura, encolhendo os ombros. - "Terá que manter a calma se quiser continuar viva."

Eu lhe lanço um olhar furioso, mas ele nem sequer me vê.
O som de vozes e passos ecoam atrás de mim e eu fico ofegante de repente, juntando coragem para encarar a pessoa que vem até nós.
Uma silhueta alta para em nossa frente.
Seu rosto é familiar e previsível, apesar de ele ser a última pessoa que eu queria ver num lugar desse, principalmente a essas condições.
Seu olhar pousa em mim e eu não desvio o meu. Eu deveria estar com uma raiva mortal, mas só me sinto confusa...

"Por que está fazendo isso, Fred?" - Pergunto.

Então, a risada estridente de Sadie Woo surge na sala.

"Não é o Fred."
    - Ela diz, ainda rindo. Seu sorriso se amplia mais ao ver a minha expressão.
"Bom, não se pode saber tudo, não é? Se os Price tivessem aprendido essa pequena lição, talvez não estivessem aqui agora."

"Quem é ele?" - Jeff pergunta, apesar da resposta ser óbvia.

"O irmão gêmeo de Fred."
    - Ela responde, radiante. Então, cantarola:
"Dêem um olá para o Paul..."

"Espero que a estadia tenha sido confortável, já que temos assuntos importantes para tratar."
      - Paul murmura, desviando o olhar de mim. Seu corpo desaba relaxadamente no sofá, como se aquela fosse uma simples conversa casual.

"Se é o disco, perderam seu tempo, ele não tá comigo." - Jeff murmura.

"E a sua irmã?" - Rebate. - "Eu sei que ela também está envolvida nessa história toda."

"Mary?!"
   - Ele exclama, soltando uma risada amarga.
"Acha mesmo que ela sabe?! Porque se acha, não estudou nossa vida o suficiente."

"A maleta passou pelas mãos dela."
    - A voz de Fred ecoa, calma, porém firme. Ele caminha lentamente em direção à sala, evitando o meu olhar.
"Depois, ela entregou a você, que foi a última pessoa que esteve com o disco. Ela mesma me contou. Eu até imaginaria que você entregaria isso ao seu pai, mas ele está morto, não é?"

Jeff lança um olhar venenoso na minha direção.
Eu endureço o rosto e encaro o outro lado da sala, em resposta.
O barulho da pistola de Sadie é o que vem em seguida.

"Vou falar só uma vez..."
    - Ela sibila, encostando o cano na testa de Jeff. Prendo a respiração involuntariamente.
"Cadê a droga do disco?!"

"O que eu ganho com isso?" - Ele murmura. A coronha da arma de Sadie bate contra seu maxilar, lhe provocando um grunhido de dor. - "Quando aprendeu a bater assim?!"

"Quando precisei me defender de cretinos como você." - Ela dispara.

"Escuta." - Ele diz. - "Há uma forma de todo mundo sair ganhando aqui. Você vai ter que negociar comigo, certo? Se não, eu não vou dizer uma palavra, você vai nos matar e ninguém fica com o disco."

Outra coronhada.
Outro grunhido de dor.
Com certeza, uma mancha roxa vai estampar seu rosto quando ele acordar, na manhã seguinte. Se acordar.

"O que você tem que entender, garoto, é que você não tá mais no comando." - Ela afirma. - "Eu não tenho que negociar nada com você, e pode apostar, você não vai querer morrer na minha mão!"

"Ah, então vai me torturar?! Vá em frente."

Sua mão sobe, pronta para um novo golpe, quando a voz grave de Paul interrompe...

"Não, Sadie."
   - Ela o encara, confusa. Sua expressão é tão confiante quanto antes, como alguém que sabe em que território está pisando...
"Há modos diferentes de fazê-lo contar."