Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

5 de abr de 2015

Veneno - Capítulo 2

Santos, 11 de fevereiro de 2010, 12:06 da noite
JEFF
"Julia!" 

Minha voz ecoava por toda a extensão da rua deserta, num tom muito mais alto e desesperado do que eu queria demonstrar. O som do toc toc dos sapatos de Julia foi a minha única resposta, já que ela continuou caminhando tranquilamente, como se nada tivesse acontecido. 
Foi a irmã dela, tenho certeza. 
A tal da Sadie, a garotinha de cabelo vermelho desbotado e olhar carruncudo, sempre deixou claro que nunca aceitou que eu namorasse com sua irmã. Por mais velha que Julia fosse, sua irmã caçula estaria sempre ditando o que ela deveria ou não fazer; Tudo bem que a história toda de traição era verdade, mas eu tinha tomado todos os cuidados possíveis para que ela jamais descobrisse. Além do mais, Julia não é o tipo de pessoa que desconfiava dos outros, muito menos de mim. Ela me amava, eu sabia. Me amava cegamente. 



"Me solta!" 
   - Ela grasna, debatendo-se contra meu aperto. Afundo meus dedos contra a carne do seu braço e ela finalmente me encara, com os olhos molhados pelas lágrimas...

"Me perdoa." - Digo. - "Por favor. Eu sei que eu não deveria ter te traído, eu..." 

"Acha que é por isso que estou terminando com você?!" 
    - Ela pergunta, com a voz firme, diferente do ruído emocionado de minutos atrás. A surpresa me pega tão de surpresa que cambaleio para trás. 
"Por favor, Jeff, eu sempre soube que você me traía. Sadie nem precisou me alertar quanto a isso. Eu estou terminando porque..." 

Sua voz some no meio da frase e um soluço escapa da sua boca. 
Eu tento me aproximar, aos poucos, temendo pelo que ela possa ter descoberto. Levanto minha mão para alisar seus cabelos, mas ela recua como um animal ferido... 

"Não toque em mim." - Diz. - "Eu vi o que você fez, Jeff, naquele beco, ontem." 

A lembrança do dia anterior surge como flashs na minha mente. 
Rob Craven. As muitas doses de bebida. Eu seguindo-o até o beco, com aquela barra de ferro nas mãos...

"Ele era meu amigo. De Sadie também." 
    - Julia continua, com a voz embargada. 
"Nós estudamos juntos. Ele nos deu grana quando a gente mal tinha o que comer. Eu mal posso acreditar que você fez isso, eu não teria acreditado se não visse. Você o matou, Jeff! Você matou uma pessoa! Tem noção do que é isso?!" 

O alerta do meu pai grita na minha cabeça. 
Ninguém poderia saber. Deveria ser limpo, sem provas, sem testemunhas. 
Encaro o rosto molhado de Julia com horror, me perguntando como e porque ela estava naquele maldito beco, justamente naquela hora... 

    Num impulso, minhas mãos se fecham com força ao redor dos seus braços. Ela arregala os olhos e tenta se soltar, mas eu a empurro para a frente. Ela reclama, se debate e grita, mas nada disso produz efeito sobre mim. Sua mão soca o meu peito e eu a jogo com força para a parede ao lado. 
Ela solta um grito. Meus olhos voam para o grande pedaço de concreto solto ao meu lado. 
Julia é a última pessoa que eu gostaria de estar fazendo isso, mas regras são regras. 
Agarro a pedra com a mão direita, observando o pânico passar por seus olhos. 
Ela tenta se desvencilhar do meu aperto. O contato da pedra com os ossos do seu crânio gera um baque surdo, e o sangue espirra no meu pescoço. Eu continuo batendo outras vezes, mesmo sabendo que ela já está morta. 
Seu corpo escorrega pela parede do corredor, inerte. Fios de cabelo se grudam no sangue espesso que escorre pelo seu tronco, manchando sua blusa. O lado direito do seu rosto se torna irreconhecível, num emaranhado de sangue, ossos e carne exposta. 
A pedra desaba no chão com outro baque, e eu me afasto. 
Caminho silenciosamente pelo outro lado da rua, pensando que Sadie estava realmente certa sobre nós dois. 
____________________

"A gente vai morrer..."
    - Ela repete pela milésima vez, me causando uma onda de irritação. Eu e Mary nunca fomos exatamente próximos, mas conseguíamos conviver em paz, até agora. Passo um olhar pelo local onde fomos enfiados; um cubículo pintado de um branco que irrita os olhos, tão pequeno que mal dá para esticar as pernas. Talvez nosso sossego estava baseado na distância. Estamos acorrentados um ao outro, do mesmo jeito de dias atrás. A porta se manteve trancada o tempo todo e só recebemos um pão e uma dose diária de água...
"Você não aguenta muita tortura como fez parecer lá fora. Eu nem sei se você já foi torturado alguma vez."

"Você tem alguma sugestão do que devemos fazer?!"
    - Solto. Há uma horrível nota de desespero na minha voz. Uma boa sugestão seria bem vinda uma hora dessas.
"Porque se não tiver, é melhor calar a boca."

"Você sabe onde está o disco, não sabe?"
    - Ela diz.
"Você sabe o que tem naquele disco..."

"O pai nos proibiu de mexer nele." - Respondo, seco.

Mary solta uma risada ácida.

"Você nunca obedeceu o papai." - Ela murmura. - "E se eu estou certa, você não fez as cópias falsas, como ele havia mandado."

Eu a encaro, tentando intimidá-la o máximo possível.
Mary não pode passar muito tempo examinando meu nível de lealdade ao meu pai. Ela não é burra. Qualquer descoberta indesejada seria terrível num momento como esse.

O barulho da tranca girando nos faz virar em direção à porta.
Inquietação toma conta de mim quando Sadie avança para nós, me olhando fixamente. Fred está junto com ela, encarando minha irmã com a mesma intensidade que demonstra todas as vezes que a vê. Eu não sei se aconteceu algo entre os dois, até porque nunca parei para pensar nisso, mas Mary parece tão desconfortável quanto eu, na presença dele.

"O Fred quer ter uma conversinha com a tua irmã."
    - Sadie diz. Por pior que eu esteja me sentindo, eu não desvio o olhar dela. Eu tenho o meu orgulho. Não posso abaixar a cabeça e parecer um animal acuado.

Mary não protesta quando é levada, e assim que a porta se fecha, eu penso que uma conversa franca com a moça amargurada à minha frente pode não ser uma má ideia. Eu matei a sua irmã, afinal. Ela tem todo o direito de me achar um canalha.
Sadie não fala nada, de imediato, e eu observo como o osso de seu maxilar pulsa constantemente. Ela tem o rosto quadrado, como Julia, possui os olhos da Julia e até o corpo dela. A semelhança entre as duas era tão assombrosa quanto o contraste entre suas personalidades.
Julia era o tipo de namorada que um cara como eu deve ter; calma, suave, confiável.
Sadie é o oposto que me aborrece, talvez porque haja algo de sua natureza explosiva em mim.

"Não sei porque estou surpreso em vê-la aqui."
     - Quebro o silêncio. Ela nem sequer pisca os olhos. Completo:
"Com eles."

"Alguém tinha que roubar o seu disco." - Ela responde.

"Mas não é só isso que está em jogo, não é?" - Solto. - "Só quero ver onde você vai, quanto tempo vai levar até que perca a paciência e me mate de uma vez."

"Por que você a matou?"
    - Ela deixa escapar, repentinamente, com a voz dura como uma pedra. Quanto tempo se passou desde a morte da Julia? 4, 5 meses? Tempo suficiente para ter transformado a dor em raiva.
"Seu problema era comigo. Eu era a ameaça. A Julia te adorava, ela beijava o chão que você..."

"Ela descobriu sobre o Rob." - Digo. - "Quer dizer, você descobriu, não foi?! Eu posso ter matado sua irmã, mas não é como se você não tivesse culpa alguma!"

"Você bateu com a pedra até ela apagar e eu sou a culpada?!" - Vocifera. - "Escuta aqui, você não tem o direito de julgar ninguém! Eu sou a culpada?! Eu sustentei a Julia, eu dei tudo o que ela precisava, eu cuidei dela muito melhor do que você e ainda tem a coragem de me dizer que eu sou a culpada pela morte dela?!"

"Acha que eu queria matá-la?!" - Grito. - "Pode não parecer pra você, Sadie, mas eu gostava dela! Eu queria casar com ela, só que você tinha que se meter no nosso namoro, tinha que..."

"Eu só tentei alertar ela sobre o sacana que você é!"
     - Eu me calo. Lágrimas surgem nos olhos dela, ameaçando cair. Ela se vira bruscamente para trás e limpa o rosto com as costas da mão. Quando Sadie volta a me olhar, ela se parece muito com sua irmã, na noite que a matei. As bordas das pálpebras avermelhadas, ferida, magoada, mais vulnerável do que nunca se tinha deixado demonstrar.
"Julia era tudo o que eu tinha. Eu nunca deixaria você se casar com ela. Ela era uma pessoa maravilhosa e você nunca a mereceu... Escuta uma coisa, garoto, eu não vou deixar você sair vivo daqui. Nunca. Eu vou me certificar de que você sofra o máximo possível, que você se arrependa do dia que colocou os seus malditos olhos nela!"

O som da porta batendo atrás de mim é o que vem em seguida.
Passo um bom tempo observando o caminho por onde ela saiu, com a certeza de que Sadie vai cumprir a promessa.