Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de jun de 2015

Veneno - Capítulo 5

MARY
Entrelaço os meus dedos com força, tentando conter o tremor frenético das minhas mãos.
Jeff está a alguns centímetros de mim, perto o suficiente para que eu sinta o calor que erradia de seu corpo, fraco e confuso demais para que me diga alguma coisa.
Eu menti, é claro.
Nunca pensei que vê-lo sendo espancado até quase a inércia iria gerar um efeito tão forte em mim. Eu não pensei. Eu simplesmente me pus no lugar dele e disse que o disco estava comigo, apesar de não estar. Foi uma manobra arriscada, que pode piorar as coisas para nós, então eu apenas forço a minha mente em busca de algum plano. Eu tenho que ter um. Ele acha que eu tenho.
      Eu rasguei um pedaço de sua camisa e coloquei na altura de seu nariz, tentando conter o sangramento. Como Jeff levou muitos chutes na cabeça, ele se sente meio zonzo e com dor. Eu observo, de soslaio, a ferida que se abriu em seus lábios e supercílio, as manchas vermelhas dos hematomas em seu rosto, me perguntando o que vão fazer quando descobrirem toda a verdade.



"Por que fez aquilo?"
    - Foi a sua pergunta fraca, sussurrada que ouvi quando fomos encaminhados para nossas celas. Eu fingi que não ouvi. Eu não tenho uma resposta para ela até agora.

Repito para mim mesma que somos uma família, que apesar de enxergar esse homem como um estranho durante todos esses anos, ele não deixa de ser meu irmão. É como o meu pai sempre dizia... O sangue é sagrado.
Vasculho minha memória em busca de coisas da minha infância, numa tentativa de achar qualquer vestígio de familiaridade entre nós dois. Ele é quatro anos mais velho que eu. Ele pode ter pedido para me carregar no colo quando nasci.

"O que acontece agora?"
     - O som repentino da voz de Jeff me sobressalta, e eu o encaro com espanto. Ele parece não se importar com a minha reação e completa...
"O que vai dizer quando eles te perguntarem sobre o disco?"

Solto uma longa expiração pausadamente, fixando meu olhar na parede.
Ele espera pacientemente, durante todo o período que passo em silêncio, procurando uma resposta.

"Eu não sei."
    - Confesso finalmente.

"Por que fez isso?" - Ele volta a perguntar.

"Porque eu devia." - Solto, minha voz com uma firmeza muito maior do que a que sinto. - "Você é meu irmão. O sangue é sagrado, lembra?"

Agora é ele quem desvia o olhar de mim.

"Não deveria ter feito."
    - Ele sussurra.

"Por que não?"

"Simplesmente não deveria, Mary."
      - Jeff solta, endurecendo a voz. Eu procuro seu olhar, mas ele o dirige até um ponto insignificante da cela.

"Jeff." - Digo. - "O que há com você?"

"Nada." - Ele responde num sussurro. Eu tento me aproximar mais dele, mas o barulho das correntes de ferro me enviam um lembrete sobre a situação em que estou.

"Jeff."
   - Insisto. Ele solta um suspiro exasperado e pende a cabeça para cima. Percebo, com apreensão, que seu nariz voltou a sangrar...

"Eu matei o pai."
    - Ele solta finalmente. Pelo menos essa é a impressão que eu tenho. O som de sua voz é quase inaudível e eu penso que ouvi errado. É claro. Ele não pode ter matado o papai. Ele não faria isso.
"Isso mesmo, irmãzinha. Eu não honrei o sangue."

O impacto de sua frase me atinge com tanta força que por um momento, fico atordoada.
Meus olhos não conseguem perceber mais nada além dele, que não olha para mim porque não quer ver a descrença estampada no meu rosto. Lembranças relacionadas ao comportamento dele com o meu pai enchem a minha mente. Eles nunca tiveram uma relação muito boa, claro. Mas eu nunca pensei que chegaria a isso.
Me sinto doente.
Minha boca se abre, mas nenhum som sai de lá.

"Deveria ter ficado quieta." - Ele sussurra, como se estivesse falando para si mesmo. - "Pelo menos eu não me sentiria em dívida com você agora."

"Como conseguiu chorar no enterro?"
      - Sussurro de volta. Ele volta a olhar para mim.

"Não chorei por ele."
    - Ele afirma, sincero. Dolorosamente sincero.
"Foi pela mãe. Ela deveria ter sobrevivido. O plano era que ela sobrevivesse."

"Deixa eu ver se entendi" - Eu solto, minha voz transbordando acidez. - "Você adultera o carro do pai para que pareça um acidente. Você sabia que a mamãe estava com ele. Realmente achava que ela iria ficar viva, Jeff?! Sério?!"

"O carro não deveria explodir, caramba!"
     - Ele grita.
"Pelo menos, não com ela dentro. Eu folguei seu cinto de segurança e adulterei a trava do banco do passageiro. Ela deveria ser arremessada pra fora ou sair quando o carro ainda não tava pegando fogo, ela..."

Sua voz falha.
Eu observo, com espanto, as lágrimas que brotam dos seus olhos.
Em alguma parte de mim, eu acredito que elas sejam verdadeiras. Que ele realmente não queria que a mamãe morresse. Mas uma outra parte, muito maior do que essa, está endurecida demais com o que ele fez para se sensibilizar.

"Ela tentou salvar o pai."
     - Ele diz, secando os olhos com as costas da mão.
"Ela podia sair do carro, mas ela não quis porque o pai estava preso nas ferragens."

"Era o seu pai, Jeff."
     - Digo, rancorosa.
"O seu pai, que sempre te deu tudo o que você queria, que..."

"Ele era um assassino." - Rosna. - "Eles nos fez assassinos. Ou acha que eu não sei que foi você que matou o Brandon?!"

"Eu tinha os meus motivos!"
     - Solto, chocada com a acusação.

"Eu também tinha os meus motivos."

"Ele me forçou a fazer isso! Você não sabe como ele me tratava, Jeff..."

"Ele não te forçou a nada."
      - Ele rebate."
"Quem te forçou foi o pai, te obrigando a ir pra cama com ele como se você fosse uma vadia qualquer! Não foi?! Admita! O seu amado pai te usou pra ganhar aquela droga de disco, assim como te usou várias e várias vezes para conseguir o que ele queria, e o que você fez contra isso?! Nada! Você não pode me julgar, irmã. O seu passado é tão sujo quanto o meu."

Pisco continuamente, afastando as lágrimas dos meus olhos.
Eu luto contra a dor aguda que se forma em mim; todo o meu esforço em criar uma teia bem armada de mentiras e fraquezas escondidas, onde a minha vida estava baseada, se desfazia lentamente nos últimos dias, e se destruiu completamente com o que Jeff me disse. As palavras dele ecoam na minha mente e um buraco cresce dentro de mim, oco, escuro.
É como se não sobrasse nada, e de repente eu nem sei mais quem eu sou.
Talvez eu nunca soube.