Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de jun de 2015

Veneno - Capítulo 6

JEFF
Ela vai voltar atrás. Eu tenho certeza disso.
Depois de tudo o que eu despejei nos ouvidos dela, praticamente não há motivo para que ela continue me defendendo, dizendo que ela está com o disco, chamando a responsabilidade para si. Mary não disse mais nada depois da nossa discussão e já se passou horas que aconteceu, mas a imagem dos seus olhos abertos como pratos, refletindo o quanto ela foi atingida pelas minhas acusações, não sai da minha cabeça. Ela sempre se negou a encarar a realidade dos fatos, criou uma espécie de conto de fadas para suprir a falta que ela sentia de uma família de verdade, e jogar tudo na sua cara daquele jeito foi cruel da minha parte.
Mary sempre foi tão passiva, tão omissa. A forma como ela aceitava tudo sem questionar uma só vez me irrita, mas ela sentir a morte do pai ao ponto de me olhar como se eu fosse um monstro, sinceramente me tirou do sério. Ok, provavelmente eu sou um monstro. Há provas mais do que suficientes disso. Mas não é como se ele fosse um santo; na verdade, eu estou apenas reproduzindo o que nosso queridíssimo papai sempre fez.



Quando Fred e Sadie finalmente vem nos fazer uma visita, nos escoltando para fora com as mãos firmemente pousadas em nossos braços, impedindo qualquer fuga - por mais inútil que ela seria - Mary continua sem dizer nada. Eu passo todo o caminho rezando para ter uma morte rápida, já que nenhum deles vai gostar muito de saber que nós mentimos. Diferente do que eu imaginei, nós somos mandados para o lado de fora do que agora percebo ser uma casa tão grande que chega perto de uma mansão, e eu começo a pensar que talvez eles não queiram estragar a mobilha com manchas de sangue.

"Bom dia, pimpolhos."
     - Sadie exclama, radiante, o que não é um sinal nada bom. Paul aparece atrás dela, porém, um pouco distante dela, olhando para nós com o seu ar arrogante que me lembra tanto o pai. Uma de suas mãos está fechada em torno do cano do revólver, e ele faz um sinal para que Fred e Sadie nos soltem.

"Eu estive pensando na proposta da mocinha."
     - É o que ele diz, calmo, imperturbável. Praguejo internamente. Ele é o fantasma do meu pai.
"Só que ainda estou tentando entender como só ela sabe onde está o disco se ela disse que o entregou ao irmão..."

"Eu já disse, eu menti."
     - Ela afirma, e eu sou tomado pela surpresa. Ela ainda está sustentando a mentira. Ainda está me protegendo.

Paul usa sua estatura para intimidar a todos nós, principalmente a Mary, a quem pode ser mais atingida com isso.
Ele passeia em nossa direção, movendo seu olhar para mim e para ela, cético.

"Por que mentiria para Fred?"
      - Ele pergunta, parado, a poucos centímetros dela. Seu olhar, assim como sua voz, tem um tom ameaçador.
"Ele era seu amigo, não era?"

"Não éramos tão próximos assim e eu não confiava tanto nele." - Ela afirma, finalmente encarando-o. Ele sustenta seu olhar nela por alguns segundos e então o fixa em mim.

"Gosta do seu irmão, não gosta?"
      - Ele pergunta. Ela pisca, confusa, e me mede, antes de dizer, sua voz mais sincera do que das últimas vezes...

"Eu não sei."

Paul volta a encará-la, então.

"Você também pediu pela vida dele no seu 'acordo', se não me engano."

"Ele é meu sangue." - Ela diz, se esforçando em manter a voz firme. - "Se imagina que essa é a coisa certa a fazer por alguém da sua família."

Um sorriso se forma em seu rosto e eu penso que ele descobriu.
Ele finalmente viu a verdade nos olhos dela e vai matá-la por ter mentido.
Mas o que vem em seguida não é algum golpe disferido no rosto de Mary, ou o som de um tiro.
É a dor lascinante que surge na altura da minha coxa.
      Eu perco o equilibrio e cambaleio para frente, ainda confuso pelo ataque. Eu olho para o lado direito e encontro os olhos de Sadie focados em mim, com um brilho perigoso. A faca enferrujada na sua mão está manchada com o sangue que provavelmente é meu, e eu ainda não entendo se isso foi algo autorizado por Paul ou não, até que o próprio fala..

"Esta faca está suja e provavelmente infectada."
     - Ele começa, se afastando de nós, num tom de discurso.
"Se ele não receber atendimento médico, em menos de dois dias essa ferida vai infeccionar, em outros dois dias, a bactéria vai se espalhar por todo o seu corpo, causando infecção generalizada e em horas seus orgãos vão começar a parar. Então, a menos que você queira ver seu irmão morrer aos poucos, isso sem contar no odor horrível de sangue e pus que vai sair daí, você vai me dizer agora onde o disco está. Este é o acordo, querida."

Meus olhos correm para Mary, e eu engulho em seco.
Ela me fita por alguns segundos, olha para Fred e Sadie, olha para mim novamente e eu observo a forma como ela apaga qualquer vestígio de sentimento em seu rosto.
Talvez a sua vingança esteja aqui.
Mary olha para Paul, os olhos castanhos duros como aço, e solta, com uma ponta surpreendente de escárnio na voz...

"Vai ter que fazer mais do que isso se quiser o disco, Paul."