Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de ago de 2015

Veneno - Capítulo 8

MARY
Paul e Sadie estão no meio da sala, encapuzados, armados como nunca estiveram antes.
O cano frio da pistola dela encosta na minha têmpora, me causando calafrios que eu tento conter.
Todos estão muito nervosos e apreensivos, com o olhar fixo lá fora, onde uma mulher de jaleco branco desce do carro de Fred, escoltada por ele, aparentando estar entediada.
Ela com certeza os conhece. Não estaria tão calma se não fosse.
Fred a força a entrar na mansão com as mãos para cima. As rugas no canto dos seus olhos revelam sua idade, e seu cabelo é de um loiro acobreado artificial demais para ser natural. Sua assistente, uma moça que não parece ter mais que 25 anos, segura uma maleta branca, enquanto tenta conter o tremor de suas mãos.

“Sabe, não precisava disso tudo.”
    - Ela reclama logo quando entra na sala. Sua voz é grave, forte, a voz que você espera ouvir de uma pessoa que viveu tanto a ponto de não impressionar-se com mais nada.
“Somos amigos a tantos anos, Paul, achei que merecia um tratamento um pouco mais receptivo.”

“Não enche, Cassandra.”
    - Ele rosna.

Então eu reconheço.
Cassandra Rovezan, a conhecida cirurgiã plástica, presidente de uma rede de clínicas espalhadas por toda a América, envolvida em esquemas de corrupção, lavagens de dinheiro, queimas de arquivo e todo tipo de 'negócio' que o meu pai estava acostumado a fazer. Ela esteve no enterro. Vi seu rosto em algumas festas da família. Ela é como um fantasma, que apareceu e desapareceu em alguns pontos da minha vida, e me pergunto se ela estava lá somente para fornecer informações a Paul.
Ela olha para mim com indiferença, como se não fosse nenhuma novidade o meu atual estado, e pergunta para Sadie:

“Onde ele está?”

Eles não me deixam acompanhar a cirurgia.
Se passa meia hora desde que ela entrou na cela do meu irmão, e Paul continua lá, do outro lado da sala, me encarando, imóvel. Ele pousa a arma no braço da poltrona, mas seus dedos pairam sobre o contorno dela, como se o mero afastar da mão fosse perigoso demais.

Sadie continua com sua pistola em mim, é claro.
Desde minha manobra com o paradeiro do disco, eu, de repente, me tornei um prisioneiro muito mais perigoso do que antes. É como se eles esperassem alguma reação minha, como tentar tomar a arma de Sadie, por exemplo.
Eles não me acorrentam, entretanto.
Essa é uma das poucas vezes em que estive com mãos e pés totalmente livres. Eu realmente poderia reagir agora, mesmo que isso acarretasse um tiro que Paul com certeza me daria, mas não tenho ânimo suficiente para isso.
Há um certo momento do jogo em que o medo simplesmente vai embora, e você deixa de se importar. Eu estou contando com uma possível descoberta do nosso paradeiro, ganhando tempo até que a polícia chegue, mas se isso não acontecer, eu não estou nem aí.
Ele pode me matar, se quiser. Ele pode matar a todos nós, como uma vez disse que faria, para mim não faz diferença.

O som do toque de um celular me desperta dos pensamentos.
Paul tira o aparelho preto do bolso, com o cenho franzido, sem tirar os olhos de mim. Eu observo, curiosa, seu rosto mudar de expressão quando ele escuta a voz do outro lado da linha. Ninguém sabe quem é, e até pouco tempo eu não sabia que ele usava um celular aqui, e sua mudança de comportamento começa a deixar Sadie mais nervosa do que já está.
Ela empurra o cano da arma para minha cabeça com mais força.
Paul se levanta, com o aspecto de um leão enjaulado, e começa a percorrer a sala, olhando para as janelas e portas de vidro.

“Que foi, Paul?” - Sadie pergunta, apreensiva.

Ele continua calado, caminhando de um lado para outro, a beira de um colapso.
Ele aponta sua arma para mim, mas seu olhar está fixo em algum ponto lá fora.

“Fala logo, o que que tá acontecendo?!” - Ela exige.

Ele olha para ela, pestanejando, como se acabasse de se dar conta.
Então Paul olha para mim de novo, por alguns segundos, antes de encará-la e soltar…

“A polícia tá aqui.”