Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de ago de 2015

Veneno - Capítulo 9

MARY
A casa está cercada por atiradores de elite.
Eles chegaram a pé, sem fazer o menor barulho, e o chefe de polícia está tentando uma negociação com Paul.

“Vai buscar a Cassandra.”
    - Ele rosna para Sadie. Ela nem cogita questioná-lo agora.

“Você.”
  - Sibila para mim.
“De pé.”

E eu me levanto.
Devo confessar que o auto-controle de Paul é algo admirável. Durante todos esses dias, estando presos, isolados, correndo risco de sermos mortos, ele conseguiu manter a frieza, mesmo quando as coisas já estavam perdidas para ele.
Seu momento de desespero foi breve, e ele parece ter retomado o controle, agindo sistematicamente como se já tivesse todo um plano desenrolando em sua mente.
Ele ordena que eu me aproxime, e eu o faço obedientemente, e sua mão se fecha em torno do meu braço, enquanto ele pousa o celular na mesa, no viva-voz.

“Vou deixar que vocês a vejam.” - Ele solta, pressionando a arma contra minha nuca.

Eu dou um passo para frente, lhe servindo de escudo. O primeiro atirador surge no meu campo de visão, com um fuzil apontado para a porta de vidro da mansão. Outros estão espalhados em pontos estratégicos, vestidos de preto, encapuzados, com coletes a prova de balas.
Atrás deles, rostos desconhecidos se revelam, com olhares curiosos, fixos na mansão onde estou. Meu aspecto deve ser horrível, porque o meu aparecimento gera uma reação geral, e as pessoas começam a falar umas com as outras.
Essa reação não se estende aos atiradores.
Eles me enxergam, mas permanecem imperturbáveis. São como robôs, homens sem rosto e sem emoção, prontos para colocar uma bala na cabeça de Paul no menor descuido.

“Escuta, você, Paul, pode sair vivo daqui se colaborar.”
   - Soa a voz no celular.
“Eu sei que você é inteligente o suficiente para saber que não tem mais jeito. Estamos aqui. Toda a imprensa sabe onde vocês estão. Nós sabemos sobre o disco, e você sabe que não há mais chance de consegui-lo. Você só precisa libertar os reféns e pronto, tudo isso termina.”

Paul solta uma risada sem humor.

“Vai ter que se esforçar mais para ter seus 'reféns' de volta.”

“O que você quer, hein?” - A voz diz. - “Vamos, diga o que quer, eu o darei a você.”

Ouço gritos no corredor.
Cassandra entra escoltada por Sadie, furiosa,

“O que pensa que tá fazendo, garota?!” - Cassandra grita. - “Escuta aqui...”

“Senta.” - Sadie ordena.

“Olha, eu não vou…”

“Senta logo, merda!”
     - Sadie grita. Ela olha para Paul, incrédula.

“O que significa isso, Paul?” - Cassandra pergunta.

“Eu que pergunto, Cassandra” - Ele diz, apontando com a arma para o lado de fora. - “O que significa essa merda aqui?!”

“Espera.” - Ela solta um riso nervoso. - “Você acha que eu chamei a polícia?”

“Não sei, você que vai me dizer.”

“Por que eu faria isso?! Sério, Paul, o que eu ganharia com a polícia aqui?”

“Se você tiver mentindo...” - Sadie ameaça.

“Eu não chamei ninguém!” - Cassandra declara. - “Ninguém sabia que eu tava aqui, eu...”

“Ok.” - Paul solta. - “Digamos que você não tenha contado, mas não parou pra pensar que alguém pode ter seguido você até aqui?”

“Bom, isso não é problema meu.”

“Ah não?”
  - Ele ri. Sua mão agarra o celular e ele solta:
“Acho que vou soltar um refém.”

As duas mulheres em questão o encaram, confusas.
O silêncio se espalha pela sala até que ele desliga o celular, olha para Sadie e ordena:

“Acompanhe a senhora Rovezan até a porta, Sadie.”
   - Sadie o obedece, sem entender, e eu começo a pensar que liberar Cassandra Rovezan não é o real objetivo de Paul. Eu já vi isso. Meu pulso acelera com a expectativa de ver isso de novo.

Cassandra é empurrada até a saída da mansão, e seu olhar anuvia quando ela descobre o que isso significa.
Sadie abre a porta, com sua arma apontada para ela. Minha memória passa as imagens da cirurgiã passeando pelos salões de festas nas quais fui obrigada a suportar.
Seus pés avançam para fora, e o público parece prender a respiração com a vista. Ela avança com passos lentos em direção aos atiradores, e ao mundo lá fora, e Paul espera que ela tome uma distância maior do que a necessária. Talvez ele queira que ela pense que está a salvo. Que, por um milagre, escapou.

Então, no instante seguinte, a bala de 9mm da pistola de Paul atravessa a coluna de Rovezan, manchando seu belo jaleco branco de sangue.